Noites felizes

Mara Cunha

 

 

Ah, que noite feliz terá sido esta!

 

É do conhecimento de todos que sou uma ótima cozinheira. Faço de um tudo. Preparo o melhor quitute, e durante trinta anos só me dediquei a isto.

Todos os dias, desde o primeiro, preparo o jantar, o melhor, todos sabem.

Espero; ele chega às sete. Já tenho a mesa posta e arrumada. Preparo o prato dele e ele diz: menos, um pouco menos! Ah, mas eu sempre coloco um pouquinho mais, ele come tão pouco. Depois, já não nos primeiros dias, ele chega, toma uma cervejinha. O jantar. Como sempre. E como todos sabem, um ótimo jantar, porque me dediquei a isto. Depois da cerveja, o prato dele: um pouco menos! Depois ainda, após muitos jantares, as cervejinhas logo depois do trabalho, e ele me confessou que gostava de jantar um pouco mais tarde. Para mim tudo bem, todos sabem. Depois das cervejas, o jantar, lá pelas onze. Eu o espero. O prato dele. Um pouco menos. Eu sempre coloco um pouco mais. Ele come tão pouco. O jantar é tão bom. Eu sou uma excelente cozinheira. Todos sabem.

Eu o espero. Um ótimo jantar. Lá pelas duas. Um pouco menos. Um pouco menos. Trinta anos. Um pouco menos.

O menos se tornou tão pouco, sabem?

Eu o espero.

As cervejas.

A madrugada.

Percebi que posso ficar sem o jantar. Gosto de pastel e até de cachorro quente. Pra mim, tudo bem. Alguém aqui pode me dizer por que precisamos jantar? Eu não preciso.

 

 

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