O enterro

Flávio Marinho

 

O senhor Castilho, caixeiro viajante, visitou inúmeras cidades durante os seus trinta e tantos anos de profissão. Agora, já velho e cansado, dizia que todas se pareciam: pequenas e cheias de pessoas com olhares desconfiados e atentos. Sempre que se aproximava de alguma em que nunca havia estado, já não imaginava mais as mulheres, bebedeiras ou outras aventuras que estariam por vir, apenas conjeturava os possíveis lucros ou indesejados prejuízos.

Antes mesmo de chegar à estação consegui avistar toda a cidade: nada mais que uma grande praça rodeada do casario. Assim que desceu do trem, sozinho, viu-o seguir em frente e sentiu uma estranha solidão. O dia tinha sido do sol mais luminoso que já viu em sua vida, mas agora tudo havia se transformado em uma densa penumbra de final de tarde.

O cemitério é o primeiro lugar que costuma visitar. Acreditava poder conhecer uma cidade pelo modo que os mortos costumam ser enterrados. Se houvesse riqueza naquele lugar, era lá que conseguiria essa resposta. Já na entrada encontrou um sinal satisfatório para seus anseios: um gigantesco e suntuoso pórtico de mármore esculpido com delicadas cenas de anjos e demônios. No fim de seu passeio, próximo à cerca que dividia o espaço com uma profunda floresta de eucaliptos, viu um aglomerado de pessoas e não tardou a aproximar sorrateiramente e misturar-se ao cerimonial fúnebre. Eram muitos, provavelmente a cidade inteira. Um padre fazia as orações, enquanto mulheres e homens vestidos de negro permaneciam em absoluta reverência. Subitamente, ouviu um gemido que parecia vir do morto. E só, então, pode perceber, que ao lado dele uma mulher, vestida de noiva com um véu tão abundante que permitia ver somente o seu rosto, abraçada àquele corpo cinza, sorria sádica e altiva.

Nos instantes que se seguiram não se ouviu nenhuma palavra de reprovação ou a mínima interferência, somente olhares de passividade enquanto aquela cena tão repugnante continuava: o mesmo sorriso, a mesma cor e o imensurável véu.

O caixeiro permaneceu no mais absoluto silêncio, invisível a todos os outros. Sentiu, por um instante, vontade de gritar, mas contentou-se em, simplesmente, fechar os olhos e orar.

Pouco a pouco cada um deles, como quem quisesse dar sua parcela de afago, jogou sobre morto e vivo um punhado de terra, até o último deles. E logo foi a vez do coveiro, que sem nenhuma precaução lacrou o sorriso para sempre naquele túmulo e nas lembranças do forasteiro. O cortejo, agora entoando uma ultima prece, se dispersou antes mesmo dela ter chegado ao fim.

O senhor Castilho não quis se ver sozinho e, rapidamente, se dirigiu para a rua sem olhar para trás.

No dia seguinte, na estação, pegou o primeiro trem. E antes do embarque viu, novamente, o sol radiante. Por fim, uma suave brisa, tal qual um último suspiro de vida. Já acomodado em silêncio, fez uma nova prece, dessa vez desejando melhor sorte na próxima cidade.

 

 

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