Manhã

Mara Cunha

 

Era difícil levantar-me da cama, mas naquele dia foi mais.

Depois de um tempo me esforçando para mover um músculo, levantei-me de supetão, tamanho o peso do meu corpo: nunca me senti tão leve. Olhei para a parede do espelho e vi a minha imagem na cama olhando-me de pé que olhava uma imagem refletida que me olhava.

O cheiro dos eucaliptos entrava pela minha memória adentro. Eram cento e doze. Nem um a menos. Contei. Zumbiam os insetos na manhã fresca. Que gostosura andar por aqui de novo, meu mundo de árvores com cheiro encantado!

Na estrada, antigos rostos passam na direção contrária, e se dobrasse a esquina, encontraria a mesma ruazinha estreita com casebres pobres, e na mais estranha das casas, talvez ainda visse o Laércio, o menino mais estranho dos estranhos que encontrei. Não, também não seria desta vez.

Com os mesmos passos leves, cheguei até à porta dos fundos. Com martelo e pregos em punho, Francisco conserta uma das dobradiças. Um bom-dia sem resposta. Velha casa, raiz de sonhos e pesadelos. Ela ao fogão, terminava o almoço. Entrei, mas não me sentaria à mesa, naquele dia, para o almoço.

 

 

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