Calouste Gulbenkian – Uma reconstituição

Capítulo XXIV

 

A melhor vitória

A Montanha vai a Maomé

 

Francisco Correia Guedes

Caluste Gulbenkian – Uma reconstituição

Editora Gradiva, Lisboa, 1992.

 

 

O dia 14 de Novembro de 1948 foi – em Lisboa – um domingo chuvoso, e o início do julgamento das ações postas por Gulbenkian nos tribunais ingleses estava marcado para as 10 horas da manhã do dia seguinte em Londres. Conseguira-se, porém, entrar numa combinação que sustaria esse começo desde que os advogados recebessem antes daquela hora a informação telegráfica de que se tinha alcançado um acordo, que se encontraria já assinado em devida forma. O telegrama seria enviado de Lisboa, onde os negociadores se encontravam desde uns dias antes para a conclusão daquela formalidade. No fim de quase três anos de negociação não era, obviamente, altura, em cima da hora, de negociar fosse o que fosse mais. Ou melhor, não o seria para o mortal comum, mas Calouste Gulbenkian – e alguns daqueles negociadores andaram, para seu mal, a esquecer-se constantemente disso! – não era um mortal comum!

Nubar Gulbenkian – o filho – que tinha tido papel corajoso, inteligente e esforçadíssimo no êxito daquelas negociações, empenhara-se em organizar um jantar inesquecível para comemorar a assinatura histórica. A sua dedicação profunda às artes da cozinha e a ainda mais profunda ao produto dessas artes, o seu esmero e respeito da etiqueta e o fato de ser o anfitrião, visto que o pai não saía do quarto nem ligava a mais pequena importância àquelas (ou a quaisquer outras!) personalidades, anunciavam um ágape para perdurar nas memórias e nas efemérides do evento que se comemorava. Reservara para isso uma das mais belas salas do térreo do Hotel Avis e uma mesa para os doze convivas; escolhera cuidadosamente o menu, não deixando de atender ao que conhecia das sensibilidades e gostos dos presentes, mas caprichando em iguarias, a cuja confecção prestaria assistência e conselho valiosos. Não menor cuidado pôs nos vinhos e nos champanhes, recorrendo à escanção de conhecida autoridade.

Quem eram então os convivas que se aprontavam para o regalo deste esplêndido jantar de celebração? E celebravam o quê?

Havia americanos, ingleses e franceses. Uma única mulher entre as doze pessoas, doze contando, claro está, com o anfitrião, Nubar. Eram alguns dos mais importantes executivos e administradores das quatro maiores empresas mundiais e os business lawyers dos Gulbenkian sob a chefia do eminente Cyril Radcliff, que orientara toda a propositura de Gulbenkian. Assim, estavam pela Jersey (designação que era então a mais popular da Standard Oil de New Jersey, a Exxon de hoje) Orville Harden e Howard Page, pela Socony (mais tarde conhecida por Mobil) tinha vindo o Sr. Sheets, o administrador que estivera sempre envolvido na questão, o chairman da Anglo-Iranian, Morry Bridgemann, o diretor da Shell, Joe Boyle, que fora o único a ser recebido mais de cinco minutos por Calouste e por razões mais adiante recordadas, os dois homens principais da Compagnie Française des Pétroles (mais tarde, Total) Victor de Metz e Robert Cayrol, finalmente, os dois conselheiros jurídicos de Gulbenkian, Sir Cyril Radcliff e Sir Geoffrey Cross. Ainda pelos Gulbenkian estava também o fidelíssimo Avetoon Hacobian, que servira Calouste toda a vida e que fora especialmente destacado para colaborar com Nubar desde que a questão se levantara.

Mulheres, como disse, só estava uma, a mulher de Robert Cayrol. Calouste mal os recebera, para além de uma saudação quase seca. A sua presença no jantar estava fora de questão. Qual seria a sua emoção ao ver os grandes do petróleo peregrinar desde os quatro cantos do mundo até ao seu retiro do Hotel Avis num ato bem próximo de um render de vassalagem? E, se em algum momento isso foi posto em dúvida por alguém, o que se iria passar dez minutos antes da assinatura do compromisso tirar-lhe-ia dúvidas remanescentes!

O Sr. Gulbenkian convocava o filho ao seu quarto para lhe dizer que não assinaria! Porquê? Porque havia um ponto que "não estava coberto pelo acordo"!

Que ponto era não ficou dito por ninguém. Mas talvez possamos avaliar pela consideração que o chairman da Anglo-Persian, Morry Bridgemann, fez, a propósito do acordo, no seu conjunto: "Agora conseguimos fazer um acordo completamente impossível de compreender por quem quer que seja!" ou, como afirmou o próprio conselheiro de Gulbenkian, Sir Geoffrey Cross, "nunca mais ninguém poderá entrar em litígio sobre estes documentos porque ninguém será capaz de entender patavina"!

Não havia outra alternativa senão enviar telegramas urgentes para as sedes das empresas, onde os conselhos de administração foram convocados com urgência desesperada.

Deveriam pronunciar-se sobre o "novo ponto" e aprová-lo de imediato ou aceitar que o julgamento se iniciasse. Todos aceitariam, mas, após isso, era ainda necessário obrigar as dactilógrafas e o secretariado a trenoitarem e redigirem os novos documentos para serem assinados antes do termo do prazo. Entretanto, e durante a espera, o melhor a fazer seria jantar. Nubar transmite-nos as suas impressões desse jantar:

(...) contávamos com um fim de tarde alegre, uma convivência interessante mas, se houve ocasião lúgubre, este jantar foi uma delas! A refeição desenrolou-se entre períodos prolongados de silêncio, visto que ninguém estava com disposição para desenvolver os esforços convencionais de uma conversação enquanto os nossos espíritos estavam ansiosos por terem alguma ideia do que estaria a passar-se em Londres.

 

E acrescenta que ninguém bebeu praticamente nada, que sobrou champanhe na única garrafa que foi aberta.

Mas à uma da manhã chegavam os telegramas de Londres a informar que a última exigência de Gulbenkian tinha sido aceite. O cortejo marchou então rumo ao Palladium dos Restauradores matar a fome da ansiedade, não com requintadas especialidades culinárias mas com sanduíches de queijo e de fiambre.

Próximo das três horas da manhã, Calouste Gulbenkian punha a sua assinatura nos papéis, frescos ainda de tinta, que, esforçadamente, as dactilógrafas tinham aprontado.

 

 

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