A mulher

de umas certas metáforas de Borges

Alfredo Braga

 

Por uma porta espreita uma mulher.

Está ali há muito tempo; os homens e as mulheres a olham; uma vez eu a vi.

Os que a vêem têm de se aproximar; percebe-se que há muito a buscavam; a mão se apressa em roçar a carne que a espera sem remorso; a boca macia e poderosa ri com precisão no rosto sério.

A mulher outra coisa quer.

É mais que um gesto feito de olhares; os homens a pensaram e são pensados por ela e ardem para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterna, a mulher que ontem à noite deixou cheio de assombro aquele homem na rua, e a mulher que nesta noite sorriu para outros homens. Tem sede, quer estragar, abater urgentes quimeras.

Do outro lado de umas portas, entre cheiros e espelhos, infatigavelmente sonha a mulher o seu singelo sonho de salamandra belíssima, e a mão se anima quando a percebe porque a carne se anima, a carne que em cada contato pressente a solidão dos inumeráveis homens e de outras mulheres que a modelaram e se deformaram.

Às vezes, dá-me pena; às vezes, tenho medo. Tanta fé, tanta certeza, tanta impassível ou rígida soberba, e os anos passam, iguais.

 

 

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