ESSES DONOS DA VERDADE

ou

Algumas considerações sobre o livro-fanzine O complô, de Will Eisner com Introdução de Umberto Eco

Alfredo Braga

 

Como há tempos se sabe, apenas um certo grupo de escolhidos é o feliz dono da banca mundial, é o feliz dono da grande imprensa e agora, desde o último quartel do século XX, também é o soberbo dono da Verdade Incontestável.

Como dono da banca, ele tem feito algumas diabruras com as finanças mundiais, pondo de rastros grandes e pequenas nações enquanto engorda cada vez mais e mais os seus abarrotados cofres; como dono da imprensa e das grandes agências de notícias, lá vai ele manipulando a informação até que, sorrateiramente, a Verdade, essa tão desconsiderada senhora, hoje é refém e monopólio de seus arautos e solícitos escudeiros já profundamente instalados desde a escola elementar e delegacias de polícia, até à universidade e aos mais altos tribunais de justiça. A Verdade, que devia ser livre e cristalina, agora é dama exclusiva de um certo grupo; e se alguém ousar lhe iluminar e recompor a face escurecida, será atacado onde estiver: Perderá emprego, perderá amigos.

Prepotentes, proclamam o que é a Verdade e apontam, como crime, a consciência livre de pessoas atentas que descrêem dos seus melodramáticos dogmas e dos seus mártires lacrimejantes, como o Holocausto e o Elie Wiesel.

Como os seus jornalistas e historiadores já não dão conta de esconder e disfarçar as rachaduras em suas construções cenográficas, eles logo recorrem a cineastas famosos e celebridades, como Will Eisner, o famoso cartunista, e a Umberto Eco, o ilustre semiólogo e romancista, para tentar ocultar o irremediável rombo que a cada dia vai expondo as entranhas do milenar mostrengo. Então, tanto os contentes leitores de historietas em quadrinhos, já perfeitamente lobotomizados (nas palavras do próprio Eco, em Apocalípticos e integrados, Editora Perspectiva, São Paulo) quanto aqueles da chamada classe universitária, lá vão recebendo o reforço diário em suas doses da sonífera Verdade Indubitável.

O livro de Eisner (direitos reservados pela Editora Schwarcz) O complô, com o subtítulo A história secreta dos protocolos dos sábios do Sião, em luxuosa edição de capa dura pela Cia. Das Letras, São Paulo, 2006, vem com uma Introdução de Umberto Eco em tom didático, um prefácio do próprio Will Eisner e um posfácio de um Stephen Bronner, seguem os agradecimentos e os currículos desses autores e um pedante Índice Remissivo. Não passa despercebida a deliberada imitação de modelos de publicações acadêmicas, com as pretensas referências, a exagerada bibliografia e os tais agradecimentos para lhe conferir um certo ar de solenidade e credibilidade, mas o "livro", apesar do cuidado, nada mais é do que poderia ser: é apenas um ladino fanzine de histórias noir, postas como reais, para convencer semi-alfabetizados e induzir massas de lobotomizados ainda refratários ao trabalho desses "formadores-de-opinião" que atuam nas televisões.

É escandalosa a tranqüilidade e o à-vontade com que essas pessoas, evidentemente de costas-quentes, se arvoram em exclusivas donas da Verdade.

 


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