A ante-sala

Flávio Marinho

 

Ivan e eu pertencíamos a um mesmo lugarejo, um mundo tão pequenino e tão distante que poucos seriam capazes de compreender sua verdadeira vocação. Eu a descobri não faz muito tempo: creio que nossa minúscula cidade há de ser entre muitas, um exemplo claro da desfaçatez entre os homens.

Aqui é pressagiado por todos, que pouco resta de esperança ao lugar.

Meu amigo, não raro entre nós, era daqueles que carregava consigo a incurável ferida dos que se despedem de filhos pequenos. Perdeu sua criança quando ela não tinha completado nem mesmo seis anos de idade. Dizemos, entre nós, os mais velhos, que por proteção essas dolorosas memórias são substituídas pelos prazeres cotidianos ou por sonhos duradouros. Ivan escolheu os sonhos.

Talvez, por isso, fosse a pessoa mais asséptica que conheci. A cada novo dia se renovava, livrando-se dos caprichos e rancores do anterior. Era incapaz de relatar os acontecimentos das semanas passadas e estava sempre povoado por novos horizontes. Esses, por sua vez, logo em seguida, tornavam-se dissabores.

Mas, certa vez, em uma de nossas conversas, relatou-me um pequeno conto que ouviu em sua infância, o único momento que pareceu manter uma lembrança do passado. Transcrevo-o segundo minhas próprias recordações. A única certeza que tenho é que ainda ressoa em mim o tom quase inaudível e cerimonial de suas palavras:

— Se bem me lembro, naquela manhã de domingo chovia muito e já era quase meio-dia quando meu pai cantarolou um cântico presente em um dos contos de fadas da nossa aldeia. De tudo o que senti sei que a chuva permaneceu em mim pelo barulho que fazia ressoar nas telhas de zinco; a melodia por entre os inúmeros contos, parte da vida de todos em minha comunidade; meu pai, pela sua sobriedade, e aquele ínfimo momento: eu, sentado ao chão, enquanto ele adocicava minha manhã, com a sua música, como um espaço mágico a habitar o meu mundo. Mas, pouco ficou em mim daquela canção. Guardei apenas algumas palavras que consigo, entre monossílabos e ranhuras, declamá-los nos meus raros momentos de tranqüilidade. De vez em quando, as palavras reaparecem em mim, ressoando como imagens de coragem, sabedoria, devoção ou caridade. Jamais as entendi por completo.

Nunca mais o lembrou.

Contudo, eu, apesar de todas as minhas conquistas de terras e prestígio, perto dele me sinto um fraco, pois, entre todos, era o único jovem ainda a carregar consigo alguma esperança. Passava, por mais que o desencorajassem, dias e noites debruçados em seus planos de reconstrução da cidade.

Desejando as realizações de seus projetos, percorreu incansáveis vezes os labirintos do governo. E assim se passaram os anos e as décadas. Somente em seu último dia de vida conseguiu, finalmente, atingir a tão sonhada ante-sala.

Da entrada, ela ficava a uma distância imensurável, embora não passasse de uma espessura de parede. Em todas as outras, ocupava-se conforme os usos prescritos em certos manuais. Mas era nela que, de fato, as decisões eram validadas, sem nenhum registro que pudesse comprometer qualquer um de seus ocupantes.

Nosso lugar havia se tornado a incongruente equação em que dois corpos são capazes de ocupar em um só tempo o mesmo lugar.

Ivan não foi o único a descobrir a insuportável exatidão dos fatos. No lado de fora se via da porta do governo até as divisas do estado, uma extensa vila que havia se formado, ano após ano, por todos aqueles que tinham estado lá, em busca da realização de sua inocente crença. A cada um deles restam-lhe apenas preces.

Seu fim só não foi mais triste porque a morte lhe soube dar o destino dos incautos. Pois quando saiu, desfeito e depois de perambular por horas entrou no pior Prostíbulo da cidade. Embebedou-se o máximo que pode e em seguida arrastou uma das mulheres para o quarto. E sem a mínima cerimônia, como alguém a muito íntima, se debruçou em seus braços e chorou. Ela o recebeu sem hesitar, afagou-o, como uma mãe carinhosa, e sem saber que não mais a ouvia, murmurou:

— Saberás pagar por isso?

 

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