Apagamentos

 

 

Os parágrafos a seguir, de Beatriz de Moraes Vieira, estão no ensaio Sutileza e memória: Um olhar sobre a literatura persa clássica, da Revista Poesia Sempre, número 14, p. 123, da Fundação Biblioteca Nacional, ago. 2001.

 

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Em meio aos processos de globalização em que hoje estamos imersos, tem lugar uma dinâmica de ganhos e perdas culturais, constituindo uma espécie de arena de disputa, em que valores e formas culturais de distintas naturezas travam batalhas talvez de vida ou morte. Movimentos nacionalistas contrapostos a tendências de internacionalização; buscas de identidades individuais e socioculturais a contrapelo da massificação avassaladora; incentivos a soluções político-econômicas locais em detrimento dos ditames da modernização global; a ampliação das possibilidades de comunicação internacional e de formação de uma consciência de cidadania supranacional, facilitadas pelo desenvolvimento da tecnologia de informação, enfrentando (e por vezes suplantando) os sistemas de concorrência e competição excludentes, que negam à maior parte da população mundial a inserção nos circuitos de decisão política e incremento econômico e cultural - tudo isto confere à globalização uma faceta bastante ambígua no que concerne às instâncias culturais. Na arena, tanto se vêem trocas interculturais frutíferas, formando redes de informação, contato e conhecimento entre pessoas e instituições de toda parte, quanto se processam "apagamentos" propositais ou esquecimentos acidentais que fazem fenecer, ou relegam à obscuridade, produções materiais e intelectuais inestimáveis, objetos, sentidos e valores elaborados em algum local e época por sujeitos históricos que não venceram as batalhas tecno-ideológicas, ou não lograram projetar suas realizações através do transcurso do tempo.

É com esta perspectiva que cabe aqui falar em memória, compreendida como uma operação de seleção e ordenação de fragmentos de experiências passadas em um fio coerente ou um mosaico com algum nexo. Consistindo, assim, em um processo de atribuição de sentidos, de releitura e reescritura de vivências simultaneamente individuais e coletivas que são re-significadas, a memória revela-se uma dinâmica de construção social, relação historicamente tecida num espaço simbólico de interseção de múltiplos vetores, onde se entrecruzam agentes sociais, temporalidades e espacialidades, dimensões orais e escritas, instâncias privadas e públicas, casualidades e intencionalidades, registros e ocultações.

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Beatriz de Moraes Vieira

 

 

 

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