Berimbau de barbante

Bruno Tolentino

In Revista Bravo!

Agosto/1999

 

Em 1922 os maestrotes paulistanos inventaram o poema-piada; meio século depois, seus bisnetos criaram o poeta-piada. Dicção rala, idéias curtas, cultura de almanaque, arritmia crônica, berimbau de barbante, razionale de bar, ethos de radialista, estética de violão, filosofia de publicitário, ritmos de mingau, versalhada instantânea e rimas de muleta: eis a receita de dezenas de milhares de pocket poets à la Paulo Leminski, o homem intensamente comum cuja ingenuidade agitada o fazia macaquear a gagueira de toda uma leva de quase-autores – ao seu nível e em seus dias cerca de cem mil Brasil afora. Para cada qual, portanto, um único problema "artístico", na verdade tão existencial quanto urgente: como distinguir-se em plena maré montante entre indistinto e instintivo? A saída pessoal que nosso publicista encontrou foi atrelar-se a um distintivo, cortesia dos xerifes da hora aos cortesãos de sempre...

A rigor, o homem de quem agora se reedita a correspondência com um seu coetâneo de idêntico pedigree publicou apenas dois ou três livrecos de versos murchos e jocosos, numa desastrada gramática de boteco, e eivados de um cediço prosaísmo, na esteira de um par de volumes em prosa convulsiva que chamou (ou chamam) de romances. Mas por isso mesmo virou totem de toda uma geração, modelo referencial de uma multidãozinha semiletrada de classe média, cuja meta era ser tão desleixada quanto ilusória, drogada, e barulhenta. E, claro, incansável, prolixa e prolífica.

Mas fazer o quê? Porque o novo envelhece depressa, e mofo ou é famoso ou é infame, o informe tem e continuará tendo incontáveis curadores no baixo clero universitário: não passa dia sem que os tataranetos da ruptura empalhem ou reempalhem mais uma múmia da modernovida trás-ante-ontem. Tão cedo não nos deixarão esquecer o que não chegou a acontecer: anda fervilhando toda uma indústria de memórias, a memoranda dos velhos tempos da tropicália vanguardófila, as bodas de Noigandres com a guitarra elétrica... ouviremos ainda muitos decibéis de trio elétrico no sambódromo em que se pretende converter a vida do espírito entre nós. E, historicismos solúveis à parte, o monstrengo deve tudo à ideologia publicitária de que se nutriu Leminski e da qual dependem o (drummundiano) Deus Komunick Ação e sua cultura de massas. Resultado: por cá os kerouacs e ginsbergs do concreto à mão armada, do galáxico-gatinômano Child Harold aos Mautners & Leminskis, mais seus bonvizinhos, não têm como deixar de trazer-nos à mente a frase de Truman Capote sobre On the Road, referindo-se à apressadíssima taquicardia daquele primeiro catatáu dos primatas, o resenhista resumia: "This is not writing, it's type-writing" ("Isto não é escrita, é datilografia").

Era mais que uma boutade, era uma diagnose. Com efeito, os titãs e anteus da modernidade leite-em-pó-com-nescafé sempre tiveram em comum o mais surrado lugar-comum comunitário: a pressa. O sic transit das vanguardas, das mais nervosas às mais aposentadas, é axiomático: fazer-o-novo é regurgitar sem demora o semideglutido, já que digeri-lo seria fatal ao estilo instantâneo. Afinal, o "novo" é "da hora", mas pertence aos segundos do minuto, essa eternidade dos altares vazios. E a lição que legam os vazios é clara: é preciso reduzir a velocidade... É preciso arquivar e esquecer Leminskis e Anas Cs, Cacasos, e Gugus, confusos e confrades. É preciso em seguida ler com toda a calma o que, da Arcádia Mineira ao Condor Baiano, de Gonçalves Dias a Manuel Bandeira, de Drummond a Cabral e de Cecília a Adélia, por aqui se escreveu com toda a atenção, segundo aquela "emoção recordada na tranqüilidade" de que Wordsworth investiu o ato de poíesis há mais de século e meio.

 

 

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