Mara Cunha">

 

 

Búfalos

Mara Cunha

 

 

Fechava os olhos a cada vez que lhe pesava o corpo. Seus pensamentos já eram leves: pó. Fechava os olhos quando um simples mover de pálpebras soava como soa o correr de uma manada de búfalos, assim acreditava. O sol se poria, ao cair uma pálpebra; duas, encontraria o céu. Movimento. Movimento. Aprendeu a mandar. Fechava os olhos, e lhe pesava o espírito. No escuro, junto a búfalos ameaçadores, podia silenciar. Conhecia a natureza dos búfalos; de olhos bem fechados, não veriam sua presença. Desta maneira, estabeleceu uma bem sucedida harmonia entre o céu e as violentas passagens dos búfalos negros. Mas, mover os lábios, seria como quebrar a fina transparência de um cristal, emitir um som, equivaleria a lançar um gritante amarelo no exato momento da nota mais silenciosa de Wagner. Conhecia os ritmos, e no escuro, sabia que não pertencia a eles. Conhecia o ritmo do seu coração, e também não pertencia a ele. O tempo era medido por intervalos entre sons e silêncios, e no escuro, viu que também podia ver. Para obscurecer a visão, começou a abrir os olhos. Abria-os com freqüência, apesar do estrondo. Erguia as pálpebras, e lhe pesava o mundo. Aí, começou a medir o tempo, também por intervalos entre claros e escuros. Dentro do tempo, viu como medir uma espera. Uma espera sempre mede mais do que um tempo. Determinou que suas esperas seriam brancas, então. Como maior é o branco ante o negro. O som de uma espera, seria o som do andar de urso sobre a branquidão da neve. Um dia aprenderia o desenvolvimento de um verdadeiro ritmo, aprenderia como um movimento pode ser, a um só tempo, alegre e furtivo, e que fosse leve, como realmente é o vazio. No chão, largados durante a fuga precipitada, pequenos animais mortos, resíduos balsâmicos de alguma fruta, folhas novas de um limoeiro que nascera há poucas semanas e gravetos secos da roseira, aquela que brota sob a janela e dá rosas verdes.

 

 

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