Homem não procurado

Flávio Marinho

 

Quando o conhecemos aparentava não pertencer ao nosso mundo. Acreditava vestir-se elegantemente e era dotado de um orgulho e de uma felicidade contagiantes. Dizia ser daquelas tradicionais famílias de cidades do interior, da qual nunca tínhamos ouvido falar. Gabava-se por ter um irmão juiz e outro que ocupava um importante cargo no governo estadual. Lamentava-se por ter sido o mais infortunado na vida, já que era apenas um gerente de vendas de uma multinacional qualquer. Não foram poucas as vezes que o vi portando sacolas de compras das butiques mais famosas.  Era desprovido da mínima humildade, sempre criando situações para que os outros pudessem reconhecer sua riqueza. Coisas do tipo que envergonhariam qualquer ser minimamente elegante. Em várias dessas ocasiões, esforçava-se para que todos vissem os vários talões de cheque e cartões de crédito que possuía. Por vezes esquecia propositadamente, em um local visível a todos, extratos bancários de uma soma considerável. Era um prazer para ele relatar os detalhes do seu carro "último tipo", algo como um acessório ou a potência do motor. Todos o invejavam por sua agitada vida social, pois não havia uma única festa a que não fosse convidado. Suas namoradas eram sempre do tipo atlética, algumas loiras, outras morenas, sempre lindas e apaixonadas.

Era comum encontrá-lo pela cidade, sempre procurando aparentar muita pressa e dizendo ter sido convocado para uma reunião no escritório. Em geral, ou era para tratar de assuntos financeiros ,ou de um novo produto que estava para ser lançado. Numa dessas vezes, resolvi segui-lo: Vi quando se sentou num banco de uma praça, cabisbaixo, com as mãos sobre o rosto e ficar assim pelo menos, por uma hora. Depois disso ergueu-se, alisou o paletó, ajeitou também o cabo da bengala e caminhou até à praça seguinte.

Alguns anos depois o encontrei novamente, agora recostado sob uma marquise, maltrapilho e encolhido como um feto. Mal pude olhá-lo, ficou lá,  parecendo não mais acreditar em sua grandeza, e talvez ainda, imaginado que tinha vivido, de fato, um passado entre o luxo das noites burguesas e o carinho de mulheres cobiçadas. É essa ultima, a imagem que eu carrego. O destino lhe deve, ao menos, um enterro digno.

 

 

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