Carol e a noite

Flávio Marinho

 

 

Manuseando um de seus bolsos, Carol percebeu um pequeno pedaço de metal circular que podia manipular com certa facilidade. Pensou naquelas pessoas trafegando de um lado a outro, e por um momento pensou que, jogando aquele pequeno objeto em direção a elas, seria suficiente para se ver invadida por um daqueles olhares. Porém tantas imagens lhe vieram à cabeça. A grade que separava os espaços era um obstáculo tenebroso, pois só permitia uma passagem limiar, pequenas distâncias entre dois perfis de matéria sólida. Se lançado haveria portanto inúmeras possibilidades que o objeto cumprisse o seu trajeto tal qual fora planejado, ou que simplesmente adormecesse sobre os vãos para sempre, ou pior: que se mantivesse com uma parte deitada e estável e a outra, frente ao abismo. Tal espera seria um tormento, pensou ela. Mas o que haveria de perder afinal? Lançou-o e aguardou sua sorte.

Um leve movimento dos seus olhos para o alto foi suficiente para que em um instante, como impossibilidade da razão, se visse diante de um espelho.

Refletida, viu-se em inseto revestido de azul, com asas pontiagudas e imobilizadas sobre o céu. No vão, a carne em forma de um corpúsculo arredondado, tão corpo quanto entrada. Do aparecimento a sua sumidade a memória.

Palimpsesta imagem. Mais longínqua: dois pontos tão luminosos quanto o sol, tornando-se cada vez mais próximos e maiores, quebrando a escuridão diante de si. Carol concentra-se neles. A mesma luz que lhe dá o direito de ver, a cega, mas também a ilumina e faz com que ela imagine estar sendo vista por outro. Finalmente é atravessada pelo clarão e por um breve instante ela vê um semblante, um rosto que, logo desaparece.

O objeto atinge o chão. Nenhum olhar. Mas isto já não tem mais nenhuma importância.

Carol já conseguia pressentir a chegada daquele homem, mal esperava para ouvir aquele simples sim ou não. Mas naquele dia, antes mesmo que ela pronunciasse qualquer som, foi ele quem falou:

— Você consegue imaginar o que é a escuridão?

— Sim. — Respondeu ela.

— Não é dessa escuridão a que me refiro. Falo de uma outra, com densidade, aquela que é corpo e não ausência. Encontrei-a há alguns dias, surgiu diante de mim de repente. Não pude fugir. Por sorte encontrei uma parede, tateei-a durante longos minutos até que encontrei uma abertura. Me joguei sobre ela e cai em uma escada. Era imensa, mas podia ver o seu fim. Debrucei-me sobre cada um dos degraus, pude sentir cada um deles, percorrer seus veios, e sentir cada um dos seus pequenos defeitos. Acho que isso evitava imaginar que eu iria alcançar o seu fim. Finalmente atingi o último deles. Aquele espaço luminoso era tão pequeno que parecia ser impossível entrar, no entanto a altura parecia infinita. Havia uma mulher que assim que entrei chamou-me pelo meu nome,  parecia estar me aguardando, tive a sensação que a sua vida se resumia a esta espera. Sentei-me ao seu lado e ela narrou uma história que eu ouso lhe contar: — De mim saíram três rebentos, cada um deles teve a sorte que mereceu. Dei-lhes o que podia. O primeiro carregou hostilidade, o segundo fantasia e o terceiro a glória. Não pude evitar lhe tocar e acariciar seu sexo, seguiu-se um longo período de silêncio. Percorri aquele percurso por três dias consecutivos, subi as mesmas escadas e encontrei em cada dia uma mulher diferente, porém suas histórias foram sempre idênticas. Então contei nove: três infelizes, três loucos e três assassinos. Por mim mesmo, esqueci aquele caminho-tátil para sempre.

Carol adormeceu. Breve sonho: um porco se lança em meio a seus próprios grunhidos do alto de um morro, atrás dele uma mulher muda que desesperadamente tenta gritar. Subitamente: uma janela. Através dela um velho incessantemente conta seus objetos tortos e enferrujados.

Um outro tempo e o mesmo homem, novamente brusco. Dessa vez não deixou que ela falasse. Abriu sua maleta negra e dela retirou uma boca que deu a Carol. A partir daquele instante tinha adquirido uma nova memória.

No dia seguinte já eram três, olhou para os lados e se viu igualmente em mais duas vezes. Um segundo depois e todas já eram diferentes.

 

 

contato   biblioteca   discussões   digressões   ensaios   rubaiyat   contos   textos   poemas   conexões   ao cubo