Constantine

Flávio Marinho

 

Todos os dias, José Aras saia de sua casa para ver os primeiros raios de sol do amanhecer, na pequena praia entre as duas grandes colinas do seu lugar.

Na última madrugada daquele verão, antes que o sol se pronunciasse, decidiu-se a ir mais longe, ultrapassou a praia e dirigiu-se a uma das íngremes colinas.

Passou por uma estreita trilha que contornava um grupo de rochas até chegar ao cume, onde o terreno se tornava plano, e tudo mais silencioso do que antes. O ar melancólico do alto da colina era intensificado por uma velha mansão abandonada, que pertenceu a uma senhora chamada Constantine. Há muitos anos atrás, ela desapareceu misteriosamente e nunca mais fora vista. O lugar ficou lá abandonado, cercado de suas gigantescas cercas de ferro e das suas torres, com janelas parecendo serem capazes de olharem ao redor. A casa ficou tão desgastada pelo tempo que parecia moldar-se ao chão e ao espaço em torno dela.

José Aras, ainda que ofegante, deu mais alguns passos e se posicionou defronte a velha mansão, colou seu rosto junto à grade do portão e olhou para além do grande jardim, em direção as duas torres de cores verdes e com a exatidão de suas janelas circulares.

Nesse instante, lembrou que em sua cidade e muito além dos seus arredores, nas lendas que contaram, nos anos que se seguiram depois do desaparecimento de Constantine, transformaram-na em uma personagem de um crime hediondo. Em algumas delas dizia-se que fora degolada pela força de um machado, em outros que morreu afogada em sua banheira, ou ainda, que havia sido enterrada viva e que seu corpo repousa em algum canto naquela casa. E mais que histórias sangrentas de assassinatos, o lugar e a velha senhora tornaram-se também protagonistas de inúmeros casos de mistérios, pois não foram poucos os que relataram terem visto seu fantasma surgir atrás de uma das janelas das torres.

Ele nunca tinha visto o fantasma de Constantine e pensou que aquele seria o momento ideal, pois acreditava que os mortos só aparecem em segredo e somente quando tudo se encontra no mais absoluto silêncio.

Queria vê-la, comprimiu ainda mais seu rosto contra a grade, fechou os olhos e logo em seguida murmurou:

— Constantine.

Seus olhos se abriram e pensou:

— Mais uma vez

E soltou um novo sussurro, enviando-o através do vento às janelas da torre:

— Constantine.

Aguardou alguns instantes, esperando mais uma vez que um ser de plasma se anunciasse através de qualquer uma das vidraças da casa. Mas nada.

Em seguida, uma chuva começou a cair. Uma chuva fina e constante que transformou tudo em uma branca e densa neblina.

Antes que amanhecesse, de fato, e de que as ruas fossem tomadas por pessoas apressadas, voltou para casa e adormeceu, esperando sonhar com o seu fantasma ainda não descoberto.

À tarde, foi acordado por uma multidão que havia tomado toda a rua. Não demorou a segui-la em direção a velha mansão. Todos as pessoas do seu bairro estavam lá, com os olhos arregalados e estupefatos.

Na casa viam-se operários de toda espécie, estavam no telhado, nas janelas e nos gramados. Eram carpinteiros, encanadores, eletricistas e entre eles estava Constantine, trazida da morte. Ela acenava para a multidão e erguia seu corpo curvo tentando parecer mais majestosa

A viu brevemente, quando entrou; e esperaria o tempo que fosse necessário até que ela aparecesse em uma das janelas da torre.

Nunca havia se sentido assim, aterrorizado, mas ao mesmo tempo como alguém que habitasse um lugar inexistente ou mágico e acreditando ser capaz de ressuscitar os mortos.

Demorou poucos minutos para que o seu fantasma estivesse lá, onde o chamou, e por um breve instante teve a impressão que confrontaram seus olhares, como se fossem cúmplices de algum pecado.

 

 

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