Flávio Marinho"> <´p> 

 

Bianca

Flávio Marinho

 

Todos na minha rua, quando pequenos, admirávamos a beleza da doce Bianca. Entre nós o mais urdido por sua meiguice chamava-se André, meu primo, e que por sua timidez, era o que menos deixava transparecer. Confessou-me isso há pouco mais de um mês. Relatou-me também que certa vez, já crescido, encontrou-a num ônibus. Havia se sentado ao lado dela, mas não foi reconhecido e disso não tenho a menor dúvida, pois a moça diante de tanto assédio mal conseguia enxergar os que estivessem abaixo de seu nariz. Ele a seguiu quando desceu do ônibus, respirou fundo e se pôs em sua frente e, astutamente em voz profética, disse ser uma espécie de adivinho e que bastaria uma rápida olhada nas linhas de suas mãos para revelar seu passado. Só podia lhe dizer coisas sobre sua infância, mas foi o bastante para hipnotizá-la por alguns instantes. Tempo suficiente para beijar os lábios mais macios que já sentiu e sair correndo para nunca mais a ver.

Diante de tudo isso, não pude revelar que também a encontrei. Visitava um amigo quando a vi sentada na varanda de sua casa, costurava uma peça de roupa enquanto observava seus filhos brincarem no quintal. Parecia pensar em sonhos de tempos distantes, talvez de quando ainda fosse uma jovem cobiçada. Agora, nem de perto parecia a mesma Bianca. Tinha se tornado uma dona de casa de subúrbio, vulgar e de aspecto tão descuidado que lembrava as meretrizes gastadas da rua do porto.

Sorte dele poder memorar uma imagem de evanescência, enquanto eu, carrego apenas sonhos desfeitos.

 

 

contato   biblioteca   discussões   digressões   ensaios   rubaiyat   contos   textos   poemas   conexões   ao cubo