Jovens e velhos

Nelson Rodrigues

 

 

Às vezes, eu quero pensar que o jovem é uma figura antiga, obsoleta, espectral. Outras vezes, acontecem coisas que provam exatamente o contrário. O jovem está vivo, talvez mais vivo do que nunca.

Ontem, dizia-me um amigo:

— Meu filho toma droga! Você entende? Droga!

Ele falava, como se o filho fosse o único num mundo imaculado. Sabe, mas esquece, que no mesmo momento, no mundo inteiro, outros filhos, outros sobrinhos, outros netos, também tomam drogas e se auto-destroem.

Tive, com esse amigo (que fala em meter uma bala na cabeça) tive uma conversa de quatro horas.

Ele perguntava:

— O que é que há? Eu não entendo mais nada!

Agarrou-me num apelo, e perguntava:

— Por quê?

Nunca falei tanto. Comecei dizendo:

— O defeito do jovem é o velho. Ou pluralizando: são os velhos que, no momento, em toda parte e em qualquer idioma, corrompem os jovens.

Antigamente, a velhice era de uma cerimônia, de um pudor, de uma correção admiráveis. Há todo um folclore sobre os nostálgicos, espectrais velhinhos da porta da “Colombo”. Mas não fazem mal a ninguém. Apenas olham as meninas, e com que ternura infeliz e antiga. Acho até que o Departamento de Turismo devia preservá-los.

Falo dos que erguem a cínica bandeira da imaturidade. Nem se pense que a idealização da imaturidade começa nos jornais, nas universidades, nas rádios, nas TVs, nos sermões. Não. Começa em casa.

O moço começa a ter razão na altura da primeira chupeta e quase no berçário. Eu gostaria de saber qual teria sido o primeiro pai, mãe, ou tia, ou avó, ou cunhada, que inaugurou o Poder Jovem. O Poder Jovem é, portanto, anterior a si mesmo. Começa a exercitar a sua ferocidade muito antes, ainda na infância profunda. Há por aí toda uma geração de pequeninos possessos. São garotinhos de quatro, cinco anos, de uma intensa malignidade. Um dia, a família achou que a criança está certa quando mete a mão na cara da mãe, do pai, tia ou avó.

Outro dia, eu próprio vi uma cena admirável. Uma garotinha de cinco anos foi impedida de fazer não sei o quê. Como uma pequenina fera, investiu contra o pai, às caneladas. Desatinada, a mãe vai apanhar a menina e a carrega no colo. E então, acontece isto: A filha mete-lhe a mão na cara. Sempre digo que precisamos tirar o som da bofetada. Uma bofetada muda seria menos ultrajante. Mas a bofetada da garotinha estalou na cara materna. (Até hoje, não entendi como aquele pingo de gente foi capaz de bater com uma violência adulta).

Fiquei olhando. Mas o episódio familiar não parou aí. A mãe, agarrada à filhinha, soluçava:

— Coitadinha! Coitadinha!

Tias se arremessavam. A menina passou de colo em colo. Numa das vezes, chutou o seio de uma tia e meteu a mão na cara da seguinte; e na imediata, cuspiu na boca. Foi um horror.

Eis o que eu queria dizer: Imagino que a origem do Poder Jovem estará numa bofetada consentida, de filha em mãe, ou de filho em pai. Hoje, o adolescente tem uma sensação de onipotência. O homem maduro tem, por vezes, um olhar estrábico de pavor. Sim, o homem maduro traz o medo no coração. Se alguém gritar: — Olha o rapaz! — uma dona de casa ou pai de família sairá correndo e pulando os muros da covardia. O jovem, não e nunca.

Vejam um rapaz chegando a qualquer lugar. Entra e olha, com luminoso descaro. Cada gesto forte extroverte toda uma certeza de poder. Sente-se nele uma coragem irresponsável e brutal. Nenhum medo, nenhuma dúvida, nenhuma interrogação. É um prodigioso ser, feito de certezas.

Mas eis o que importa repetir: O jovem não tem culpa nenhuma. Fizeram-no assim. Vítima de um processo de desumanização, ele é vítima também dos velhos. Numa antiga crônica, referi a um episódio que considero magistral. A coisa se passou com o padre Ávila. Certo rapaz, se não me engano aluno da PUC, cometeu uma vileza atroz com um amigo. O padre Ávila (espírito altamente compreensivo) foi sondá-lo.

Perguntou-lhe:

— Você não acha isso uma deslealdade?

O adolescente pergunta:

— E é preciso ser leal?

O bom sacerdote perdeu noites sem saber direito o que aquilo significava. E nem lhe ocorreu que, por trás do moço, explicando aquela e outras deslealdades, estava um velho conhecido nosso – o pulha.

Ora, o ser humano não anda de quatro, nem está no bosque urrando à Lua. E por quê? Resposta: Porque somos responsáveis. É a responsabilidade o nosso mistério e a nossa salvação. Os velhos começam por suprimir os limites morais da juventude. O nosso padre Ávila apreciou a canalhice do aluno ou conhecido com um espanto muito leve, quase imperceptível. Se fosse um quarentão, havia de se arremessar para a janela, aos berros de: — Aqui del Rei! Aqui del Rei! — E chamaria a radiopatrulha. Ou ele próprio, na base da velha moral, daria ao pulha umas bengaladas saudabilíssimas.

Portanto, são os velhos, sacerdotes, psicólogos, professores, artistas, sociólogos, que dão total cobertura à imaturidade. Os jovens são o certo, o direito, o histórico, o infalível.

Um outro amigo, velho como eu, dizia-me:

— A juventude sabe mais do que nós.

Outro exemplo, o Dr. Alceu. É um sábio católico. Não há dúvida. Ou, pelo menos, muitos acreditam na sua autoridade moral e o lêem, como a um santo.

Quando o leio, fico imaginando: "Se eu fosse jovem, depois de ler isso, sairia por aí decapitando velhinhas como Raskolnikov.”

Até hoje, não sei bem que idéia faz da juventude o nosso Tristão de Athayde. Ou está esquecido de que o jovem participa da nossa miserável, infeliz e, tantas vezes, abjeta condição humana? O jovem é, permita-me o mestre lembrar-lhe, o ser humano, com suas fragilidades, os seus méritos, as suas tentações e a inevitável, obrigatória dimensão do canalha. O moço tem os defeitos de qualquer um de nós e mais este: a imaturidade. Eu sei que o Dr. Alceu, de uns tempos para cá, tem feito a promoção da imaturidade como se esta fosse sabonete ou refrigerante. E o nosso Tristão, como o Carlinhos de Oliveira, inverte os papeis: A maturidade é que passa a ser uma deficiência humilhante.

Meu amigo ouviu, ouviu, mas não se convenceu. Disse e repetiu:

— Palavras, palavras, palavras. — respira fundo — Meu filho está me assassinando. Todos os dias, eu me sinto assassinado pelo meu filho.

Não havia mais nada a dizer. E assim me despedi do assassinado.

 

 

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