Ônibus

Alfredo Braga

 

São onze horas da manhã, está quente, e tenho o tempo. Estou escrevendo na lanchonete da rodoviária, num momento de calma (coisa rara em mim) e apenas perpassam no ar, desde esta manhã, e agora por entre os ruídos e o tumulto deste lugar, lembranças; vou me lembrando e ainda me demoro em algum dia, em alguma noite. Há um par de anos venho pensando nisto; não por este ou por aquele motivo; apenas já tive a minha farta cota de erros, e de alguns acertos, de prazer, de humilhação. E lentamente, ou relutantemente, vou compreendendo Zenão. Sei como foi; tenho boa intuição e não deduzo tão mal. Gosto de Ray Bradbury, o dos primeiros livros, e de Jorge Luis Borges, que aparenta ser tão fácil; e sou egoísta, mas há algum tempo desconfio de opiniões e não me atraem as rígidas certezas, os vulgares mistérios, nem esta solidão.

Era só para passar o tempo mas, como de hábito, tenho de falar mais: sempre tive receio de ser mal interpretado, e não poucas vezes verifiquei que o temor por esse desconforto não é infundado; há pouco tempo aprendi que o entendimento, ou o outro lado, flui aquém ou além das palavras, nas entrelinhas, nos silêncios, sempre através de um rito anterior; o som e a forma e umas quantas imagens, servem apenas para preencher alguns espaços, ou alguns vazios, ou como que para tatear, roçar o que não se vê, o que se pressente por detrás de um olhar, ou da sua ausência. Mas isto não ocorre só com as palavras: certos objetos, certos atos que apenas por displicente convenção se pretendem cheios de justos conteúdos, são como portas que por fora se imagina abertas e que antes do que acolhedoras passagens são barreiras intransponíveis: nenhuma palavra, nenhum gesto, nenhuma lembrança as demoveriam. Nada é tão próximo e, a um só tempo, tão distante quanto a nítida lâmina de uma porta em sua moldura.

A fila já se forma na porta do ônibus; devagar as pessoas vão entrando, acomodam as bagagens e sentam-se em seus lugares; agora olham para quem está fora e pensam os seus pensamentos.

 

 

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