A trança

Flávio Marinho

 

 

Como todos, sofro, em todas as manhãs, a sensação estranha de me ver inverossímil diante de um espelho. Também sei que para alguns o simples fato de parecer-se duplicado no ritual matinal compreende um esforço, se não gigantesco, ao menos, penoso. Nesse caso creio eu que o que se vê nunca se parece um outro, fico imaginando a angustia de um homem ao ver sua alma posta diante de si completamente nua. De todos os seres humanos que sofrem tal aflição, há entre eles, aqueles aos quais podemos chamar simplesmente de esquisitos. Talvez, na linguagem não se tenha nenhum outro exemplo de uma palavra que soe tão prodigiosa ao seu referente. Tão servil ao que ela está indicando que qualquer outra explicação é sempre redundante.

Pois bem, todos devem conhecer entre seus entes alguns que sejam muito esquisitos, mas devemos lembrar que, ainda assim, são pessoas. Meu pai é uma delas. Mas em breve deixará de ser. Está morrendo. Enquanto escrevo estas linhas ouço seus gemidos vindos do quarto ao lado. Efeito mediato de seus pesadelos, aliás, coisa nada incomum, pois estes assombros sempre fizeram parte da sua história, conheço mais deles do que propriamente de suas aventuras. Recordo-me de minha mãe, sempre se queixando pelas inúmeras noites mal dormidas e da forma súbita como o seu sono era interrompido pelos gritos de meu pai. Disse-me ela uma vez que, geralmente ao acordar pela manhã era costume dele relatar o sonho. Alguns ela jamais esqueceu. Só me contou um:

Era da imagem de um homem cujo rosto sempre permanecia velado, talvez, pela insurgência das névoas do sonho ou por um medo arcaico do mito das mulheres de Gorgónes. Enfim, eram somente as mãos que estavam sempre visíveis em todos os detalhes. E tão mínimos que era possível perceber as rugas e a quase ausência de carne. Mas pareciam umas espécies de pinças muito delicadas a manipular cuidadosamente uma série de fios de cabelo. Era isso que estas mãos faziam: uma enorme e grossa corda trançada fio a fio. Cada ponto meticulosamente redesenhava o conjunto numa trama aparentemente finita, cujo sonho foi incapaz de abarcar.

Ainda há pouco o observei pelo buraco da fechadura, vi que olhava fixamente para uma mancha que destoa da superfície branca do teto. Está lá há anos. Por diversas vezes, ele tentou removê-la, mas sempre ela retornava como que possuída de teimosia, não havia nada de eficaz contra ela, nem o mais forte antimofo. Talvez ele esteja se recordando destes episódios, das horas a fio que se pôs a pintar, e de como ela lentamente ressurgia tomando de volta sua parcela de espaço no mundo. Mas olhando-o atentamente era visível que o que via, unicamente, era a si mesmo. A expressão de pavor que tomava sua face por inteiro, colada como uma máscara mórbida, era o retrato visível de sua alma atormentada pela própria existência e sua nada comovente falta de fé.

Por vezes entre os intermináveis gritos de meu pai retenho-me por longos instantes um olhar fixo sobre a figura de um homem que avisto  da janela de meu apartamento. Na verdade, pouco vejo dele, sei que possui pele clara e que aparenta meia-idade. Mas o que atraiu meu olhar sobre ele foi a sua posição fixa e silenciosa, sempre preservando um mesmo lugar. Por Ingenuidade, imaginei que daquele ponto no espaço gigantesco do mundo poderia desvendar os enigmas de uma vida humana e descobrir as aventuras mesmo que fossem a de um pobre homem permanentemente fixado num pedaço ínfimo da cidade, no entanto sobraram-me poucas lembranças.

O nome dele era Luis, soube também que era descendente de italianos, fora isso, ninguém sabia mais nada.

Continuamente estava lá, em todas as noites, fossem elas frias ou com aquele calor insuportável do verão porto-alegrense. Sempre, sentado numa banqueta, no mesmo lugar, como um funcionário de banco cumprindo rigorosamente seu horário de trabalho, e dando a impressão de estar à espera de algo que fosse mudar definitivamente sua vida. Conjecturei sobre inúmeras hipóteses a respeito de sua insistente permanência sobre a calçada daquela esquina. Sabia ao certo que não poderia ser aquilo seu ofício, como um vigilante ou coisa do tipo, pois naquele lugar em que ele estava não havia um comércio ou um prédio que pudesse indicar esta hipótese. Também pensei que pudesse ser um traficante de drogas, porém seria um lugar muito visível para um emprego deste tipo. As noites que se sucederam e com as constantes observações notei algo que me deixou ainda mais intrigado: sua imobilidade em uma posição nada confortável, pois mantinha sempre uma leve inclinação da cabeça em direção ao céu, e um olhar que mesmo com a distância que nos separava ainda causava em mim; a impressão de um total estupor. Dia após dia desenhei-o, apoiava um papel transparente sobre a vidraça e decalcava sua silhueta e nunca obtive nenhuma alteração. Foi este enigma que me manteve lá olhando-o longamente à espera de uma reação, um movimento brusco, algo que denotasse alguma presença humana. No entanto, mal sabia que algo de mais estranho ainda estava para acontecer e que eu seria a única testemunha:

Costumo descer todas a noites e embriagar-me em um bar ao lado de minha casa. Deve ser o mais sujo e o mais antigo da cidade. Parece um brinquedo antigo e perdido entre o pó e o esquecimento no fundo de um baú. Tinha a mesma impressão de todos os bêbados que o freqüentavam. Para entrar nele precisava-se passar por uma porta minúscula, o bar de fato não era muito pequeno em extensão mas, sua diminuta largura nos obriga a permanecermos em linha reta em frente ao balcão. Acho que isso evita que encaremos uns aos outros. Em uma dessas minhas bebedeiras, numa madrugada fria e de muita chuva, ocorreu algo que fez quebrar os sempre monótonos e acirrados debates dos bêbados sobre os rumos do mundo. Naquela noite, lembro-me que era sobre Hitler e seus novos adoradores. Mas antes mesmo que pudéssemos chegar a algum consenso, inusitadamente a chuva cessou, e uma intensa neblina invadiu o salão do bar fazendo com que todos corressem para a calçada. Ela praticamente nos cegava mas ainda assim percebi o vulto de Luis no seu lugar de sempre. De repente ficou tão intensa que pareceu ter engolido o próprio tempo, não conseguia ver mais nada, permaneci imóvel, pois tudo havia desaparecido. Nos instantes seguintes tudo se tornou tão aconchegante que passei a sentir que estava perdendo contato com o mundo externo, não consegui ao menos pensar, nem sequer me mover, ficaria assim não fosse no instante seguinte a interromper o silencio um grito de tom indecifrável, do qual não podia dizer se era de dor ou espanto. Foi quando pude reagir, mas mesmo antes que me pusesse a procurar uma saída, a neblina desapareceu novamente tão repentina como na chegada, percebi também que havia levado consigo o estranho homem. Não soube com certeza quem foi o autor daquele grito, mas imaginei ter sido ele.

No dia seguinte acordei bem cedo a fim de saber o que havia acontecido, mas ninguém soube do fato, nenhuma alma tinha sequer ouvido falar sobre a súbita neblina. Os bêbados recusavam-se a falar sobre isso, temendo serem ironizados por tal delírio de embriagues. Sei que de fato aquele homem havia sumido, o lugar estava lá, vazio. Passaram dias e continuou permanecendo assim, silencioso, sem aquele que lhe havia dado um aspecto tão singular. Algumas semanas depois e nem se lembram da figura.

No quarto ao meu lado, por mais que eu me esforce em ouvir, insiste em manter-se em silêncio, talvez porque a trança e seu sonho tenham finalmente terminado. Da minha janela vejo aquele espaço vazio que há alguns dias, pertenceu a alguém. Alheios a tudo isso, uma multidão desce a rua Borges de Medeiros gritando frases de ordem e desordem em meio a fogos de artifícios e uma leve chuva que insiste em cair.

 

 

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