Duas guerras que são uma só

Rogério César de Cerqueira Leite

Professor Emérito da UNICAMP

 

A teoria das "duas guerras", esboçada no jornal Folha de São Paulo em sua edição de 07/04/2002 por Amos Oz, parece ter alcançado seus objetivos, pois vários foram os comentaristas e acadêmicos que dela já se valeram, embora em tão pouco tempo, para justificar a invasão da Palestina pelo exército de Israel. O sofisma começa já no título que refere uma divisão em duas guerras, quando em realidade o que é proposto é o cisão da palestina em duas entidades distintas. Uma seria a nação legítima que tem o direito ao seu "Estado Palestino", e a outra seria o monstruoso "Islã Fanático" a ser eliminado. A invasão da Palestina se justifica, portanto, como uma guerra ao Islã Fanático, de acordo com a semântica de Amos Oz.

Todavia, se é possível esta desintegração da Palestina, então porque não aplicar o mesmo princípio a Israel cindindo-o também em dois entes, um seria a nação que luta por um território próprio, sem o qual a cultura judaica não poderia sobreviver, e outro seria um estado teocrático, dentre cujos dogmas, está o de que as terras em disputa foram prometidas por Jeová ao povo judeu e que, portanto, é preciso expulsar os povos que historicamente as ocupam há mais que dois mil anos. Com isso, seriam, por acaso, inteiramente justificáveis os atentados terroristas que buscariam nada mais do que agredir as hordas exterminadoras que invadem suas fronteiras contínua e inexoravelmente há mais de 50 anos? A retórica da cisão da Palestina, por outro lado, pode ser abalada, senão desmontada completamente, por uma simples pergunta. Existiria por acaso o "Islã fanático" de Amos Oz, não fosse a sua legítima nação palestina violentada continuamente pela expansão dos territórios ocupados pelos "colonos israelenses?" Alguém, com um mínimo de honestidade intelectual, seria capaz de afirmar que existiriam homens e mulheres-bombas, não fosse a contínua humilhação e o reiterado abuso moral e físico efetuado sobre o povo palestino pelo opressor Estado de Israel?

Quando nos referimos ao fanatismo islâmico é bom lembrar que Arafat elaborou um projeto de estado inteiramente dissociado da religião o que não é verdade, nem sequer formalmente, em Israel.

Quando Amos Oz, após propor a retirada das tropas israelenses da Palestina, sugere que este gesto não traria a paz, ele realmente está consentido com a ocupação e com a conseqüentemente inelutável expansão da colonização. Ele se identifica assim com o sanguinário Sharon, o carniceiro de Chatilla e Sabra, diferenciando-se apenas pela retórica enganadora.

Pois bem, haverá alguém, com o mínimo de dignidade, que não reconheça que esta última irrupção de violência não tenha sido deliberadamente provocada por Sharon ao se exibir com seu batalhão de guarda costas na praça das Mesquitas, lugar sagrado dos muçulmanos? E se instigou ele o conflito, só pode ter sido para forjar uma justificativa para a invasão e para a ocupação final da Terra Prometida. E a cada momento encontra uma desculpa para ampliar as hostilidades, exigindo uma impossível passividade de um povo que está sendo massacrado. A última dessas infâmias foi usar como desculpa a morte de 13 soldados israelenses que, em território palestino, invadindo uma residência, encontraram uma bomba. É claro que a morte de 13 jovens é sempre lastimável. Mas são soldados, invadindo e destruindo. Qual a diferença entre ser morto por uma bomba no local que invadiam ou por um fuzil, ou por pedradas? E o absurdo é que estas fatalidades de guerra estejam sendo usadas como pretexto para reaquecimento da matança.

E enquanto chefes de Estado como Bush, o "seu" primeiro ministro da Inglaterra, e outros, inclusive o "seu" Presidente do Brasil, mantêm um discurso em que "condenam" simultaneamente a agressão israelense e os atos terroristas dos muçulmanos, como se estas ações se neutralizassem mutuamente, Israel continua desobedecendo às resoluções da ONU. E esta última organização, servil ao país hegemônico, engole o desaforo humildemente, se desmoralizando ainda mais.

A justificativa fundamental para a invasão das cidades palestinas é a guerra ao terrorismo. O sofrimento da população israelense com os homens-bomba seria assim de tal ordem que justificaria os massacres na Palestina realizados pelo Estado de Israel. Ora, a população da cidade de São Paulo é apenas duas vezes maior que a de Israel e o número de latrocínios e outros crimes fatais por ano é pelo menos dez vezes maior que o número de casualidades decorrentes de atos terroristas em Israel. E ninguém, intelectual ou não, justificaria uma guerra de extermínio dos moradores de favelas de São Paulo, onde residem nossos "terroristas".

Somente pode entender o ato desesperado do terrorismo suicida aquele que viveu décadas humilhado, oprimido, vilipendiado em sua auto-estima e seu orgulho humano. Nós, aqui de fora, não temos capacidade para entender e julgar. Se o texano Bush e seus conterrâneos tivessem sofrido os mesmos abusos que o povo palestino vem sofrendo há mais que 50 anos, sem conseguir o reconhecimento de seu Estado e, vendo aqueles que considera invasores criarem o seu, será que não recorreriam aos mesmos atos extremos de que se valem hoje os palestinos?

Atos de terrorismo certamente são condenáveis. Mas e a tortura, que muitas vezes redunda na morte do torturado, e que é formalmente admitido por certos governos, inclusive o de Israel? Muitos têm contestado o paralelo Sharon-Hitler, Sionismo-Nazismo, Holocausto-Chatilla e Sabra. E, de fato, há uma significativa diferença, de dimensões, de intensidade, de conseqüências. Mas também são muitas as similaridades. A visão de documentários alemães da época em que tanques nazistas bombardeando o gueto de Varsóvia não são diferentes dessas últimas imagens de tanques israelenses invadindo as cidades palestinas e da fútil resistência de cidadãos mal armados sendo assassinados, em ambos os casos. As obscenas filas de prisioneiros, de pulsos amarrados e olhos vendados, humilhados, são as mesmas que se arrastavam na Polônia, na Rússia, na Alemanha e enfim, em quase toda a Europa e agora na Palestina. Os mesmos campos de concentração. As mesmas casas invadidas e pessoas comuns executados sem julgamento, sem piedade. Os que resistiam eram então e o são agora executados sumariamente sem distinção entre os terroristas e os cidadãos que futilmente procuram defender seu lar invadido. A covardia que coloca tanques contra pedras, torpedos lançados de helicópteros contra transeuntes. A suspensão da liberdade de imprensa e do acesso às cidades invadidas.

O mesmo desprezo pela opinião pública internacional e a mesma arrogância em relação a acordos internacionais, pois Israel não atendeu até hoje nenhuma das 8 determinações da ONU que exigiam contenção de seus atos belicosos e devolução das terras palestinas ocupadas depois de 67, da mesma maneira que a Alemanha transgredia tratados internacionais.

Não podemos, certamente, ir tão longe quanto Malraux que considera o terror um direito do patriota desesperado, porém considerar o homem-bomba um assassino, um facínora, como Bush, e seus apaniguados têm feito reiteradamente, é uma demonstração de má fé e de profunda ignorância da natureza humana.

 


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