DEPOIS DA SEMIÓTICA

Alfredo Braga

julho/2015

 

Quando aquele grande surto de arrebatamentos pela semiótica e pelas ciências da linguagem ia se dissipando, já nas últimas décadas do século XX (até em decorrência de exorcismos) alguns acadêmicos, como Tzvetan Todorov, ainda fizeram um pequeno mea culpa pelo exagerado desperdício de tanta inteligência na universidade; outros, menos severos, foram escrever romances grandes e, mais recentemente, ainda outros sobre a teoria da conspiração, enquanto se dedicam paralelamente a uma nova espécie de jornalismo proselitista, muito ativo nos mais variados meios de comunicação social: a apologia de Israel, a exaltação do Holocausto judeu e a execração de seus adversários.

Umberto Eco, estudioso dos mass media e eminente guru, lá pela década de 70 do século passado, daqueles leitores lobotomizados e fanáticos por HQs, espantosamente agora se queixa da internet e das suas redes sociais. Diz ele: Normalmente, os imbecis eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. E recomenda, sem peias, expertises e filtros nos grandes portais para indicarem os sites e os blogs que mereçam, a seu único juízo, o aval de conveniência, as estrelinhas de qualidade assegurada. Autores de blogs e sites em todo o mundo, sentiram-se ofendidos ao serem chamados de idiotas, e responderam das mais variadas maneiras às apocalípticas contradições do famoso autor de Apocalípticos e integrados.

Ao contrário de outros, não vejo arrogância na fala de Umberto Eco, mas sim aflição. E ele tem razão para tal: hoje a pequena opinião já não se perde no bar. Milhares a ouvem e podem avaliá-la e refutá-la, ou aceitá-la.

E ele sabe disso. Eis o que realmente o aflige. Não são os idiotas (com ou sem diplomas) que o incomodam, mas a própria internet e a possibilidade que esta oferece às pessoas em todo o mundo de levantarem questões, como o direito de duvidar, ou afirmar, por exemplo, que o Holocausto judeu é um grande embuste político e financeiro, ou que Israel é um Estado criminoso.

Se nos lembramos do minucioso rigor dos estudos em semiologia, ou semiótica, tão caros a Umberto Eco, não seria interessante verificarmos agora os sinais e o significado da tentativa de desqualificação de interlocutores em certas discussões? Qual seria o significado e real sentido da preocupação da Academia?

 


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