Flávio Marinho"> <´p> 

 

Um morto

Flávio Marinho

 

Já era noite quando o Luis chegou falando alto como eu nunca o tinha visto e jogou sobre o sofá o jornal que trazia na mão. Peguei-o e vi que era daqueles populares e que estampava na capa um retrato três por quatro de um homem, e logo abaixo a imagem de um corpo dependurado em uma corda. Depois que se acalmou disse que conhecia o morto e que tinha sido um grande amigo seu, e contou:

Com certa freqüência nos encontrávamos para conversar sobre leituras e a cada encontro um contava ao outro a história mais recente que havia lido. Ele narrava com tanta eloqüência os contos que eu sentia vontade de lê-los no dia seguinte.

Certa vez recebi dele uma pequena fábula que havia escrito, e ela continha todos os mitos humanos, o caminho na profunda floresta, o labirinto e o gigantesco fauno que lhe proibiria a passagem se não recitasse o grande poema de três séculos atrás. Tudo estava lá, nossos sonhos, pesadelos e esperanças.

Mas alguns meses depois ele sofreu uma desilusão e logo tornou-se uma pessoa depressiva e solitária. Num de nossos encontros ele me pediu ajuda, quase suplicou, e eu lhe disse que no momento não sabia como ajudá-lo, mas que pensaria em algo. No encontro seguinte ofereci-lhe os Rubaiyat de Omar Khayyam, pensei que tudo de que ele precisava estaria lá: a imponderabilidade da vida e o doce sabor do vinho. Disse-me que não gostou, pois o autor falava excessivamente no vinho e que não lhe interessava a embriaguez.

Precisei mudar de cidade e me lembro que no dia da despedida estávamos num bar. Ainda guardo a última imagem dele, de quando eu saia pela porta: ficou lá sentado, segurando a taça de um saboroso vinho.

Quando terminou esse relato sobre o amigo morto, pedi que se acalmasse e que não se sentisse culpado pela tragédia, mas como era tarde da noite e eu estava cansado, fui me deitar.

Nós morávamos numa pensão e os nossos quartos eram contíguos. As divisões de tapumes de madeira eram tão finas que podíamos conversar como se estivéssemos face a face. Naquela mesma noite ele me chamou e começou a falar novamente sobre o seu amigo. Antes que continuasse eu o interrompi e aconselhei-o a deixar que o morto descansasse em paz, e que ao invés de rememorar aqueles fatos, seria melhor fazermos uma prece. Ele calou-se e ficou assim durante alguns minutos, e então gargalhou e gargalhou. Eu não me contive e o acompanhei.

No dia seguinte aparentava tranqüilidade e parecia que havia esquecido os acontecimentos do dia anterior. A única coisa que me disse foi que sonhou os mesmos sonhos de Khayyam.

 

 

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