Oblivion

Juliano Z. Barcella

 

O jazigo da família fica a cerca de trezentos metros do portão de entrada, ao lado do mausoléu dos frades franciscanos. Os familiares formam, deitados, duas colunas como beliches em cabines de trem. Aos seus pés repousam as placas de mármore branco e as fotos legendadas por frases em metal cromado.

Não havia mais voltado ao cemitério após o último funeral. É noite de carnaval. O céu está limpo. Pode-se ver ao longe os fogos que antecedem a primeira escola de samba na avenida. Um clarão ou outro vislumbra formas e projeta sombras de um filme esquecido.

Diante do jazigo Pedro procura uma palavra, um sentimento. Sua fé em qualquer transcendência há muito secara. Em meio às poucas orações que sabe pronunciar faltam vocábulos. Tenta dizer algo em direção à tumba, o que o faz se sentir ainda mais ridículo. Não devia ter vindo. O impasse que imaginava se realizara. Não sabe como sentir tal tipo de falta. Fechou os olhos e deixou os pensamentos correrem livremente. Imaginou um prado, o infinito e uma tempestade da qual não pudesse se esconder.

Quando abriu os olhos as luzes dos fogos de carnaval haviam sido substituídas por outras de velas. As chamas indecisas faziam as sombras dançarem. Percebeu um senhor que rezava à frente, assim como um grupo de frades em vigília diante do túmulo vizinho. Quanto tempo haveria durado aquele transe? Como não notou a chegada das pessoas? Murmurou algo como um adeus, que pairou sem resposta, e depois se foi na escuridão.

O mais jovem dentre os frades ficou curioso em saber daquele senhor e seu abandono em meio à noite. O senhor respondeu que era aniversário de morte do filho. Coincidiu com carnaval este ano. Então voltou à oração. Ficou ali por mais algum tempo. Depois fez o sinal da cruz, beijou as pontas dos dedos da mão direita e tocou a imagem de Pedro congelada sobre a lápide fria.

 

 

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