Noturno

Alfredo Braga

 

Já era um homem velho. Veio daquela mesa do fundo do bar, e com a garrafa numa mão e o copo na outra, pergunta se podia beber em minha companhia. Só os dois permanecíamos àquela hora.

Parecia que não se incomodava com as roupas gastas, mas a não ser pela barba mal feita, vestia-se com cuidado. Apresentou-se com cerimônia, naturalmente, ou para mostrar que não pertencia àquele ambiente, ou que em outro tempo fora bem recebido em outros lugares. Sentou-se e ofereceu a sua bebida. Para retribuir, pedi dois copos limpos e mais outra garrafa. Depois de algum tempo e de alguma conversa ligeira, contou-me que havia passado muitos anos numa prisão mas não quis dizer qual fora a circunstância que lhe trouxera tal azar. Pediu-me desculpas por ter aludido a esse desagradável episódio da sua vida e voltamos a falar de amenidades. Assim pensei que seria mas, devagar, insidiosa, uma densa amargura ia transpirando de suas palavras.

Percebia-se que conhecia História, e abordava o assunto como se fosse uma outra ironia do Tempo, de uma matriz que vai gerando sempre a mesma trama, a mesma cama-de-gato, o mesmo jogo-da-velha, com variações mínimas, de modo a nos parecerem muitas e importantes, e apesar de tanto tempo, de uma História tão antiga, continuamos a acreditar que somos únicos, ou melhores, e as nossas ações, novas, escolhidas, justas.

Enquanto conversávamos, levantava-se seguidamente mas logo voltava a sentar-se e ficava calado, percorrendo com os dedos magros os contornos das antigas marcas e a extensão das outras manchas recentes que cobriam o tampo de mármore antigo e ordinário da mesa. Depois de um desses fundos silêncios pareceu tomado de uma certa espécie de coragem, ou desesperança, e disse:

— Não sei quem és ou o que fazes nem o que te importa. Não sei por que estás aqui. Faz de conta que realmente estamos aqui e que já estamos bêbados.

Eu estava bêbado, mas ele falava firme e de pé dizia em voz muito baixa, inclinando-se sobre a mesa, agora com um leve sotaque estrangeiro:

— É terrível a mulher que se deita contigo ainda trazendo entre as pernas e os pelos que acaricias a marca terrível de outra noite.

Segurou o copo mas não bebeu. Olhou aflito para a rua, como se esperasse alguém que tardava, e continuou a falar, grave:

— Aquele sinal te recusa, anula, mostra como és pequeno e desnecessário; dá com precisão a tua última medida; és daqueles, és mais um, és nenhum; ela te conta, silenciosa e serena, com aquele cheiro acre e úmido que não é o teu e nem o dela, e te afasta, com antiguíssima sabedoria, enquanto te abraça e te beija os olhos.

Sem saber o que responder, eu olhava para ele. Colocou o copo na mesa com minucioso cuidado, e olhando cansado em direção à porta disse ainda, já se afastando:

— Mas não te preocupes, é simples, quer apenas viver, da maneira dela, como nós.

E quando ia passando pela porta de vaivém, uma mulher com a boca vermelha e olhos cansados, ainda moça, entrou e pediu um café. Enquanto esperava, encostada ao balcão, olhava mansamente através do espelho para as mesas vazias e as cadeiras estofadas com plástico vermelho. Tomou o café com absorto vagar e depois, revirando a bolsa com chaves de muitas portas, muitos números de telefones, batons, escova de dentes portátil e outros objetos, leve, indiferente, sorriu para mim, e também fomos embora.

Amanhecia, como os outros dias.

 

 

contato   biblioteca   discussões   digressões   ensaios   rubaiyat   contos   textos   poemas   conexões   ao cubo