A cidade e o sonho

Flávio Marinho

 

Inumeráveis são as histórias de quem tem como profissão a agradável tarefa de conhecer outros mundos. Além do meu pai, eu conhecia também o senhor Pedro Ortigas, outro viajante que vendia de tudo. Por conta disso, era de seu costume, entre amigos, contar infindáveis histórias sobre esses lugares e as pessoas que conheceu. Geralmente, em suas descrições figuram cidades muito tristes e personagens absurdos, em passagens de violência, mesquinharias e confusões. Mas há, entre todas essas narrativas, uma muito singular e sempre recorrente: é sobre um pequeno vilarejo, que ele descrevia como bucólico e aconchegante, muito idêntico às memórias que tinha de seu ambiente de infância.

Tinha sido chamado àquela cidade por uma senhora, dona de um pequeno armazém, desses tipos, abarrotados de quase tudo. No dia da visita, ao desembargar do ônibus na praça central, percebeu uma estranha familiaridade, como se um dia tivesse pertencido ao lugar.

Sentiu-se atraído a permanecer ali, mas como havia marcado hora com sua cliente, apresou seus passos em direção a loja que ficava numa estrada de chão, adjacente às principais ruas da cidade. Para seu espanto, ao se apresentar, teve a impressão de ser alguém muito íntimo e mesmo não sendo de seu feitio, ao sentir o aroma inconfundível de café fresco e bolinhos, desembestou, como diria em sua terra natal, a falar de suas memórias de infância. A senhora o ouvia atentamente relatar-lhe em minúcias das inúmeras tardes de chuva em que sua mãe sempre acabava lhe preparando uma saborosa guloseima. E mesmo antes de terminar seu relato, o balcão havia deixado de ser depósito de peças de armarinho para se tornar uma aconchegante mesa de café. O senhor Ortigas bebeu repetidamente, preto ou com leite e comeu os bolinhos até o limite que lhe pareceu respeitoso. Enquanto bebia e comia ouvia da simpática senhora noticias e histórias que deu pouca importância, pois não queria perder o sabor delicioso de suas próprias lembranças.

Antes de se despedir da cidade não poderia deixar de passar pela praça. Para chegar até ela, percorreu três ruas estreitas cercadas de pequeninas casas geminadas. Percebeu, enquanto caminhava, que estava diante dos olhares atentos de senhoras que se debruçavam corajosamente à frente de suas janelas, como quem desejasse ir a busca da amplitude de seus horizontes. Todas vestiam lenços de estampadas multicoloridas que o fizeram lembrar aquelas típicas velhas ciganas de sua cidade.

Ao entrar na praça viu reduzidos espaços ocupados pelo sol, já que era feita de inúmeras árvores altas e frondosas. Tinha também flores de todas as cores que se possa imaginar. No seu centro viu um coreto pintado com o amarelo e vermelho mais puro que possa existir; e um pouco adiante se defrontou a um pequeno parque com gangorras e balanços do tempo que ainda eram feitas das madeiras mais nobres. Sentou-se em um banco e como nunca se sentiu afagado por uma sensação inigualável de beleza e bondade.

Ainda pode-se ver menino, e como não fazia há muito tempo sorriu, e embora fizesse isso delicadamente com apenas um cantinho de boca, sua alegria era das mais triunfantes, honestas e com o mesmo alcance de mil dias e noites bem vividos.

Passados vários anos já traído pela memória, confundia-se imaginando que a imagem tão tenra da cidade, que não lembrava nem mesmo nome, tivesse sido apenas obra de sua imaginação.

Nas inúmeras viagens que fez ao longo do tempo entre aquele sonho e hoje, nunca havia visto nada parecido, e mesmo quando se referia àquela experiência aos amigos e familiares, dizia não saber ao certo se havia sonhado ou se de fato esteve lá um dia.

Hoje, seu semblante denuncia seus longos anos de trabalho. Seus olhos vivem semicerrados, deixando nítido o desejo de merecido descanso. Em suas viagens o que mais gostava, era de ficar olhando pela janela na tentativa de descobrir novas paisagens, mas atualmente nem mesmo isso lhe trás algum sabor.

Havia se decidido por se aposentar nesse ano e estava indo para uma de suas últimas visitas, dessa vez a uma cidade em que nunca esteve antes. A viagem era das mais longas que já fez, a noite começava a cair lentamente e se via no horizonte o sol enfraquecido entre imensas e cinzas montanhas. Estava recostado sobre a janela do ônibus, espiando por uma pequena fresta da cortina.

No último instante de vigília, quando os sonhos já lhe faziam vagar pelo passado, reencontrou-a. Lá estava ela: a pequena cidade perdida tal qual a deixara antes. De súbito levantou-se e gritou ao motorista que parasse. Já estava na porta quando este lhe atendeu. O que queria era imediatamente entrar novamente na praça, mas antes procurou a mesma rua de casas geminadas a qual não tardou a encontrá-la. Era a mesma rua, as mesmas pequeninas casas, com suas janelas de venezianas e de rebocos descascados, mas dessa vez com as cores e a densidade de um final de tarde. As senhoras ainda estavam lá, debruçadas com seus olhares de desconfianças e pensamentos distantes. Pensou por um momento que, só poderia ser obra de Deus manter este esconderijo protegido dos homens.

Antes que escurecesse apressou-se em ir visitar a senhora que havia lhe atendido tão bem. Estava lá, mas não como a imaginava: velha, com rugas e curvada como ele próprio. Ao contrário, estava tão jovem, tal qual a viu pela primeira vez. Disse que não o reconheceu e mesmo assim lhe serviu o café, aliás, o principal motivo que o fez estar de volta naquele lugar. Era o mesmo cheiro e o mesmo ar denso de um espaço acolhedor.

A praça era a mesma e tudo estava no lugar de antes: o coreto ainda amarelo e vermelho, as árvores frondosas, vivas e imutáveis, como se para elas o tempo não tivesse passado e o parquinho com o balanço em movimento como se uma criança tivesse acabado de deixar o lugar. Tudo estava no mais absoluto silêncio, não havia uma única alma viva que pudesse compartilhar com ele esta rara experiência.

Sentou no mesmo banco. A brisa recobria seu rosto como um véu de um macio que jamais havia sentido. Sem saber o porquê, memorou em seus tempos de juventude a imagem tenra do sorriso de sua primeira namorada e a alegria contagiante de seus filhos quando ainda pequenos. Sentiu remorsos pelos seus piores pecados e pediu desculpas a si mesmo pelas desatenções perante a vida.

Deu atenção, como nunca, às infindáveis rugas de sua mão e percebeu o quanto havia envelhecido. Sentiu por um instante a respiração ofegante para, logo em seguida, percebê-la se esvaindo como algo que deixava lentamente seu corpo.

Procurou sentir seu coração com a palma da mão tateando em busca de um pequeno resquício de vida. Só então se deu conta que estava diante de seus últimos respiros e abriu como nunca suas pálpebras para que pudesse enxergar sua última imagem em vida. Viu-a rarefeita, tomada pela penumbra da noite, mas que para um último instante lhe pareceu a feliz recompensa pelo seu sonho finalmente encontrado.

O ônibus continuou persistentemente a alcançar seu destino.

 

 

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