Flávio Marinho">

 

 

Carol

Flávio Marinho

 

Sabia, ao acordar-me, não sei como, que tal pesadelo era devido a uma visita à exposição de Susane. A obra que me impressionara tinha a forma de uma grande mesa de três lados e uma altura que tornava impossível avistar o que se encontrava sobre ela. Era possível avistar apenas uma sombra projetada sobre o chão, proveniente de uma luz que incidia diretamente sobre o objeto. Enquanto a imaginava, sofria com as lembranças do pesadelo. Carol sentia-se confortável, apesar de sua posição colocada num pequeno pedestal de aço e pressionada contra a parede. Uma pequena câmara negra que cobria seu rosto evitava qualquer tentativa de movimento. Sua única visão para o mundo eram dois pequenos orifícios posicionados a coincidir com seus olhos. Ela não se lembrava em que momento começou a viver em tal circunstância, pois em sua memória só restavam palavras, algumas acompanhadas de uma tênue imagem mental, outras de um profundo vazio. As palavras são tão estranhas - pensava ela - de algumas consigo formular uma imagem e em outras me ocorre uma determinada sensação. Sei, por exemplo, que vejo, e que vejo através de meus olhos, mas não consigo imagina-los, seja sua forma ou sua cor, sinto que são dois e conheço o que significa dois, e não sei se os acharia bonitos ou repugnantes. Que mundo estranho - perguntava-se a todo instante - mas o fato é que ele é o único que conheço. De vez em quando conjeturava sobre outros mundos possíveis, mas logo seus pensamentos se dissipavam assim que novamente seus olhos se fixavam sobre as pessoas que por ali transitavam. Seu olhar avistava até ao horizonte, no fim se via uma imensa linha vermelha percorrendo de forma semi circular o espaço. Na imensa sala formada por este arco, circulavam um cem número de mulheres seminuas e de barrigas protuberantes. De seus rostos convergia uma espécie de luminosidade, cobrindo assim suas nuances e por conseguinte as suas singularidades e que permitiam a Carol defini-las como fortes mas pouco confiáveis. Para espantar a nostalgia, Carol tentava imagina-las sempre como pessoas diferentes, vindas obviamente da parede atrás de si, ou o que ela imaginava ser uma parede; imaginava também diversas portas das quais entravam e saiam as pessoas, para onde iam não importava. Conhecia as portas e as paredes através dos sonhos. Conhecia também as escadas, estas eram suas preferidas, lhe causava certo divertimento imaginar pés que subiam e desciam pelos degraus. De tempos em tempos Carol recebia a visita de um homem - e era assim que ela conhecia o tempo, para ela um tempo era o período entre uma aparição e outra - sabe que já viveu algo em torno de dois mil e trezentos períodos - trajando sempre negro, se aproximava de costas a fim de não permitir que visse seu rosto. Ele permitia a Carol fazer uma única pergunta, e a resposta era sempre um sim ou um não, logo em seguida desaparecia por uma das portas imaginadas por Carol. Nesse dia a pergunta formulada foi a seguinte: Como posso vê-lo? Mas não obteve nenhuma resposta, talvez porque a esta pergunta não fosse possível responder sim ou não. Na verdade essa pergunta seguiu-se à anterior feita em sua ultima visita. Ela perguntara se havia algo além da linha vermelha, e a resposta foi sim. Na visita seguinte ela demorou-se a perguntar, não queria perder mais uma oportunidade. Pensou, pensou, e perguntou: Você tem nome? Sim. Ficou feliz em saber disso. Vez por outra, fazia perguntas que buscavam mensurar todas as coisas que ela imaginava, como as dimensões das portas, para fazer isso ela relacionava todos os objetos que habitavam aquele estranho mundo. A porta é maior que a cêrca que eu vejo à minha direita, e na visita seguinte voltava à pergunta, a porta é menor que aquela fileira de copos, e assim sucessivamente a ponto de encontrar a dimensão do objeto imaginado. O chão coberto de pequenos buracos permitia a Carol ver parcialmente o subterrâneo e os seres que ali habitavam e movimentavam-se a todo o instante. Era também possível ouvir alguns ruídos e algumas palavras perdidas de sua frase. Ela sabia que um ruído tem sempre um sentido completo, por isso prestava mais atenção a eles.

 

 

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