EEUU: Satélite de Israel?

Manuel Cambeses Junior

Abril de 1998

 

Em 12 de abril do corrente ano (1998), o conhecido jornalista norte-americano R.C. Longworth publicou um instigante artigo no jornal Chicago Tribune, que haveria de dar a volta ao mundo através de sucessivas reedições.

Seu trabalho, que significativamente leva como título "Os donos do mundo", constitui uma glorificação do poder adquirido pelos Estados Unidos após o término da Guerra Fria. Nele, se reproduziram algumas frases citadas recentemente pela Secretária de Estado Madeleine Albright:

"Por suas capacidades únicas e seu poder inigualável os Estados Unidos devem continuar exercendo influência tanto na Europa quanto na área do Pacífico; devem conduzir a Rússia à democracia e promover a paz no Oriente Médio; devem continuar forjando um sistema econômico global; devem lutar e ganhar a guerra contra o crime internacional e deter o terrorismo; lutar contra a fome, controlar as enfermidades, proteger aos refugiados; se necessitamos usar a força é porque somos os Estados Unidos da América, a nação indispensável. Somos aqueles que tem a capacidade de ver muito além do futuro".

Ultimamente, entretanto, observamos que o Primeiro-ministro de Israel tem desafiado frontalmente o poderio de Washington. Benjamin Netaniahu negou-se a aceitar a proposta norte-americana de retirada parcial da Cisjordânia, apesar de que a mesma foi aceita, sem restrições, pelo líder palestino Yasser Arafat; recusou-se a assistir à "Cúpula de Washington" convocada pelo presidente Bill Clinton; solicitou a mediação do Primeiro-ministro inglês Tony Blair, menosprezando a tradicional mediação estadunidense; referiu-se em termos inusualmente duros à Secretária de Estado, Madeleine Albright e ao Delegado Especial do Presidente Clinton, Dennis Ross. E, mais ainda, viajou recentemente a Washington com o firme propósito de dirigir-se às organizações judias/norte-americanas e aos congressistas desse país, para solicitar-lhes que pressionem o presidente Clinton e o levem a modificar sua atual posição com relação à problemática árabe-israelense.

Como explicar esta contradição entre o ilimitado poderio dos Estados Unidos e o aberto desafio que lhe lança um aliado, como Israel, que recebe milhões de dólares anuais em ajuda econômica norte-americana?

Tradicionalmente a Casa Branca tem assumido o papel de defensora dos interesses dos países árabes moderados, cujo subsolo abriga a maior parte das reservas petrolíferas mundiais. Para contrapor-se a esta posição o governo de Israel tem-se dirigido e apelado à poderosa comunidade judia/norte-americana.

No entender de Robert H. Trice (American Jewish Ethnicity, Ethnicity in Contemporary America, Dubuque 1985): "O Governo de Israel, tendo se encontrado em conflito aberto com as administrações de Johnson, Nixon, Ford e Carter, tem recorrido tradicionalmente aos esforços em favor das organizações judias-americanas". Estas organizações, por sua vez, tem exercido uma sistemática influência sobre o Congresso dos Estados Unidos que, sensível ao gigantesco poder do dinheiro de sua colônia judia, tem respondido, invariavelmente, a seus pontos-de-vista. Observa-se que tanto o Executivo quanto o Congresso estadunidenses têm sido permanentemente cobrados no que tange à política a ser adotada com relação ao Oriente Médio.

Faz muito tempo que as pressões exercidas pela Casa Branca sobre o governo de Israel não são correspondidas tanto por Jerusalém como por Washington. Vejamos o seguinte exemplo: o Presidente Ford, insatisfeito com o comportamento israelense, fez uma declaração pública solicitando uma reavaliação da política dos Estados Unidos no Oriente Médio. O termo "reavaliação" significava a suspensão da ajuda dos EEUU a Israel até que esse país desse mostras de mudanças em seu comportamento. Isto constituiu-se numa proposta histórica pois, pela primeira vez, desde os tempos de Eisenhower, um presidente americano tornava pública a possibilidade de suspender a ajuda a Israel. A resposta dos israelenses não veio de sua própria capital como seria de se esperar, mas do próprio Senado estadunidense. Era impossível conceber uma resposta mais dramática e intimidatória: setenta e sete assinaturas de senadores fizeram o presidente Ford saber que ele estava incapacitado de levar adiante a sua proposta. Não foi em vão que, em 1973, o legendário Senador William Fulbright chegou a pronunciar as seguintes palavras: "A grande maioria do Senado dos EEUU, ao redor de 85% do mesmo, encontra-se à completa disposição de Israel, para cumprir qualquer coisa que ele queira".

Esta estranha situação tem conformado uma curiosa equação política: o Congresso prevalecendo sobre a Casa Branca em relação à orientação da política norte-americana para o Oriente Médio; a comunidade judia-estadunidense determinando a posição do Congresso nesta matéria e o Estado de Israel definindo os contornos gerais da política a ser adotada com relação ao Oriente-Médio.

Dean Rusk, secretário de Estado no tempo de Kennedy e Johnson, certa vez pronunciou a seguinte frase: "Israel tem demonstrado freqüentemente que não é um satélite dos EEUU. É igualmente importante demonstrar que os Estados Unidos não são um satélite de Israel".

Como é possível que apenas seis milhões de pessoas, que constituem a população judia dos Estados Unidos, possam ter alcançado uma influência tão descomunal? A resposta a encontramos em alguns fatores como os seguintes: primeiro, a comunidade judia constitui o segmento grupal mais bem sucedido dos Estados Unidos, com dezenas de prêmios Nobel e apresenta o mais alto nível de ingressos financeiros (pagamento de impostos) da sociedade norte-americana. Não existe uma só área de atividade em que seus membros não se sobressaiam ou ocupem posições de liderança; segundo, compõe uma comunidade extremamente próspera que conta com aproximadamente oitenta comitês de ação política, ou seja, organizações encarregadas de financiar campanhas eleitorais; terceiro, trata-se de uma comunidade coesa e que atua harmonicamente em bloco em função de um único objetivo: os interesses de Israel.

Entretanto, tão significativo como suas características grupais são seus métodos. Estes se caracterizam pelo uso alternativo da prodigalidade e do garrote. A primeira, traduzida em generosas contribuições eleitorais dirigidas a congressistas amigos e alinhados com as causas judias. O segundo é utilizado implacavelmente contra os legisladores que tenham obstaculizado os interesses de Israel. Senadores do tope de William Fulbright, Adlai Stevenson e Charles Percy se viram fora do Capitólio devido a poderosas campanhas encetadas contra eles pela comunidade judia.

A viagem que recentemente empreendeu o líder judeu Benjamin Netaniahu a Washington constitui uma ocasião histórica. Os resultados que advirão deste encontro permitirão determinar se os Estados Unidos representa, efetivamente, o poder hegemônico mundial ou se, ao contrário, constitui o "satélite" a que se referiu Dean Rusk.

 

Manuel Cambeses Junior é Coronel-Aviador R/R e Conferencista Especial da Escola Superior de Guerra.


O lobby de Israel nos Estados Unidos

Michael Massing

The Nation

07/04/2003

 

No dia 2 de maio de 2002 o Senado [dos EUA] por 94 votos contra 2, e a Câmara de Representantes, por 352 contra 21, expressou seu ilimitado apoio a Israel pelas recentes ações militares contra os palestinos.

As resoluções foram tão aberrantes que a administração Bush — à qual não se pode acusar de timidez quando a coisa é dar apoio a Israel — tratou de suavizar sua linguagem para poder ter mais espaço na retomada das conversações de paz. Mas seus pedidos foram rejeitados e os membros do Congresso, de Joe Lieberman a Tom DeLay, competiram para incensar Ariel Sharon e expressar seu menosprezo a Yasser Arafat.

Na notícia sobre a votação, o New York Times assinalou que um dos poucos dissidentes, o senador Ernest Hollings da Carolina do Sur, "sugeriu que muitos senadores estavam, na verdade, em busca de contribuições para suas campanhas."

Fora essa breve referência, o Times por exemplo não mencionou o papel que o dinheiro, ou os grupos de pressão em geral, possam ter tido na desequilibrada votação. Para sermos mais específicos, o Times não fez menção sequer ao Comitê EUA-Israel de Assuntos Públicos [AIPAC]. Foi um esquecimento notável.

O AIPAC é amplamente considerado como o lobby de política estrangeira mais poderoso em Washington. Seus 60.000 membros distribuem milhões de dólares a inúmeros membros do Congreso situados em ambos os lados do corredor. Também investe em uma rede de cidadãos influentes em todo o país, os quais pode mobilizar regularmente para apoiar seu objetivo principal, que é assegurar que não haja arestas entre as políticas de Israel e dos Estados Unidos.

Assim não é por acaso que o Congresso vota de maneira tão determinada em apoio a Israel. No entanto, verificando a cobertura jornalística dos EUA nos últimos meses, não encontrei quase nada sobre o AIPAC e sua influência.

O único informe de alguma substância apareceu no Washington Post, no final de abril. Informando sobre a conferência anual do AIPAC, o corresponsal Mike Allen mencionou que entre os presentes estava a metade do Senado, 90 membros da Câmara de Representantes e 13 funcionários superiores do governo, incluindo o Chefe de Pessoal da Casa Branca, Andrew Card, que foi aplaudido de pé quando declarou em hebreu, "Viva o povo de Israel !" Allen escreveu ainda que o "AIPAC passou animadamente uma lista a um por um das centenas de dignitários, com aplausos individuais a cada um deles." Esse artigo, no entanto, não sondou abaixo da superfície para examinar as técnicas de pressão e de coleta de fundos que o AIPAC utiliza para assegurar o apoio do Congresso.

O AIPAC não é a única organização pró-Israel que escapa da análise.

A Conferência de Presidentes das Principais Organizações Judias dos EUA, ainda que seja pouco conhecida pelo público em geral, tem uma tremenda influência em Washington, especialmente no poder executivo.

Sediada em Nova York, se supõe que a conferência expresse a opinião das 52 organizações judias que formam seu conselho, mas na realidade tende a refletir os pontos de vista de seu vice-presidente executivo, Malcolm Hoenlein.

Hoenlein têm tido, há muito tempo, laços estreitos com o Partido Likud de Israel. Nos anos 90 ajudou a reunir dinheiro para grupos de colonos na Cisjordânia.

Atualmente ele se refere regularmente a essa região como "Judéia e Samaria," um slogan de inspiração bíblica utilizado pelos conservadores para justificar a presença de colonos judeus nessa região. Hoenlein, um agente hábil e articulado, utiliza seu acesso ao Departamento de Estado, ao Pentágono e ao Conselho de Segurança Nacional para impulsionar a idéia de um Israel forte. É tão efetivo em seu trabalho que o jornal judeu Forward, em sua lista anual dos 50 judeus estadunidenses mais importantes, colocou Hoenlein em primeiro lugar.

Hoenlein demonstrou sua capacidade de organização em abril, quando ajudou a montar a grande manifestação a favor de Israel no Capitol Hill. Ainda que o evento em si tenha sido amplamente comentado, Hoenlein e a Conferência permaneceram nos bastidores. Um estudo informal da cobertura recente não produziu nem um único artigo que falasse detidamente de Hoenlein e de como utilizou a Conferência de Presidentes para impedir que a administração Bush pressionasse demasiadamente o governo de Sharon.

A que se deve o segredo?

Por um lado, não é fácil ter informações sobre esses grupos. O poder do AIPAC faz com que as possíveis fontes de informação mostrem pouca disposição de discutir por escrito a organização, e os empregados que a abandonam geralmente assinam compromissos que os obrigam a guardar silêncio. Os funcionários do AIPAC raramente dão entrevistas, e a organização inclusive resiste a divulgar seu conselho de diretores. Os jornalistas, por seu lado, freqüentemente não desejam escrever sobre a influência do judaísmo organizado.

Em todo o mundo árabe, se considera que o "lobby judeu" está na raíz de todo o mal no Oriente Próximo, e muitos repórteres e redatores — especialmente os judeus — se mostram preocupados ante a possibilidade de contribuir para semelhantes estereótipos.

No fim das contas, no entanto, o principal obstáculo para a cobertura desses grupos é o meio ambiente. As organizações judias detectam rapidamente qualquer parcialidade na cobertura do Oriente Próximo, e se queixam rapidamente a respeito. É especialmente o caso dos últimos tempos. Como observou Forward no final de abril: "A eliminação da parcialidade anti-israelense na imprensa converteu-se para muitos judeus estadunidenses no caminho mais direto e emotivo para conectar-se com um conflito a 10.000 quilômetros de distância." Recentemente, uns 1.000 assinantes do Los Angeles Times, anularam as entregas a domicílio do jornal durante um dia para protestar contra aquilo que consideravam como uma cobertura pró-Palestina do diário. O Chicago Tribune, o Minneapolis Star Tribune, o Philadelphia Inquirer e o Miami Herald, todos foram afetados por protestos similares e a NPR recebeu milhares de e-mails com queixas por suas informações sobre o Oriente Médio.

Esses protestos têm efeito? Consideremos a experiência recente do New York Times:

No dia 6 de maio o jornal publicou duas fotografías de um desfile pró-Israel em Manhattan. As duas mostravam o desfile no fundo da imagem e davam proeminência, no primeiro plano, aos que protestavam contra Israel. O jornal, que foi ameçado durante semanas com um boicote por seus leitores judeus, foi inundado com protestos.

No dia 7 de maio o Times publicou uma desculpa indecente. Isso causou grande consternação na redação; muitos repórteres e redatores consideraram que o jornal se prostou diante de grupo influente. "É intimidante e muito assustador", disse o correspondente de outro jornal de importância que está familiarizado com esses incidentes.

"Os jornais temem organizações como o AIPAC e a Conferência de Presidentes das Principais Organizações Judias nos Estados Unidos.A pressão desses grupos é inexorável. Os redatores preferem não mexer com eles."

 

Não está na hora de denunciá-los ante a opinião pública?

 

 

 


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