Flávio Marinho">

 

 

O pecado

Flávio Marinho

 

Eram bestas-feras aqueles moleques que surrupiavam as melhores frutas do quintal do Seu Anésio. Embora fosse um homem bondoso e compreensível, todas aquelas artimanhas já tinham lhe tirado toda paciência.

Não conhecia os pais daqueles meninos, mas imaginando que fossem dos piores, daqueles tipos, moderninhos, cuja crença em uma educação sadia era deixar seus rebentos à própria sorte, acreditando que o mundo lhes seria o guia, sentia-se afoito a dar-lhes umas belas palmadas.

Já tinha tentado de tudo, mas os garotos eram mais ladinos e a sua idade não o ajudava muito quando precisava correr para pegá-los; mal dava o primeiro passo e todos já estavam a milhas de distância. Mas, lembrando-se das fictícias historias de guerra de seu avô, lançou-se em uma outra estratégia, tão ousada, a seu ver, como a das que lera nas biografias dos grandes generais da segunda guerra. Sabia que lhe custaria mais tempo e esforço, mas só de saber que ficaria livre dos pivetes, sem hesitar, transformou seu quintal, em um verdadeiro campo de batalha: espalhou palha por todo o terreno, achando que com isso conseguiria domar-lhes as asas dos pés e também preparou uma grande montanha de feno, para lhe servir de escudo.

Mal podia esperar a hora do ataque, já estava há meio-dia camuflado, quando repentinamente um bando de pelo menos uma dezena deles avançou em direção ao pomar. Havia tanta raiva nele que em um só pulo, atravessou o monte, o que causou uma debandada geral, pareciam aves de rapina em sobrevôo tamanha a rapidez da molecada. Apenas um único malfeitor havia ficado para trás, estava em pé sobre o muro em posição de salto e parecia paralisado de medo. Não perdeu o menor tempo e lançou-se sobre o garoto e quando quase alcançava suas pernas, atônito, viu-o pairar sobre o ar como um pássaro mágico e voar para longe.

No dia seguinte muito resignado arrancou todas as árvores do pomar. Não deixou sequer um único pé de roseira.

Resolveu que não era sua obrigação alimentar anjos e demônios.

 

 

contato   biblioteca   discussões   digressões   ensaios   rubaiyat   contos   textos   poemas   conexões   ao cubo