A INTELIGÊNCIA A SOLDO DA MENTIRA

Alfredo Braga

 

Em seu artigo O novo anti-semitismo, Umberto Eco quer desqualificar a crescente indignação mundial diante das políticas israelitas, sugerindo que por trás das manifestações contrárias a Israel, haveria sempre "um tom anti-semita".

Há décadas que estávamos habituados com a clara objetividade e a rigorosa lógica desse autor e, por isso mesmo, agora quase íamos tomando como razoável a tese que encontra anti-semitismo nas denúncias dos vários crimes contra a humanidade, praticados por organizações israelitas, desde antes da fundação do Estado judeu até aos dias de hoje. Quer dizer, essa indignação não mereceria respeito, segundo Umberto Eco, ainda que as críticas viessem de "mentes mais lúcidas" e de "pensadores mais profundos de Israel".

Com essa manobra pouco sutil, ele quer desconsiderar o ânimo natural de pessoas comuns, como eu, ou como você, ao expressarmos qualquer julgamento moral sobre as campanhas militares de Israel, ou sobre a ação de organizações sionistas em outros países, pois, segundo ele, já seríamos todos anti-semitas. E ao fim do artigo, no penúltimo parágrafo, ainda leio esta estranha afirmação sustentada por uma lógica pouco honesta: "Em suma, os anti-semitas não gostam quando os judeus vivem em um país que não seja Israel. Mas, se um judeu decide morar em Israel, os anti-semitas também não gostam." É evidente que qualquer pessoa minimamente informada, ou tão informada quanto o próprio Umberto Eco, sabe perfeitamente que quando se critica Israel, ou certas entidades sionistas em todo o mundo, não é o atual endereço ou o lar de seus cidadãos judeus que está em questão, mas a eventual imoralidade de seus atos, ou quando e se as suas ações forem criminosas, ou criticáveis. Causa espanto que um intelectual respeitado em todo o mundo venha se valer de tais artifícios para tentar desqualificar adversários, juntando no mesmo saco, racistas e fanáticos e autores como o historiador Robert Faurisson, ou o palestino Edward Said.

Depois de mencionar manchetes de jornais sobre protestos anti-semitas em Amsterdam e "coisas do gênero", o autor do romance O Nome da Rosa, segue em seu texto com lucubrações incoerentes e proposições deslocadas como: "refletir se seria correto definir um protesto contra a administração Markel na Alemanha como antiariano, ou um protesto contra Berlusconi como antilatino". Quanto à ascendência de Berlusconi ainda não sei, mas sabe-se que a da senhora Merkel nem de longe pode ser considerada "ariana", já que a chanceler alemã descende de família judia, como tantos outros dirigentes da atual República Federal da Alemanha desde o final da Segunda Grande Guerra.

Umberto Eco, especialista em semiótica e comunicação, passa a definir com toda a simplicidade acadêmica o "anti-semitismo histórico" como "uma das muitas formas de fanatismo", retirando assim do foco da atenção o mérito das críticas contra as ações do exército judeu na Faixa de Gaza e no Líbano. E desse modo escorregadio já parte da defesa ao ataque, qualificando qualquer laivo de indignação como "impregnado de fé religiosa e de crenças fundamentalistas", e assim vai abrindo ainda mais o leque das suas recentes investidas contra tudo que possa incomodar tanto Israel, quanto certas entidades judaicas muito ativas em vários países, como a ADL, ou a AIPAC. Diz ele: "Se muitas pessoas acreditam na existência de um diabo que conspira para nos levar à ruína, por que não poderiam acreditar também numa conspiração judaica para dominar o mundo?". Nesta frase aparentemente ingênua, ele retira do bolso outro assunto que há algum tempo vem tomando a sua atenção: a origem e a autoria do livro Os protocolos dos sábios de Sião; não por acaso, o livro-fanzine do cartunista Will Eisner, O complô, ostenta a sua Introdução para lhe emprestar o aval do seu prestígio acadêmico.

Tomar o exemplo de autores anti-judaicos do século XIX, como ele faz a seguir, para argumentar que hoje a agricultura em Israel prova que eles estavam errados, pode ser qualquer coisa, até essa despropositada "prova" de que "o anti-semitismo é cheio de contradições". Para exaltar supostos méritos israelitas, ele evita citar os desvios de mananciais de água para as fazendas judias (cultivadas com mão-de-obra estrangeira) e o severo racionamento da água fornecida aos lavradores palestinos, e a sistemática destruição de suas cisternas familiares.

É bastante evidente a intenção de confundir e embaralhar os assuntos. Primeiro, está claro que as críticas às políticas de Israel quanto ao tratamento desumano imposto ao povo palestino não são, como quer Umberto Eco (e aqueles a quem o artigo agrada e convém) demonstrações de anti-semitismo. Segundo, nem a existência do livro Os protocolos dos sábios de Sião, nem a contestação de autores anti-judaicos do século XIX, podem justificar essa profusão de sofismas e de inverdades, nem tampouco as ofensas às pessoas que, como Gandhi, ainda acreditam na necessidade de Justiça.

Por fim, quando ele diz, não sem largo cinismo, que Israel "não foi conquistado com violência aviltante ou com nativos dizimados" quer, sem o menor escrúpulo moral e intelectual, escamotear a história e a memória daqueles a quem chama de "árabes anti-semitas", os que se lembram do massacre em Deir Yassin.

É realmente preocupante ver tamanho empenho a soldo da mentira.

 


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