Simplificação gera guerras santas

 

Umberto Eco

outubro de 2001

 

 

Que alguém tenha, nos últimos dias, pronunciado palavras inoportunas sobre a superioridade da cultura ocidental é um fato secundário. É secundário que alguém diga algo que considere correto, mas no momento errado, e é secundário que alguém acredite em algo injusto ou mesmo errado, porque o mundo está cheio de gente que acredita em coisas injustas e erradas, até mesmo um senhor que se chama Bin Laden, que talvez seja mais rico que o nosso primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, e tenha estudado em universidades melhores. O que não é secundário – e que deve preocupar um pouco a todos – é que expressões, ou mesmo artigos inteiros e apaixonados que de algum modo as legitimaram, tornem-se objeto de discussão geral, ocupem a mente dos jovens e talvez os induzam a conclusões passionais ditadas pela emoção do momento. Preocupo-me com os jovens porque a cabeça dos velhos não se muda mais.

As guerras de religiões que ensanguentaram o mundo por séculos nasceram de adesões passionais a contraposições simplistas, como nós e os outros, bons e maus, brancos e negros.

Se a cultura ocidental demonstrou-se fecunda (não só do Iluminismo até hoje, mas antes disso, quando o franciscano Roger Bacon nos convidava a aprender línguas porque temos algo a aprender, mesmo dos infiéis) é também porque esforçou-se para "dissolver", à luz de investigação e espírito crítico, simplificações danosas. Naturalmente, não fez isso sempre, porque também fazem parte da história da cultura ocidental Hitler, que queimava os livros, condenava a arte "degenerada", matava os pertencentes às raças "inferiores", ou o fascismo, que me ensinava na escola a recitar "Deus amaldiçoe os ingleses", porque eram "o povo das cinco refeições" e, portanto, gulosos, inferiores ao italiano parco e espartano. Mas são os melhores aspectos de nossa cultura que devemos discutir com os jovens, de qualquer cor, se não quisermos que desabem novas torres nos dias que eles viverão depois de nós.

Um elemento de confusão é que, frequentemente, não se consegue compreender a diferença entre a identificação com as próprias raízes, o entendimento de quem tem outras raízes e o julgamento de o que é bem ou mal. Quanto às raízes, se me perguntassem se preferiria passar os anos de aposentadoria numa cidadezinha em Monferrato, na majestosa região do parque nacional de Abruzzo, ou nas doces colinas da região de Siena, escolheria Monferrato. Mas isso não permite que julgue outras regiões italianas como inferiores ao Piemonte.

Dessa forma, se, com suas palavras, o primeiro-ministro queria dizer que prefere viver em Arcore do que em Cabul e tratar-se num hospital milanês do que num hospital em Bagdá, eu estaria pronto para aderir à sua opinião (com a exceção de Arcore). E se isso mesmo dissessem, que em Bagdá fundaram o hospital mais equipado do mundo, em Milão me sentiria mais em casa, e isso também influiria na minha capacidade de recuperação. As raízes podem ser até mais amplas do que as regionais ou nacionais. Preferiria viver em Limoges, por assim dizer, do que em Moscou. Mas como, Moscou não é uma cidade belíssima? Certamente, mas em Limoges eu entenderia a língua.

Em suma, cada um se identifica com a cultura em que cresceu, e os casos de transplante radical, que também existem, são uma minoria. Lawrence da Arábia até se vestia como os árabes, mas, no final, voltou para sua própria casa.

Passemos agora ao confronto de civilizações, porque é essa a questão. O Ocidente, seja apenas e frequentemente por razões de expansão econômica, foi curioso em relação a outras civilizações. Muitas vezes as liquidou com desprezo: os gregos chamavam de bárbaros, ou seja, de balbuciantes aqueles que não falavam sua língua, e, por isso, era como se aqueles não falassem em absoluto. Mas gregos mais maduros, como os estóicos (talvez porque alguns fossem de origem fenícia), bem cedo advertiram que os bárbaros usavam palavras diferentes das gregas, mas se referiam aos mesmos pensamentos. Marco Polo procurou descrever com grande respeito os usos e costumes chineses; os grandes mestres da tecnologia cristã medieval procuravam fazer com que fossem traduzidos os textos de filósofos, médicos e astrólogos árabes; os homens do Renascimento até exageraram na sua tentativa de recuperar a sabedoria oriental perdida, dos caldeus aos egípcios; Montesquieu procurou entender como um persa poderia ver os franceses; e os antropólogos modernos conduziram seus primeiros estudos sobre as relações dos salesianos, que, de fato, aproximavam-se dos Bororos para convertê-los, mas também para entender qual era o seu modo de pensar e de viver – talvez por lembrar que missionários de séculos antes não tinham conseguido entender as civilizações ameríndias e haviam, assim, encorajado seu extermínio.

Fiz menção aos antropólogos. Não falo nada de novo se lembro que, da metade do século 19 em diante, a antropologia cultural desenvolveu-se como tentativa de sanar o remorso do Ocidente em relação aos Outros, e especialmente àqueles Outros que eram considerados selvagens, sociedades sem história, povos primitivos. O Ocidente não fora sensível com os selvagens: havia-os "descoberto", tentado evangelizá-los, explorá-los e reduzir muitos à escravidão, aliás, com a ajuda dos árabes, porque os navios dos escravos eram descarregados em Nova Orleans por traficantes muçulmanos. A antropologia cultural (que pôde prosperar graças à expansão colonial) procurava reparar os pecados do colonialismo, mostrando que aquelas culturas "outras" eram justamente culturas, com suas crenças, seus ritos, seus hábitos, bastante razoáveis no contexto em que haviam se desenvolvido e absolutamente orgânicas, ou seja, se sustentavam sobre uma lógica interna. A tarefa do antropólogo cultural era a de demonstrar que existiam lógicas diferentes da ocidental, que deviam ser levadas a sério, não desprezadas e reprimidas.

Isso não queria dizer que os antropólogos, uma vez explicada a lógica dos Outros, decidissem viver como eles; pelo contrário, terminado seu trabalho de muitos anos além-mar, voltavam para passar uma serena velhice em Devonshire ou na Picardia. Mas, lendo seus livros, alguém poderia pensar que a antropologia cultural defende uma posição relativista e que afirma que uma cultura equivale a outra. Não me parece. No máximo, o antropólogo dizia que, enquanto os Outros estivessem em sua própria casa, era preciso respeitar seu modo de viver.

A verdadeira lição que se deve tirar da antropologia cultural é que, para dizer se uma cultura é superior a outra, é preciso fixar parâmetros. Uma coisa é dizer o que é uma cultura, outra é dizer com base em quais parâmetros a julgamos. Uma cultura pode ser descrita de forma aceitavelmente objetiva: essas pessoas comportam-se assim, crêem nos espíritos ou numa única divindade que deriva de si toda a natureza, unem-se em clãs de parentesco segundo essas regras, consideram que seja bonito transpassar o nariz com anéis (poderia ser uma descrição da cultura jovem no Ocidente) consideram impura a carne de porco, circuncidam-se, criam cães para colocá-los na panela em dias festivos ou, como ainda dizem os americanos sobre os franceses, comem rãs. O antropólogo obviamente sabe que a objetividade é sempre posta em crise por tantos fatores. No ano passado, estive em Dogon (Camarões) e perguntei a um garotinho se ele era muçulmano. Ele respondeu em francês: "Não, sou animista". Ora, acreditem, um animista não se define animista se não tiver pelo menos obtido um diploma na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris) e, portanto, a criança falava da própria cultura da forma como a haviam definido os antropólogos.

 

 

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