O sumiço

Flávio Marinho

 

Meu pai era um contador.

Trabalhou anos a fio em uma madeireira. Sua única função era preencher com números uma série de páginas sem que nenhum deles ocupasse um lugar equivocadamente. Recordo-me dos meus cadernos de matemática no primário, sempre voltava as folhas passadas e as modificava preenchendo com números absurdos todos os espaços vazios.

Ele ainda guarda consigo alguns livros de caixa. Ainda ontem, folheei alguns deles, mas somente um me chamou a atenção, certamente pelo título engraçado escrito em letras Courier douradas sobre uma capa preta. Dizia o seguinte:

"Controle de Acontecimentos Não Computáveis".

Abri uma página qualquer e li:

12 de janeiro de 1975.

O vigia do turno da noite, senhor Virgínio, relatou esta manhã que, na noite passada sumiram três cenouras da horta. Não havia nenhum vestígio de pegadas e que, pelo tamanho dos buracos, o ladrão escolheu as mais desenvolvidas.

Sem mais nada a relatar.

 

 

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