O lavrador e a víbora

Uma pequena história a imitar as fábulas de Esopo e de La Fontaine

Alfredo Braga

Era uma tarde chuvosa e fria e o inverno ainda se estendia pelos campos enregelados quando um lavrador, ao voltar para casa depois de recolher um pouco de feno para a vaca com seu bezerro nascido há poucos dias, deparou-se com uma pequena víbora, toda enrodilhada e quase morta à beira do caminho enlameado. Aquele homem simples, que aprendera com o sofrimento e as dificuldades da vida, a compaixão, teve pena e ternura pelo desafortunado animal e por isso o recolheu e o levou consigo para o aconchego do seu lar, junto à sua família e ao calor da lareira.

A pequena serpente por ali se deixou ficar, e por entre as frestas do chão e das paredes esperou pacientemente até que um dia a primavera lançou as suas primeiras luzes pelos campos que reverdeciam, e as flores, e os pássaros, e todos os seres se alegravam com as cores, e os sons e os perfumes da nova estação.

Naquela manhã, portas e janelas abertas, a casa iluminada pelo sol, e a mãe ao fogão preparando a primeira refeição, ouviu-se um débil gemido. Pai e mãe correram para o berço onde já agonizava o seu rebento, o seu menino que hoje ia fazer um ano, e o veneno já se espalhando e lhes roubando a vida. Pela soleira da porta ia se esgueirando, em direção aos verdes campos, a pequena víbora.

 

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