Flávio Marinho">

 

 

O escritório

Flávio Marinho

 

Hoje era seu primeiro dia de trabalho. Sentou-se no lugar ao qual haviam lhe indicado. Sobre a mesa encontrava-se uma máquina de calcular do tipo que imprime, onde podia se notar uma tira imensa espelhando-se em direção ao chão que parecia não ter fim. Havia também uma máquina de escrever aparentemente muito antiga e que talvez, por esquecimento do usuário anterior, ainda guardava uma folha de papel dando a impressão que o trabalho tinha sido interrompido às pressas. Fora isso, se via não mais que uma resma de papel branco e um estojo contendo alguns clipes e lápis. As gavetas estavam, todas, absolutamente limpas, as quais não tardou a enchê-la com suas coisas: uma camiseta, várias pastas de cores diferentes e alguns pequenos álbuns de fotografia do qual escolheu uma única, colocando-a cuidadosamente em um porta-retrato. Único objeto a lhe fornecer uma pequena janela entre mundos. Em seguida ajeitou-o sobre a mesa em um ângulo de maneira que pudesse ser visto pelos demais.

No ambiente, uma sala ampla, contou exatamente outras noventa e nove mesas iguais a sua, dispostas rigorosamente em três fileiras de trinta e três cada, com exceção da última que continha uma a mais, esta por sua vez distinguia-se das restantes, já que estava colocada em posição oposta às outras: era a mesa do chefe. De uma canaleta no teto disposta em linha reta saiam filetes metálicos, fazendo incidir uma suave luz sobre cada um dos empregados.

Após essa breve vistoria iniciou-se nas rotinas de seu primeiro dia de trabalho.

Não demorou que passasse a sua primeira semana no novo emprego, e assim foram as seguintes, em um ritmo constante de preenchimento de inúmeros papéis em branco.

Passado o primeiro mês já não era mais um ser estranho. Os sorrisos de seus colegas não mais pareciam aquelas suaves demonstrações de simpatia, mas sim aparentemente francos e bondosos. Já circulava com desenvoltura pelo escritório e passou a freqüentar repetidas vezes outros ambientes: seus preferidos eram a pequena cozinha onde se costumava tomar café e um imenso depósito que conhecera há poucos dias. Neste se via imensas pilhas de documentos, do chão ao teto, acumulados ao longo de vários anos, era tamanha a desordem que algumas se encontravam caídas, abandonadas à própria sorte. Ali eram depositados também, todos os móveis antigos, como mesas e arquivos. De alguma forma aquele ambiente o atraia. Não eram poucas às vezes, em um único dia que, encontrava alguma justificativa para ir até lá bisbilhotar. Gostava de vasculhar as gavetas, as pilhas de papel, verificar as datas, assinaturas, os memorandos, talvez porque significassem a única possibilidade de reconhecer aquele lugar.

Foi numa dessas incursões que descobriu, guardado em um dos muitos arquivos, uma imensa pilha de livros. Tinham um formato retangular, do tipo grande, com a inscrição de um ano diferente em cada um deles. Todos, cuidadosamente encadernados em capa de couro preta, muito parecidos com livros de contabilidade. Porém, o que abrigavam estava muito além das somas e subtrações de balanços patrimoniais. Eram diários, contendo relatórios de algum narrador muito preciso. Os relatos sobre o que ocorria no escritório eram minuciosos, dia após dia, referiam-se aos mínimos acontecimentos, até mesmos as impressões causadas no relator sobre o que poderia significar um simples balançar de cabeça. Teria passado a noite inteira ali, se deliciando com aquelas narrativas, caso nesse momento não tivesse sido interrompido e obrigado a sair. Pensou em falar sobre os livros com um dos seus colegas, embora achasse estranho o fato de ainda não ter sido informado. Provavelmente era segredo. Mas, se assim fosse, eles não estariam guardado em um lugar tão desprotegido. E afinal quem o teria escrito? Imaginou ser o chefe e tentou justificar essa prática como uma atividade comum nas empresas em décadas anteriores.

Não podia fazer mais nada por enquanto, restava a ele conter a ansiedade. Já era fim de expediente e achou melhor averiguar no dia seguinte e só então comentar o acontecido a alguém.

A noite foi longa, mais do que podia imaginar, teve pesadelos, acordou por diversas vezes e a cada pergunta que formulava sobre o que tinha visto, sequer uma única argumentação ponderável lhe vinha a mente.

Chegando no escritório na manhã seguinte, estava tão afoito, que nem ao menos se preocupou com alguma justificativa para ir até o deposito.

Vasculhou todos os livros e não tardou a descobrir o correspondente ao ano atual. O único com páginas ainda brancas. Percorreu uma a uma até a última: o dia anterior. Sentiu medo e uma sensação castradora ao ler as descrições de tudo o que havia acontecido com ele, da chegada ao escritório à descoberta dos livros. Detalhavam, até mesmo, os minutos restantes do dia em que esteve sentado perplexo e pensando. O prazer que sentiu ao ler os livros referentes aos anos passados, fora substituído, agora, por uma sensação de repugnância.

Enquanto lia relatadas as suas ações, comportamentos, trejeitos (até os que ele desconhecia) e mesmo certos vícios de postura, lembrou de um pequeno conto que ouvia quando criança: de um tal lenhador, que amaldiçoado por uma feiticeira deveria escolher entre perder uns dos braços ou jamais poder olhar novamente sua imagem refletida no espelho e ponderando resolveu não escolher nem uma nem outra e convenceu a bruxa a trocar o braço por uma das pernas, já que precisava mais dele para poder trabalhar e sabendo que sem a possibilidade de se ver tornar-se-ia mau e egoísta já que seus pais lhe ensinaram, e ingenuamente entendeu dessa maneira, que os homens devem, sempre, procurar olhar a si mesmos.

Os relatos seguintes continham também informações sobre todos os demais funcionários, com a exatidão de cada acontecimento, cada piscar de olho, uma descrição obsessiva de todos os dias, horas e minutos daquele lugar. Acreditava ser obra do seu chefe, um homem o qual pouco conhecia e que passava a maior parte do tempo fazendo cálculos ou falando ao telefone. Admirável o fato de um homem possuir uma memória tão gigantesca, e mais espantosa ainda, sua paciência, ao menos suficiente para, a cada final de expediente, esperar a saída de todos e minuciosamente escrever sobre as ações de cada um dos noventa e nove empregados.

As idas que se seguiram ao deposito já não eram mais um prazer e sim uma obsessão, mal conseguia executar suas tarefas rotineiras. Acostumou-se a chegar mais cedo para ler os relatos do dia anterior, assim sucessivamente dia após dia.

Seu interesse por aqueles livros também já não era mais um segredo, foi flagrado por diversas vezes pelos colegas e até mesmo pelo próprio chefe. Nunca, nenhum deles, fez qualquer comentário. Quando sentia confiança em algum deles, fazia perguntas, mas as respostas eram sempre desconexas ou evasivas, os mais afoitos, chegavam a trocar de assunto.

Mas era um bom observador e podia notar nos olhares um certo desconforto. Sentia a impressão de ter tocado em algum segredo, estava cada vez mais certo de que havia algo escondido no interior daqueles diários.

Era comum também ouvi-lo fazer certos comentários a respeito do que tinha lido, certa vez esbravejou sobre o desconforto que tal prática causava ao ambiente e nos dias de maior indignação reclamava da apatia de todos diante das imoralidades que representavam aqueles livros.

Mas, passado algum tempo, as leituras foram ficando monótonas, só então percebeu que as descrições eram sucessivas repetições, e ai residia o segredo da fabulosa memória do relator: poucas mudanças ocorriam entre um dia e outro. Achando aquilo uma estupidez, resolveu então dedicar, novamente, suas atenções ao trabalho, se lamentando pelo tempo perdido. De fato, estava enfadado e resolveu que nunca mais leria os diários e sempre que precisava levar alguns papeis para lá, pedia para que alguém o fizesse por ele, pois já lhe causava náuseas entrar naquele ambiente que agora lhe parecia insalubre e mórbido.

Passado o êxtase dos últimos acontecimentos, os dias que se seguiram tornaram-se cada vez mais chatos. A ida ao escritório passou a ser uma tarefa angustiante, as noites ficaram cada vez mais longas e os dias pareciam não ter fim.

Em meio a isso passou a sofrer perseguições como se tivesse feito algo de muito ruim contra todos, mas não se lembrava de nada, nem uma única palavra ou gesto de ofensa contra qualquer um deles. Inicialmente, pensou ser uma situação ocasional, mas os ataques passaram a ser uma rotina freqüente, seus colegas o molestavam das maneiras mais variadas e covardes: isolando-o, fazendo insinuações maldosas ou lançando gracejos, e tão diretos que imediatamente reconhecia serem contra ele, sem contar os olhares de desprezo que não demoraram a se tornar odientos. Ele já tinha aprendido a fingir não ver ou escutar, mas sabia que absorvia cada um deles no mais íntimo da sua alma. Os comentários passaram a se tornar mais freqüentes e cada vez mais carregados de rancor. O grupo em torno dele parecia mais coeso e fortalecido, como chacais espreitando uma presa já sem forças para reagir. Seu chefe permaneceu neutro, o que acontecia pouco lhe importava, desde que a produtividade se mantivesse a mesma.

Por vezes chegava a se confundir e pensava que tudo seria apenas uma paranóia sua. Mas, as evidências eram tamanhas que não poderia negar mesmo se quisesse, pois sempre que formulava uma trivial pergunta sobre assuntos do trabalho não obtinha resposta, ou se respondiam falavam com tom de desprezo.

Passou novamente a ler os diários esperando encontrar relatadas as ações que vinha sofrendo, mas não viu uma única palavra sequer a esse respeito.

Resolveu que tinha de reagir e que a única maneira era dizer o que vinha acontecendo, descrevendo cada fato com a máxima exatidão. E em cada dia passou a escrever um relato preciso. Narrava cada olhar, cada gesto, risada ou palavra. Acostumou-se a andar com um bloco de rascunho para poder registrar sempre a primeira impressão, a qual considerava a menos passível de erros.

Passou novamente a visitar o depósito diariamente e colocava juntamente ao relato do dia anterior as observações que havia escrito. Acreditava assim que, se a função daquele diário era de preservar uma narrativa fiel dos acontecimentos, teria ele o direito de relatar o que vinha ocorrendo, já que se propôs a escrever a mais pura verdade. Sentia-se aliviado dessa maneira e o convívio com os outros já não era tão penoso. Pode passar assim alguns dias de trabalho num ambiente que já não representava uma clausura, porém, não durou mais do que uma semana.

Ao abrir o diário na primeira manhã da semana seguinte, encontrou juntamente aos seus relatos, exatamente outros noventa e oito, pois cada um dos seus colegas havia resolvido escrever sua versão sobre os fatos. Todos sem exceção e cada um deles contendo o que podia haver de mais insidioso, mentiroso e deturpado. Foi então que percebeu o quanto tinha sido ingênuo, que da sua reação resultou em uma outra, mais violenta e cruel. Toda sua tarefa tinha se tornada nula e todo seu esforço se perdeu naquela montanha de relatos conflitantes e absurdos que tornaria impossível encontrar, mesmo entre os leitores mais atentos, a verdadeira noção do que realmente estava acontecendo. Decidiu como estratégia denunciar a manobra ardilosa usada pelo grupo, mas nada adiantou, pois nos dias seguintes apareciam outros relatos semelhantes aos seus, dando a entender que havia uma dezena deles na mesma situação, e que todos eram tão benfeitores quanto malfeitores ao mesmo tempo. Por vezes o colocavam no lado oposto, que se lido por um outro, alheio aos acontecimentos, não conseguiria discernir o falso do verdadeiro, portanto, tudo seria relativo.

Silencioso, procurava outras estratégias para contar os fatos. Resolveu escrever um livro inteiro, narrando o ocorrido e colocá-lo junto aos outros. Nada adiantou. Decidiu-se, finalmente, se calar. Sabia que não havia lhe restado grande força, e ao mesmo tempo pensou que um dia seria esquecido. E pacientemente esperou, até que a morte lhe confortasse.

Sei de tudo isso porque também estive lá, era um dos noventa e nove restantes. Mas agora já não pertenço mais àquele lugar, embora o lugar ainda me pertença.

Os livros continuam, secretamente e incansavelmente, sendo escritos todos os dias.

 

 

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