O Livro de Or

Flávio Marinho

 

Seus pais, além da imensa fortuna, confiaram-lhe o nome de seu avô. Herdou também uma educação muito refinada e um gosto criterioso em decoração. É proprietário de um apartamento na avenida mais luxuosa da cidade, onde dispõe muito adequadamente no espaço o que há de mais caro, requintado e arrojado do design moderno. Não fosse a sua estranha forma solitária de vida, poderia ser um perfeito socialite e freqüentar as festas mais disputadas pela elite local. Mas como exigir isso de um homem, cuja maior parte do tempo é gasta percorrendo sebos do mundo inteiro à procura de livros raros. Em sua casa, dispunha de um local privilegiado para a guarda de seus tesouros. O mais raro entre eles datava de 1543. Era de origem italiana e fora produzido por abades da antiga comunidade de Lati e descrevia minuciosamente em ordem decrescente todos os pecados possíveis. O catálogo era dividido em sete grupos, que equivaleriam aos pecados capitais e também propunha uma punição para cada um desses deslizes: partindo de um simples pai nosso, passando pela auto flagelação e chegando à morte. A falta considerada de maior gravidade, por estranho que possa parecer, era o da "preconização", ou seja, seria punido com morte aquele que pronunciasse, mesmo que durante o sono, qualquer uma das palavras proibidas, listadas no chamado "categorium". Devido à impossibilidade de listar os mil e tantos vocábulos, prefiro enumerar aqueles que ainda recordo e considero, sem sombra de dúvidas, dos mais absurdos: boca, anichar e cochicho.

O livro, por si só, pouco representa. Retirada a curiosidade sobra, senão, um infinito número de regras, os quais deslocados da origem e do tempo não serviriam a mais ninguém. Mas, o livro chama a atenção pelo simples fato de ser antigo e único, é o que nos resta dizer sobre ele, e é por este e não outro motivo que ele gastou uma boa soma em dinheiro e o conserva como parte de sua vida.

De tão obcecado por eles, sonha um dia, encontrar o Livro de Or. O desejo é tamanho que em cada palavra pronunciada por ele sobre o tal livro, notava-se um certo eco de excitação. Nunca fez um relato muito preciso sobre ele, pois se referia sempre a um ou outro conteúdo que em certa ocasião tomou conhecimento. O Livro de Or é tido como o objeto de maior desejo de todos os colecionadores, pelo menos aqueles aficionados por esse tipo de iguaria. Na verdade, ninguém nunca viu, sequer, um único exemplar e nem ao menos se conhece autores que tenham feito menção a ele, sabia-se, apenas, através das narrativas passadas de geração a geração, dos inúmeros mitos contidos no livro. As lendas referem-no como uma espécie de objeto proibido, pelo menos o fora há dois séculos atrás, pois segundo contam, eles abrigavam mensagens de tamanha infâmia que, poderiam, se mal interpretados e assimilados por todos os membros de uma comunidade, levá-los a inteira ruína. Ouvi dele, também, relatos de certas seitas que foram fundadas a partir de alguns significados, ainda que deturpados, das histórias conhecidas do livro. Resta saber o alcance real das proporções entre a corporeidade de meros objetos e as projeções de seus conteúdos invisíveis.

Nunca me interessei por tal livro. Sei que ele ainda o procura.

 

 

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