Giovana de Salles">

 

 

Extinguida

Giovana de Salles

 

Montes de sal. Uma sede infinita. Montes de açúcar... suas anotações estavam fracas.

Tentou diversas vezes. Escreveu por fim: ódio ócio ódio ócio.

A janela do seu quarto não produzia inspiração. Este raciocínio fez com que risse de si.

Precisava de interferências. O barulho já não era interferência. Cimento, caos, juventude, informação. A invasão, já não era interferência. Nem o medo nem o bizarro nem o feio.

Horrorizar-se! Disse em voz alta buscando impressões. Quase sentiu vergonha. Mas seus sentimentos se tornaram irreconhecíveis. Seu ouvidos, seus olhos. Nada.

Objetos! Sussurrou. Percorreu com o olhar seu pequeno quarto. Os velhos são colecionadores. Pensou isto com satisfação por tudo, mais ainda pelas duas caixas fingidamente escondidas embaixo da cama. Guardava em uma delas recortes de revistas, sobre formatos de bocas e olhos, e fotos dos amigos da pensão. Descobrira valor nas fisionomias. Na outra, algumas miniaturas. Sentada na cama com as caixas, perguntou: por que sentia fixação por rostos ovais? Não abriu nenhuma nem obteve resposta. Mas começou a soluçar. Alguma reação finalmente.

Escondeu-as feliz. Soluçou por meia hora. Cansada, pensou nos remédios. Desistira de tomar. E o cheiro do quarto melhorara. Ninguém gosta de cheiro de remédio. Nem de velho. Nem de velho que cheira a remédio. Mesmo assim, ninguém. Fora a impaciência, seu talento. Lembrava tanto o passado. Anos de inquietude! Com vinte, com trinta, com quarenta. Não conseguia aquietar-se. Afugentei-os, todos! Seus maridos diziam que era insatisfeita. Boa desculpa para a deixarem. Um a um. Um por década. Sete. Refletiu sobre a covardia.

Tateou a mesa, como fazia habitualmente quando precisava alcançar algum de seus objetos. Encontrou o maço. Ela não entendia, ninguém entendia. Aos oitenta e oito, com pulmões rosa. Deitou-se embaixo da coberta puída, mas estimada. Seus sonhos eram melhores com o cigarro ainda na mão.

Então vieram, para levá-la. Não entrou raio de luz alguma mais, só poeira. Que como as cinzas, pousa em mim.

Peço a consciência do instinto, que eu sobreviva por isto.

 

 

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