Os discípulos

 

Josef Pieper

Tradução:

Mario B. Sproviero

e L. Jean Lauand

 

 

O leitor do Banquete platônico não terá, certamente, nenhuma dificuldade em recordar-se dos participantes deste diálogo noturno sobre Eros. Evidentemente, irá lembrar-se do nome de Sócrates; do anfitrião Agatão – o poeta que estava festejando seu sucesso teatral – do comediante Aristófanes e, por fim, do beberrão Alcebíades que ainda estava para chegar.

Mas que o leitor tivesse lembrança também do jovem Aristodemo – que notadamente não soube dizer uma única palavra sobre o tema "Eros" – disso, pode-se, com razão, duvidar.

Contudo, embora este jovem, por vezes, não conseguisse dominar o sono e, durante certo tempo, ficasse fora até dos meros ouvintes – contudo, não deixa de ser Aristodemo uma figura especialmente significativa para Platão.

Aristodemo é um dos jovens do círculo de Sócrates; teria sido, dizem, de uma dedicação fanática ao mestre.

Este fanatismo, esta veneração acrítica, é descrita, por Platão, de maneira, dir-se-ia, impiedosa: um cara que andava descalço atrás do mestre – descalço, porque Sócrates costumava andar sem sandálias! – um cãozinho atrelado, apanhado no caminho por seu mestre, e conduzido ao Banquete. Mas, eis Sócrates subitamente raptado por um pensamento, dir-se-ia, fixo, de modo que Aristodemo chegou à casa de Agatão sem seu "dono".

Para lá foi conduzido, por engano, por um servo que o levou bem para o centro da festa. Balbuciando explicações e desculpas as mais desencontradas e olhando, com sumo embaraço ao redor e para a porta, através da qual, porém, Sócrates teimava em não querer adentrar. Enquanto isso, rindo, Agatão indagava pelo paradeiro do mestre, ao mesmo tempo que, com cativantes gentilezas e total superioridade – ferindo, porém, bem ao desamparado Aristodemo – recebeu, então, este convidado ocasional e fê-lo tomar assento.

A descrição é muito drástica; há, no entanto, sem dúvida, um ponto positivo, curiosamente não evidenciado. Refiro-me ao fato de que nós – os leitores do Banquete – devemos a Aristodemo o conhecimento do Diálogo sobre o Eros e, portanto, daquilo que de mais profundo Platão pensou na idade viril da maturidade: ele, Aristodemo, ouviu e o que ouviu fixou em narrativa e passou adiante.

Isso, em todo caso, fica evidente ao considerar-se com precisão a forma de construção do Banquete, composta por Platão com rara ponderação.

Aristodemo é expositor de primeira mão. E, no entanto, ele não aparece imediatamente, nem mesmo como expositor. Também ele é mencionado apenas mediante um segundo expositor. Inicia-se com o Banquete, na obra platônica, a série dos diálogos complicadamente cifrados, modo de exposição indubitavelmente irritante: alguém expõe o que outro lhe contou e, só então, em tão intensa reverberação, sobrevêm o que propriamente interessa: o Diálogo.

O segundo expositor, Apolodoro, é um homem da mesma têmpera de Aristodemo; também Apolodoro é um "louco", assim é apelidado pelos Atenienses.

Diz-se manikós, o que não se deveria traduzir por "insensato" (wahnsinnig), mas por "arrebatado" (übergeschnappt). Platão deixa-o fazer sua própria apresentação, para começar o relato. Ele conta que estava felicíssimo por ter de falar de filosofia e que antes ele se arrastava pela existência – como, aliás, todo mundo – persuadido de que fazia maravilhosas realizações, quando, na verdade, era pura e simplesmente digno de piedade – isso ele agora o sabe: desde que, há três anos, encontrou Sócrates.

Com extremado fanatismo, tornou-se seguidor de Sócrates. Todo dia – assim diz o próprio Apolodoro – procurava saber não só o que Sócrates dizia como também o que ele fazia. A seus olhos, ninguém – a não ser Sócrates – valia nada. E ele esbravejava contra tudo e contra todos, também contra si mesmo: "Vocês acham, talvez", assim ele diz a seus amigos que agora o chamam de "louco" – "vocês acham, talvez, que eu seja um infeliz; nisso vocês têm razão [eu não sou realmente "como Sócrates"]"; "mas de vocês, eu não acho apenas que sejam abomináveis e lastimáveis, de vocês eu tenho absoluta certeza".

E é ao tal aluninho acrítico, hiperentusiasta, que Platão delega o relato sobre Eros – diálogo no qual ele proferiu o supra-sumo do que pensou sobre a essência do amor e a essência do filosofar!

Teria feito aqui Platão uma declaração sobre a perpétua situação de quem filosofa no mundo? Pois também pertence a este quadro o fato de que Apolodoro expõe aqueles pensamentos para um público de homens de dinheiro e gente de sucesso!

Teria porventura Platão a intenção de expressar claramente: é da essência do filosofar dar-se no cerne de um mundo que em nada é o espaço amanhado para a indagação da verdade; dar-se no cerne de um mundo que deve antes ser ultrapassado e sobrepujado, sempre de novo, justamente pelo ato do filosofar? Aqui não se deveria talvez afirmar que quem verdadeiramente filosofa encontra-se em situação desesperançada, em que unicamente a tenaz procura juvenil da verdade, a genuína philo-sophia, seria capaz de resistir? Eu acredito realmente que Platão quis exprimir algo do gênero, mediante a forma característica platônica das figurações.

É preciso porém indicar ainda outra coisa em relação a uma figura como Apolodoro. A interpretação erudita crê poder enquadrá-lo em um tipo de fâmulo à maneira de Wagner, como um figurante sem significado próprio. No entanto, isto não tem cabimento: já que Apolodoro ainda é citado em outro Diálogo dos anos magistrais de Platão, o Fédon, de um modo notável, também com apenas algumas sentenças.

Todos estavam – assim Fédon narra os últimos dias de Sócrates – abalados por sentimentos dilacerantes de luto, de admiração afetuosa, de despedida; e ninguém foi capaz de conter as lágrimas: "sobretudo um dentre nós: Apolodoro. Você conhece o cara e seu jeitão". E quando Sócrates levou à boca o cálice venenoso: "A mim escorriam" – assim diz Fédon – "as lágrimas com violência, de modo que tive de me ocultar e esvaziar as lágrimas, não por ele, mas por mim mesmo: de que amigo fui eu privado! ... Apolodoro antes não havia parado de chorar, agora, porém, irrompeu em lamentos ululantes, sem nenhuma pausa, desmesuradamente – e nenhum de nós deixou de abalar-se, a não ser o próprio Sócrates, que disse: 'Que estais a fazer, ó gente esquisita?'"

A ironia com a qual, sem dúvida, Platão, caracterizou Apolodoro, não é negativa; ela é inteiramente impregnada de esperança; há a compreensão que se costuma ter diante do próprio passado: uma compreensão irônico-complacente uma compreensão quase paternal.

De fato, freqüentemente, vem-me o pensamento de que Platão pudesse talvez ter se representado a si mesmo nestes jovens que circundam Sócrates, uma vez que ele, aliás, perseverantemente silencia sobre si mesmo – com exclusão de uma única vez! Sempre fico meio de pé atrás quando Fédon, ao ser-lhe perguntado pelos que teriam estado presentes no último dia de Sócrates em sua cela, indica todos os discípulos e, por fim, acrescenta: "Platão estava, penso eu, doente!". Não teria Platão apresentado a si mesmo na figura de discípulo, fazendo parte deles? De fato, ele ingressara no círculo, como no caso de Apolodoro, por meio de uma "conversão" repentina; ele lançou ao fogo suas tragédias depois do encontro com Sócrates, a quem Platão, ainda ancião, denominou Destino e Ventura de sua vida. Ademais, ele era da mesma idade de Apolodoro: também isso se encaixa.

Mas, mesmo sem podermos certificar-nos disto – se devemos ou não reconhecer o próprio jovem Platão nos traços dos discípulos – Platão parece ter veiculado tacitamente pela composição dessas figuras uma posição muito bem determinada: o aprender, o modo em que ocorre o aprender, no caso ideal – , o aprender pressupõe que haja um mestre: um mestre real, existencial. Aquelas figuras parecem estar dizendo: o processo de aprender não ocorre a partir do exame de um espírito neutramente crítico, que examina, reexamina, e depois aceita ou recusa o que lhe é apresentado pelo mestre; ocorre, sim, como Aristóteles, o aluno de Platão, formulou: quem quiser aprender deve crer; quem quiser experimentar, quem quiser se relacionar com o que é decisivo, com os fundamentos últimos, com "Deus e o mundo", deve, com confiança, ou seja, em certo sentido, acriticamente, em atitude de disponibilidade para a silenciosa escuta, voltar-se para um homem: o mestre. O princípio de Descartes, que remete o indivíduo a sua própria subjetividade isolada, impediu-nos o acesso à sabedoria platônica, que nunca se extraviou no Extremo Oriente: sem mestre pessoal não se tem sabedoria.

Mas não era apenas confiança o que ligava os jovens em torno de Sócrates a seu mestre: era amor. "Só se aprende, acima de tudo, de quem se ama" – é uma sentença de Goethe.

Bem sei que isso nos leva a pensar nas formas temporalmente condicionadas do Eros, características da Atenas dos tempos clássicos. No entanto, distorcer-se-ia Platão e Sócrates, se se enquadrasse a relação mestre-discípulo no exótico amor ao adolescente – se bem que é assim mesmo que foi entendido ou mal-entendido por alguns dentre os próprios jovens que filosofavam com Sócrates, como é evidenciado pelo beberrão Alcebíades, de quem Sócrates se autodenomina amante: "Estejam certos: nenhum de vocês conhece este homem verdadeiramente! Vocês vêem, talvez, o quanto Sócrates está apaixonado por belos rapazes: não é ele bem como um Sileno?. Mas isto é apenas o invólucro externo, exatamente como naquelas figuras esculpidas de Silenos, portadoras no interno de imagem deífica. Na verdade, não lhe importa em nada alguém ser belo ou rico. Ele considera, antes, estas coisas um nada e a nós mesmos nada; ele se disfarça diante dos homens e jogou seu jogo com os mesmos por toda sua vida... Se alguém percebeu a imagem deífica no interior de Sócrates, isto eu não sei; eu, vi-a uma vez". E, então, conta Alcebíades aquilo que só um beberrão poderia contar: como numa noite inesquecível passada com Sócrates, havia sido libertado e curado da ilusão de estar Sócrates voltado para o erótico, em sentido estrito; cura esta que continuamente abrasava-o e mortificava-o como a picada de uma víbora.

Não é nesse sentido, portanto, que se deve entender Sócrates e Platão, quando parecem dizer que o pressuposto do aprender é – em determinado sentido – o amor, a identificação amorosa com o discípulo. O que, sim, eles querem dizer é, antes, que o discípulo mediante tal identificação, mediante tal "artifício do amor" (Nietzsche) é colocado na possibilidade de ver o objeto como que com os olhos do mestre, quer dizer, passa a ter acesso a realidades que ele, propriamente – do ponto de vista puramente intelectual – de modo algum poderia apreender, mas que lhe é dada, no entanto, justamente em virtude daquela afirmação acrítica de discípulo, em virtude de sua identificação com o mestre. Não, então, por conta de um interesse pelo assunto, mas por causa de sua ligação com o mestre: assim acontece o aprender em sua forma mais intensa.

O que caracteriza as figuras dos discípulos é, além do mais, uma ambigüidade insólita, uma inaptidão, insegurança, vulnerabilidade e também espantosa falta de proporção no que diz respeito às próprias metas. Eles são ávidos de modo entusiasta, veemente e impetuoso – sim o quê saber propriamente? Eles próprios não poderiam dar a respeito qualquer esclarecimento. Então há, por acaso, este jovem Hipócrates, do qual Sócrates no diálogo Protágoras, conta: como ele certa vez, de noite, foi despertado justamente por este jovem "quando nem bem amanhecera", por meio de bordoadas na porta e por meio da pergunta extremamente inteligente "Sócrates, você está acordado ou adormecido?". Eu reconheci-o pela voz e retruquei: é Hipócrates! Você não está por acaso trazendo más notícias? Nem de longe, respondeu ele, mas boas! – Possa você recebê-las de primeira mão! Que há, e por que você vem tão cedo? – É que Protágoras chegou, respondeu ao mesmo tempo que entrou em casa." Este foi todo o esclarecimento para a afobada visita durante o sono: que havia chegado em Atenas o famoso orador e mestre itinerante, o sofista Protágoras. Sócrates faz-se de mal entendido e excita com isso o impaciente entusiasmo de Hipócrates, para este expressar-se bem mais claramente. Isto não é novidade, disse Sócrates, Protágoras já chegara antes de ontem. Sim, é certo, mas ele, Hipócrates, só ontem à noite ficou sabendo! Tudo é descrito com gravidade: perseguição de um escravo foragido, regresso "tarde da noite", "e quando nós já havíamos jantado e íamos descansar, só então meu irmão me disse que Protágoras havia chegado. Não me desagradou ir ter com você imediatamente, mas aí pareceu-me ir bastante alta a noite". Sócrates obstinadamente sem nada entender, sempre aparvalhado e surpreendido com esse tumulto ["eu conheci sua natureza violenta e impetuosa..."]: "Mas de que maneira isto tem que ver com você? Protágoras fez a você algum mal?" "Pelos deuses, sim: que apenas ele seja sábio e não me faz tal!" "Oh! Ele também vai fazer você sábio – se você lhe der dinheiro... " A ironia-mortal desta observação não é sequer percebida por Hipócrates, ele não quer ouvi-la: "Se apenas dependesse disso, ó Zeus e Deuses: eu não pouparia meus bens e os de meus amigos!" Sócrates deveria então intermediar o relacionamento com Protágoras e isso prontamente. "Mas, putz!, nem é ainda dia! Até lá esperemos e conversemos". Sócrates procura, agora, descobrir o que propriamente procura esta veemente vontade de verdade: "Vamos agora ambos até Protágoras, e estejamos prontos a ofertar nossos próprios bens, e em caso de necessidade também os de nossos amigos... Mas sabe você também o que você está para fazer? Ou não o sabe?". E fica patente que Hipócrates não sabe para que vai levar aquela oferta; ele não sabe do que propriamente necessita! Ele disse que tem a intenção de tornar-se um "homem sábio" – e incontinente enrubesce de vergonha ["Fez-se um pouco dia, disse Sócrates, de modo que posso ver isso com mais clareza"]. Hipócrates disse então que ele queria "conhecimentos". E, no entanto, não soube responder, quando Sócrates perguntou: que tipo de conhecimentos? "De que tipo de objeto é sabedor o sofista e de que fará sabedor seu aluno? Por Zeus, replicou ele não sei o que dizer!".

É justamente isto que dá alegria a Sócrates; justamente aqui está sua plenitude de esperança, a chance deste jovem Hipócrates – e de todos os outros também! – em todo caso, é a opinião de Platão. Basta um relance de olhos nos alunos dos sofistas (como conseguem exatamente expor sua opinião, que tipo de saber gostariam de adquirir; como podem dizer com precisão o que pretendem fazer com tal saber) e basta uma breve evocação das figuras dos discípulos ao redor de Sócrates, para imediatamente descobrir o positivo, o radiante, o profundamente conveniente dessa falta de fixação.

Hipócrates, Apolodoro, Aristodemo comportam-se com os alunos dos sofistas exatamente como Sócrates comporta-se com os sofistas. O sofista não apresenta qualquer embaraço ao ter de definir a sabedoria que é capaz de ensinar: "Jovem – assim Hipócrates ouve ao ser recebido por Protágoras – logo no primeiro dia, depois que você ficar comigo, voltará para casa como um homem capaz e eficiente". Sócrates, pelo contrário, diz: "Nunca fui o mestre de ninguém", "minha sabedoria é como uma sombra, sim, como um sonho!" Isto não tem nada que ver com qualquer vaga modéstia.

Sócrates e também os jovens em volta dele, estes verdadeiros discípulos, procuram antes uma sabedoria apta a aclarar o mistério do mundo, a aclaração com que está comprometida toda verdadeira filosofia. É próprio desta meta o não poder ser caracterizada com a precisão que determina, por outro lado um marco prático concreto.

E, portanto, quem autenticamente sempre procura essa verdade e anda buscando a chave do mundo insondável, nunca totalmente decifrável para o espírito finito – quem, portanto, verdadeiramente filosofa – é um discípulo do tipo de Hipócrates, Aristodemo e Apolodoro.

 

 

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