Discurso de dissolução da Ordem da Estrela

Jiddu Krishnamurti

1929

 

 

Vamos discutir esta manhã a dissolução da Ordem da Estrela. Alguns regozijar-se-ão, e outros ficarão muito tristes. Não é uma questão de regozijo ou de tristeza, porque é inevitável, como a seguir explico...

Eu sustento que a Verdade é uma terra sem caminho, e que dela não vos podeis aproximar, por qualquer caminho, de qualquer tipo, por qualquer religião, por qualquer seita. Este é o meu ponto de vista, e eu atenho-me a isso. A Verdade, sendo ilimitada, incondicionada, inacessível, por qualquer caminho, não pode ser organizada; nem deveria qualquer organização ser formada para liderar ou coagir as pessoas por qualquer tipo de caminho particular. Se entenderdes isto, então sabereis quão impossível é organizar uma crença. Uma crença é, puramente, uma questão individual, e não podeis nem deveis organizá-la. Se isso fizerdes, ela torna-se morta, cristalizada; torna-se um credo, uma seita, uma religião a ser imposta a outros.

Isto, é o que toda a gente no mundo está tentando fazer. A verdade é estreitada, e tornada num brinquedo nas mãos dos fracos, daqueles que estão momentâneamente descontentes. A verdade não pode ser trazida até vós, o índividuo deve esforçar-se para ascender a ela. Não podeis trazer o cume da montanha para o vale...

Então esta é, do meu ponto de vista, a primeira razão pela qual a Ordem da Estrela deve ser dissolvida. Apesar disto, formareis provavelmente outras Ordens, continuareis a pertencer a outras organizações que buscam a Verdade. Eu não quero pertencer a organizações espirituais de qualquer tipo; por favor, entendam isto...

Se uma organização é criada com este propósito, ela torna-se uma muleta, uma fraqueza, um cativeiro, invalida o individuo e impede-o de crescer, impede-o de estabelecer a sua unicidade, que se baseia na descoberta da Verdade, absoluta e incondicionada. Esta é outra razão porquê eu me decidi, visto ser o Líder da Ordem, a dissolvê-la.

Isto não é nenhum feito magnificente, porque eu não quero seguidores, e falo a sério. A partir do momento que seguis alguém, cessais de seguir a verdade. Não estou preocupado se prestais atenção ao que eu digo ou não. Quero fazer algo no mundo, vou fazê-lo, com uma concentração firme e inabalável. Só me preocupa uma coisa essencial: a libertação do homem. Desejo libertá-lo de todas as prisões, de todos os seus medos, não para fundar novas religiões ou novas seitas, nem para estabelecer novas teorias ou novas filosofias. Naturalmente perguntar-me-eis porque corro o mundo, continuamente falando. Dir-vos-ei por que razão o faço; não porquê deseje seguidores, não porquê deseje um grupo especial de díscipulos especiais. (Como adoram os homens a diferença dos seus companheiros, conquanto tão ridiculas e absurdas sejam tais distinções; não quero encorajar ninguem a esse absurdo). Não tenho discipulos, não tenho apóstolos, nem na terra nem nos dominios da espiritualidade.

Nem é a atração pelo dinheiro, nem o desejo de viver uma vida confortável que me atrai. Se eu quisesse uma vida confortável, não teria vindo a este acampamento nem teria vivido num país tão húmido. Estou falando francamente, porque quero isto resolvido de uma vez por todas. Não quero essas discussões infantis ano após ano.

Um jornalista, que me entrevistou, considerou um ato magnificente dissolver uma organização de milhares e milhares de membros. Para ele era um grande feito, porque ele disse: "O que vai fazer depois, como irá viver? Não terá seguidores, as pessoas não o ouvirão." Se existirem apenas cinco pessoas que ouçam, que vivam, que tenham os seus rostos voltados para a eternidade, isso é suficiente. De que vale ter milhares de seguidores que não compreendem, embalsamados no preconceito, que não querem o novo, que preferem transladar o novo para caber nos seus eus, estagnados e estéreis?...

Porque eu sou livre e incondicionado, o todo, não a parte, não o relativo, mas toda Verdade que é Eterna, eu desejo àqueles que buscam entender-me, para serem livres, não para me seguir, não para fazer de mim uma prisão que se torne uma religião, uma seita. É preferível que sejam livres de todos os medos; do medo da religião, do medo da salvação, do medo da espiritualidade, do medo do amor, do medo da morte, do medo da própria vida. Como um artista que pinta um quadro, porquê se delicia na pintura, porquê é a sua auto-expressão, a sua glória, o seu ser, eu faço isto, e não porquê quero algo de alguém. Estais acostumados à autoridade ou à atmosfera de autoridade que, pensais, vos conduz à espiritualidade. Julgais e esperais que outro, com os seus extradordinários poderes, com um milagre, vos transporte ao dominio da liberdade eterna que é a Felicidade. Toda a vossa visão da vida se baseia nessa autoridade.

Tendes-me ouvido nos últimos três anos, sem que qualquer modificação tenha acontecido, exceto em alguns poucos de vós. Agora, analisem o que eu digo, sejam críticos, para que possam perceber completa e fundamentalmente...

Por dezoito anos vos tendes preparado para este evento, para a Vinda do Instrutor do Mundo. Por dezoito anos tendes-vos organizado, tendes procurado por alguém que proporcione um novo encanto às vossas mentes e corações, por alguém que transforme toda a vossa vida, que vos dê um novo entendimento; por alguém que vos eleve a um novo plano da vida, alguém que vos dê encorajamento, alguém que vos liberte, e agora considerem o que está acontecendo! Considerem, raciocionem vocês mesmos e descubram de que forma essa crença vos tornou diferentes, não a diferença superficial de usardes um distintivo, que é trivial, absurdo. De que maneira, de que forma tal crença varreu todas as coisas não essenciais da vida? Esta é a única forma de julgardes: De que forma sois mais livres, de que forma engrandecestes, de que forma vos tornastes mais perigosos para qualquer sociedade que se baseia no falso e no superficial? Em que é que os membros desta "Organização da Estrela" se tornaram diferentes ?......

Estais todos na dependência para a vossa espiritualidade em outrem, buscais a vossa felicidade em outrem, a vossa iluminação em outrem. Quando digo, olhai para o vosso interior, para a iluminação, para a glória, para a purificação e para a incorruptibilidade do ser, nenhum de vós está disposto a fazê-lo. É provável que haja alguns, mas muito poucos. Então, para quê uma organização?...

Nenhum homem exterior vos pode libertar; nem pode o culto organizado, nem a imolação por uma causa libertar-vos; nem pode a formação por uma organização, nem o atirar-se ao trabalho, vos libertará. Usais a máquina de escrever para escrever cartas mas não as venerais num altar. Mas é isso que fazeis quando as organizações se tornam o vosso maior problema. "Quantos membros tem essa organização?" Essa é a primeira pergunta que me colocam todos os jornalistas. "Quantos seguidores você tem? Pelo número julgaremos se o que diz é verdadeiro ou falso." Não sei quantos são. Não estou preocupado com isso. Se houvesse apenas um que tivesse sido liberto, isso seria suficiente...

Mais uma vez tendes a idéia de que apenas algumas pessoas têm a chave para o Reino da Felicidade. Ninguem a tem. Ninguem tem autoridade para ter essa chave. Essa chave é o vosso próprio eu, e no desenvolvimento e purificação, na incorruptibilidade desse eu sózinho, está a chave desse Reino de Felicidade...

Acostumaste-vos a a ouvir dizer até que ponto avançastes, qual é o vosso "status espiritual". Que infantilidade! Quem para além de vocês mesmos vos pode dizer se sois incorruptíveis?...

Mas aqueles que realmente desejam compreender, que buscam o que é eterno, sem príncipio nem fim, caminharão juntos com maior intensidade, serão um perigo para tudo o que não é essencial, para as irrealidades, para as sombras. E concentrar-se-ão, tornar-se-ão a chama, porque compreendem. Tal corpo devemos criar, e é esse o meu propósito. Por causa da verdadeira amizade, que pareceis desconhecer, haverá real cooperação da parte de cada um. E isto, não devido à autoridade, não por causa da salvação, mas porque realmente compreenderam, e conseqüentemente são capazes de viver no eterno. Isto é algo maior que todo o prazer, que todo o sacrifício.

Estas são portanto, algumas das razões pelas quais tomei esta decisão, depois de dois anos de consideração. Não é um impulso momentâneo. Não fui persuadido a fazê-lo por ninguém, não sou persuadido em tais matérias. Por dois anos tenho pensado nisto, vagarosamente, calmamente, cuidadosa e pacientemente e decidi desmantelar a Ordem, visto ser o seu Líder. Podeis formar outras organizações e esperar outro. Com isso não estou preocupado, nem que crieis novas gaiolas e novas decorações para essas gaiolas. A minha única preocupação, é libertar os homens.

 

 

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