ZILIPUSMAM & FILBEROUSKI, Ltda.

Conservas em Lata e Ensaios Introdutórios

Para Celina e sua filha

Alfredo Braga

 

Regina S. Zilipusmam tem uma firma.

Se agora a razão social é Zilipusmam & Filberouski, três meses depois será Zilbordin & Beriman; tudo registrado em cartório. Lá está a pequena venda, no mesmo lugar, o mesmo comércio. O tosco balcão e as prateleiras pouco sortidas que em outra época, outro lugar e outros donos, teriam sido uma estante de livros, agora mostram as latarias com rótulos antigos trazidas pela sócia. Por quê desfizeram a sociedade tão depressa? Teria havido algum desentendimento? Ou Filberouski foi abrir o seu negócio noutra freguesia? Não importa, o bairro é grande, dá para todos.

Mas vamos à Mercearia Zilipusmam & Filberouski.

Entro naquele ambiente mal iluminado e, presa ao prato da lâmpada encardida, reconheço a mesma fita gomada de apanhar moscas. Na parede, alheio ao tempo lento, aquele relógio digital mostra as horas, os minutos, os segundos. A moça atarefada ordenando as latas nas prateleiras é a Filberouski. É jovem, e com as mãos finas tenta alcançar as latas mais altas. Percebe-se o seu entusiasmo pela novidade: ao lustrar as imagens dos rótulos das conservas, vai também lustrando ingênuos sonhos. Às vezes olha em volta e vê-se que gostaria de trocar as prateleiras e o balcão, e pôr alguma luz naquela penumbra. A outra, sentada na cadeirinha de palha (comendo biscoitos daquela antiga lata que tem a gravura com a figura de um menino sentado ao lado de uma lata de biscoitos que tem a gravura com a figura de um menino sentado ao lado de uma lata de biscoitos que tem...) perto da velha caixa registradora, é a Zilipusmam, a sócia principal, folheando com o indicador curvo, que rapidamente passa na língua, a mesma e ensebada caderneta da contabilidade; de relance, percebo ao lado das anotações, os mesmos uns-dois-três, tanto em algarismos árabes quanto em romanos, e os mesmos 60% (deve ser alguma cifra simbólica pela qual deve ter alguma predileção, ou é a sua conta nos lucros da sociedade); vi também os [ ] e os e/ou, iguais aos da Bordoni, e outros, que eu não conhecia: ¬, «, pequenos e bem traçados, entre os nomes das diversas marcas de conservas, unindo ou indicando observações rigorosamente óbvias, ou confusas, rigorosamente inúteis. Isso é uma coisa que sempre me causa uma curiosidade incômoda, dá-me vontade de lhe perguntar o porquê, e de lhe dizer que aquilo era desnecessário, mas me contenho. Se olharmos bem, vamos ver que aquelas anotações descrevem de maneira minuciosamente desordenada, exatamente a pequena prateleira das latarias. Por exemplo: se ali está uma lata de ervilhas em conserva, ela escreve na caderneta que ali está uma lata de ervilhas em conserva... e isto com todos os ordinais e cardinais, mais as flechinhas, barras e travessões que couberem na página, juntamente com as características da lata: o seu diâmetro, a sua altura, peso bruto, se é soldada ou repuxada, se o rótulo é litogravado na lata ou impresso em papel, fornecedor, data de validade etc.. É tal a minúcia desses detalhes que nunca lhe sobra espaço para falar das ervilhas. Desconfio que em todos estes anos nunca lhe ocorreu abrir uma lata para lhe sentir o conteúdo (quem sabe, por causa de alguma alergia a conservas) e talvez por isso, ela persiste, ou insiste, ano após ano, sócia após sócia, sempre nesse rigor da descrição das exterioridades das latas e das aparências superficiais daqueles rótulos.

Essa sensação de vacuidade dos grandes e sérios trabalhos, e do vão e cego esforço, me tomou certa vez, quando li um texto, ambiguamente citado por Borges, que se chama Do Rigor Na Ciência, de um pressuposto Suáres Miranda, que está na última página do livro O Fazedor, de 1960, na parte que tem o título de Museu. Não por acaso, desde 1954, esse mesmo relato é o último a constar da História Universal da Infâmia, de 1935. E, no ano seguinte, 1936, à sua História da Eternidade, Borges lhe acrescenta as Duas Notas: A Aproximação a Al-Um’tasim e, por último, a Arte de Injuriar. As Histórias vão se entretecendo. Em 1970, no O Informe de Brodie constam, ao lado de honras, encontros e Yahoos, três narrativas que continuam a série: O Indigno e Guayaquil. A infâmia, a indignidade e a injúria, a passo com a solidão; a ironia de labirintos que se bifurcam nas Histórias. Mas eis a narrativa, como Borges a contou, ipsis lítteris, com todas as maiúsculas e todas as minúsculas, pelo menos como está naquela mal cuidada quarta edição da Bertrand Brasil, e que tem uma capa muito feia, por pretender imitar as pinturas surrealisticistas:

Do Rigor Na Ciência

Naquele Império, a Arte da Cartografia logrou tal perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos Adictas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Cartográficas.

Suáres Miranda: Viajes de Varones Prudentes, livro quatro, cap. XLV, Lérida, 1658.

 

Se eu lhes contasse, vocês acreditariam que depois que Borges publicou esse Texto, surgiu uma sociedade de Estudiosos que afirma estar na disposição do número daquelas Maiúsculas, ou no seu Tumulto, uma Ordem intencional (cabalística) e quem a encontrasse havia de conhecer Outros Caminhos? Reúnem-se a todos os primeiros Sábados de cada mês, ao Segundo Crepúsculo, na Praça de Mayo, por onde, anos mais tarde, andaram, em Círculo, As Loucas, em Buenos Ayres. Ouvi dizer que há em Florianópolis um pequeno grupo de pesquisas que se corresponde com aqueles Obstinados Argentinos; só que as reuniões destes são nos últimos domingos dos Meses Pares, e às onze horas da Manhã, no Estreito, ao pé da Ponte Hercílio Luz, aquela de Ferro. Creio que é qualquer coisa relacionada aos Meridianos da Terra e ao Magnetismo da Ponte. Mais não sei; a não ser que, fora o Teósofo que (depois de ter perdido a Mão Direita numa misteriosa experiência em São Tomé das Letras, Minas Gerais) fundou o Grupo, há entre eles vários Semioticistas e uma Pós-graduanda em Teoria da Comunicação. Não me perguntem mais.

Há meses não vinha ao armazém. No tempo da Filberouski, as prateleiras estão um pouco mais organizadas e é agradável ver como ela procura apresentá-las com sobriedade e cuidado. Mas, da sua cadeirinha de palha, a Zilipusmam manda trocar a posição das latas em determinadas prateleiras, e a venda adquire aquele aspecto pobre e charlatão que prenuncia o tempo da Beriman. Esse fato, que só agora observei (que a Zilipusmam deixa todo o trabalho para sócia e depois muda um ou outro detalhe para lhe por a sua marca e sugerir que é dela a idéia geral e a orientação) esclareceu-me uma curiosidade que me acompanhava desde que conheci a venda: porquê um negócio tão pequeno, e de capital tão minguado, precisava de duas sócias? Agora, olhando com mais atenção, notei que a Zilipusmam, além de não ter mais o viço da mocidade, arrasta um calcanhar gravemente maltratado pela flebite, o que lhe limita os movimentos: então as sócias, necessariamente novas e obedientes. Não, não há nenhuma relação sentimental nessa sociedade; o fato de serem sócias e não rapazes os seus ajudantes, é apenas uma circunstância de mercado e de temperamento; a Zilipusmam, a esta altura da vida, não está mais afeita a ambigüidades de nenhuma espécie; seu profissionalismo, seu senso de objetividade, não lhe permitiriam digressões dessa natureza, não no recinto da sua mercearia.

Assim andava, e a vida também sempre lhe andara devagar; pé ante pé, foi formando o seu limitado comércio entre os poucos fregueses e os poucos fornecedores que, mais por complacência do que por lucro, ainda lhe consignavam as suas mercadorias. Foi em janeiro de 1975 que um ano lhe surgiu realmente novo: morreu o fundador da Fábrica de Conservas Globo, e Zilipusmam, atenta, em solidário luto, compareceu ao funeral levando as últimas homenagens àquele homem de visão, e as sentidas condolências à velha viúva e ao único filho, temporão, recém formado em administração de empresas. Nos dias que se seguiram foi nascendo a amizade mais importante da sua vida. A viúva gostou dela e (por nada entender de conservas) das suas idéias sobre os rótulos, mandou que o filho lhe mostrasse a fábrica e já em maio estavam nas prateleiras de todas as mercearias e supermercados as latas com aquelas redundantes e confusas superficialidades assinadas por Zilipusmam & Filberouski; em agosto foi a Glória.

Mas, como tudo, as coisas boas não duram para sempre: a viúva morreu em setembro e o filho, menos sensível, não se interessou pelos novos trabalhos de Zilipusmam. Por uma questão de economia nos clichês, e depois por descuido, ou desleixo, ou simples ignorância, ainda perduram em algumas vendas duas marcas de conserva com aqueles rótulos absurdos.

 

 

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