Na estação

Mara Cunha

 

 

Pegou um livro rasgado, um vestidinho, e partiu, faceira. Talvez alguém a traga de volta antes que ela encontre um daqueles caminhões de refrigerantes; talvez, se ela voltar, eu a pegue no colo.

Direito, esquerdo, esquerdo, direito. É assim que Gezebel anda quando está feliz. E foi assim que entrou na estação de ônibus naquela tarde.

Chegando ao túnel que atravessa a estação, desceu as escadas compassadamente, e deparou-se com o vendedor de algodão doce e de amendoim açucarado.

Andou mais um pouco, e então, percebeu que estava num daqueles lugares que têm muitas entradas e nenhuma saída. Por ali, passavam pessoas muito altas, todas certas de suas direções. Lembrou-se e sentiu saudade das formigas de seu jardim.

Cansada de procurar sozinha a saída, dirigiu-se ao guarda e perguntou como poderia encontrá-la; ele, com um sorriso, respondeu:

— Ora menina, como todos a encontram!

Gezebel inflou as bochechas; era vã a sua procura.

Dali de onde estava podia ver a rua, e viu um caminhão passar; talvez estivesse indo naquela direção.

Mais um passo e encontrou o cão, sonolento, já enrolado feito tatu-bola:

— Sinta, Gezebel, como é quentinho este chão, e como é propício ao sono. — disse, já fechando os olhos.

 

Nesse momento, o do segundo crepúsculo, batia sobre ela um sol morninho, e o seu coraçãozinho batia, batia.

 

 

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