O erro clínico

G. K. Chesterton

 

 

O moderno livro de investigação sociológica tem uma estrutura assaz rigidamente definida. Em regra, abre com uma análise acompanhada de estatísticas, quadros populacionais, retrocesso da criminalidade entre os Congregacionalistas, incremento da histeria na classe policial e outros fatos devidamente confirmados. Fecha com um capítulo normalmente intitulado "A solução". Este método cuidadoso, sólido e científico, é o culpado, quase integralmente, de nunca se encontrar a solução. Este método clássico de pergunta e resposta é um disparate; o primeiro grande disparate da sociologia. Pede-se-lhe sempre que declare a doença antes de descobrir o tratamento, quando a própria definição e dignidade do homem em matéria social exige que encontremos, realmente, o remédio antes da doença.

Este engano é um dos cinqüenta sofismas originados pela moderna loucura das metáforas biológicas e corporais. É cômodo falar-se do organismo social como cômodo é falar-se do Leão Britânico, mas a Grã-Bretanha é tanto organismo como leão. Desde o momento em que começamos a dar a uma nação a unidade e a simplicidade de um animal, começamos também a pensar selvaticamente. Pelo fato dos homens serem bípedes não se conclui que cinqüenta homens formem um centípede. O resultado foi, por exemplo, o estarrecedor absurdo de falar eternamente de jovens nações e nações moribundas, como se uma nação tivesse duração de vida fisiologicamente determinada. Assim, haverá gente a falar da Espanha como nação que entrou numa senilidade final; até poderia dizer que tem os dentes a cair. Outros dizem que em breve o Canadá produzirá uma literatura, o que corresponderia afirmar que esse país esta deixando crescer o bigode. As nações são formadas por gente: a primeira geração pode ser de decrépitos e a décima milésima, uma geração vigorosa. Outros usos do mesmo sofisma conduzem muitos a ver no aumento de área das possessões nacionais um puro acréscimo de sabedoria e grandeza perante Deus e os homens. Tais pessoas, na realidade, não conseguem aplicar sequer o paralelismo com o corpo humano por falta de sutileza. Não perguntam se o Império está aumentando de altura na juventude ou engordando na velhice. De todas as ocasiões de erro desta mania fisiológica a pior é, porém, a que nos cai debaixo dos olhos: o hábito de descrever exaustivamente uma doença social e propor, a seguir, uma droga também social. Falemos, primeiro, da doença nos casos de fratura do corpo, por esta excelente razão: embora possa haver dúvidas sobre a maneira por que se deu aquela fratura física, não há dúvida nenhuma sobre a forma do corpo a restaurar. Nenhum médico se propõe produzir uma nova espécie de homem, alterando a disposição dos olhos ou dos membros do paciente.

Do hospital podem, por necessidade, mandar um homem para casa com uma perna a menos, mas nunca, num gesto de criação delirante, dar-lhe alta com uma perna a mais. A ciência médica contenta-se com o corpo humano normal e apenas procura recompô-lo.

Mas a ciência social está altamente descontente com a alma humana normal e tem um sortido completo de almas fantasiadas para vender. O homem, como idealista social, afirmará: "Estou casado de ser puritano; quero ser pagão!"; ou "Para além desta caliginosa provação do individualismo, vejo o refulgente paraíso do coletivismo!". Pois bem, nos doentes do corpo não há tais divergências sobre o ideal a atingir. O doente pode querer ou não querer quinino, mas o que quer certamente é saúde. Ninguém diz: "Estou cansado desta dor de cabeça; quero uma dor de dentes!", ou: "A única coisa para esta gripe russa é uma varicela germânica!", ou ainda "Através desta caliginosa provação catarral, avisto o refulgente paraíso dum reumatismo!". Todavia, a dificuldade dos nossos problemas públicos está toda em que certos homens procuram curas que outros homens considerariam como doenças ainda piores e oferecem ideais de saúde que outros se obstinam em classificar de estados patológicos. O Sr.Belloc disse uma vez que estaria tanto de acordo em ceder o direito de propriedade como em ceder os próprios dentes. Para o Sr. Bernard Shaw o conceito de propriedade não é um dente, mas sim uma dor de dentes. Lord Milner tentou sinceramente introduzir na Inglaterra a eficiência alemã; e muitos ingleses dariam boas vindas às varicelas alemãs. O Dr. Saleeby gostaria francamente que cultivássemos eugenia mas eu prefiro cultivar o reumático.

Este é o ponto em suspensão, o fato dominante nas modernas discussões sociais:

A questão não diz meramente respeito às dificuldades, mas às finalidades. Estamos de acordo quanto ao mal, mas é quanto ao bem que nos esgatanhamos. Todos admitimos que uma aristocracia inativa é prejudicial, mas isto não obriga a que todos aceitem como benéfica uma aristocracia ativa. Todos nos sentimos incompatibilizados com um clero irreligioso, mas alguns de nós se enfureceriam enojados só de pensar num clero verdadeiramente religioso. Causa indignação geral a eventual fraqueza do nosso exército, mesmo aos que se indignariam ainda mais de o ver fortalecido. O problema social é exatamente o oposto do problema médico. Não estamos, como os médicos, em desacordo quanto à causa precisa da doença, na medida em que concordam no que se refere à natureza da saúde. Nós, pelo contrário, concordamos todos na insalubridade da Inglaterra, mas metade de nós não quereria sequer sonhar com o que a outra metade chamaria de saúde portentosa. O descrédito público é tão grande e pestilencial que é capaz de congraçar todos numa espécie de unanimidade fictícia. Esquecemo-nos de que, ao concordarmos em que a lei é violada, não estamos de acordo quanto ao seu emprego. O Sr. Cadbury e eu estaríamos de acordo sobre as tabernas imorais, mas seria precisamente à porta de uma taberna moral que começaria a nossa dolorosa rixa pessoal.

É por tudo isto que afirmo a grande inutilidade do método sociológico corrente: o que primeiro disseca a pobreza abjeta ou catologa a prostituição. A todos horroriza a pobreza abjeta, mas seria outro assunto se começássemos a discutir a pobreza digna e independente. Todos condenamos a prostituição, mas nem todos aprovam a pureza. A única maneira de discutir o mal social é obter primeiramente o ideal social. Todos vemos a loucura nacional. Mas o que é a sanidade nacional? Chamei a este livro "What is wrong with the world", mas o título, algo barroco, atinge apenas uma verdade precisa: o disparate é nós não pedirmos o que é certo.

 

 

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