A realidade transcendental

Krishnamurti

In O vôo da águia,

(palestras)

ICK Editora,

1976.

 

 

Estivemos falando sobre o caos, a medonha violência, a confusão existente no mundo, não só exteriormente, mas também interiormente. Dissemos que a violência é conseqüência do medo e examinamos a questão do medo. Agora, devemos considerar um assunto talvez um pouco estranho à maioria de vocês, uma coisa que cumpre examinar e não rejeitar pura e simplesmente como ilusão, fantasia, etc..

Através da História o homem, percebendo que sua vida é breve, acidentada, sujeita ao sofrimento e à morte certa, sempre formulou uma idéia chamada "Deus". Reconhecendo, como também hoje reconhecemos, que a vida é transitória, desejou experimentar alguma coisa de imenso e de supremo, alguma coisa não criada pela mente ou pelo sentimento; desejou experimentar, ou descobrir o caminho de um mundo transcendental, inteiramente diferente deste, com as suas aflições e torturas, e nutriu a esperança de descobrir esse mundo transcendental pelo buscar e sondar. Cumpre-nos examinar esta questão a fim de descobrirmos se existe ou não uma realidade, cujo nome não importa, de dimensão inteiramente diferente. Para penetrarmos tão profundo, devemos naturalmente perceber não ser suficiente compreender apenas no plano verbal, porquanto a descrição jamais é a coisa descrita, e a palavra nunca é a coisa. Pode-se penetrar esse mistério, se é um mistério isso, que o homem sempre tentou penetrar ou prender, chamando-o, a ele se apegando, adorando-o, por ele se fanatizando?

Sendo a vida como é, bastante superficial, vazia, cheia de enganos e sem muita expressão, tratamos de inventar, de lhe dar um significado. Se o indivíduo que inventa tal significação e finalidade é dotado de certo talento, sua invenção se torna uma coisa bastante complexa. E nela não encontrando a beleza, o amor, a experiência da imensidade, a pessoa pode tornar-se pessimista, descrente de tudo. Vê-se, pois, quanto é absurdo e ilusório e sem significação tratar meramente de inventar uma ideologia, uma fórmula, afirmar que Deus existe ou não existe, quando a vida nada significa, o que é verdade, pela maneira como a estamos vivendo. Portanto, abstenhamo-nos de inventar qualquer significado.

Se pudermos caminhar juntos, teremos a possibilidade de descobrir por nós mesmos se há ou não há uma realidade que não seja uma mera invenção intelectual, ou emocional, uma fuga.

Através da História, o homem sempre disse que existe uma realidade e que para alcança-la devemos nos preparar, nos disciplinar, resistir a toda a espécie de tentação, nos dominar, controlar o sexo, ajustar-nos a um padrão estabelecido pela autoridade religiosa, pelos santos, etc., ou negar o mundo, nos recolher a um mosteiro, a uma caverna, para meditar a sós e não estarmos sujeitos a tentações. Salta aos olhos o absurdo dessa luta, pois é bem evidente que não há nenhuma possibilidade de fugirmos do mundo, do que é, do sofrimento, da agitação, e de tudo quanto a ciência criou. E quanto às teologias e crenças, evidentemente temos de abandona-las todas. Se lançarmos fora toda a espécie de crença, já não haverá medo nenhum.

Sabendo-se que a moralidade social não é moralidade, que ela é imoral, compreende-se que uma pessoa deva ser sobremodo moral, porque, afinal de contas, a moralidade consiste apenas em estabelecer a ordem tanto em nós mesmos como fora de nós; mas, essa moralidade deve existir na ação, e não ser meramente uma moral conceitual, mas um comportamento genuinamente moral.

Podemos nos disciplinar sem repressão, controle, fuga? A significação da raiz da palavra "disciplina" é "aprender"; não é se ajustar ou tornar-se discípulo de alguém; não é imitar ou reprimir: é aprender. O próprio ato de aprender exige disciplina, uma disciplina não imposta, não ajustada a uma certa ideologia, não é a ríspida austeridade do monge. Todavia, se não existir uma austeridade profunda, nosso comportamento na vida diária só nos levará à desordem. É bem evidente a importância de mantermos em nós mesmos uma ordem perfeita, semelhante à ordem matemática, não relativa, nem comparativa, nem produzida por nenhuma influência ambiente. É necessário estabelecer a boa conduta, que é virtude, para que haja na mente a ordem completa. A mente que está sendo torturada, frustrada, moldada pelo ambiente, que se ajusta à moralidade social, tem de estar confusa em si própria, e uma mente confusa jamais descobrirá o verdadeiro.

Para que a mente possa alcançar aquele inefável mistério – se ele existe – torna-se necessário lançar a base de uma conduta, de uma moralidade que não seja a da sociedade, uma moralidade isenta de medo e, portanto, livre. Só então, lançada essa base profunda, poderá a mente começar a investigar o que é meditação, aquele estado de silêncio, de observação em que não existe "observador". Se não se estabelecer em nossa vida, em nossas ações, essa base da conduta correta, pouco significará a meditação.

Há no Oriente várias escolas, sistemas a métodos de meditação, inclusive o Zen e a Ioga, introduzidos no Ocidente. Deve-se ter uma compreensão muito clara dessa idéia de que, por meio de um método, de um sistema, de ajustamento a um certo padrão ou tradição, a mente alcançará aquela realidade. Bem se pode ver quanto isso é absurdo, não importa que venha do Oriente ou se inventado aqui. Método supõe ajustamento, repetição; método supõe que uma dada pessoa que alcançou um certo grau de iluminação pode dizer-nos o que devemos e o que não devemos fazer. E nós, que tanto ansiamos por aquela realidade, seguimos, ajustamo-nos, obedecemos, praticamos o que nos mandam fazer, dia após dia, como se fôssemos um conjunto de máquinas. A mente embotada e insensível, a mente que não alcançou um alto grau de inteligência, pode praticar infinitamente um determinado método, e se tornará cada vez mais embotada, cada vez mais estúpida. Terá "suas experiências" dentro do campo de seu condicionamento.

Alguns de vocês talvez tenham estado no Oriente e ali estudado meditação. Lá, ela tem o apoio de uma longa tradição. Em tempos longínquos, ela se propagou qual uma explosão na Índia e por toda a Ásia. Essa tradição ainda hoje cativa a mente e a seu respeito se escrevem volumes e mais volumes. Mas, o servir-nos de qualquer forma de tradição, o restolho do passado, para descobrirmos se existe aquela realidade é, sem dúvida nenhuma, um desperdício de esforço. A mente deve estar livre de todas as formas de tradição e de sanções espirituais, do contrário ficaremos totalmente privados da inteligência em sua forma mais elevada.

O que é, então, meditação, se não é o tradicional? E ela não pode ser tradicional, ninguém a pode vos ensinar, não podeis seguir um determinado método e dizer: "Por este método aprenderei o que é meditação". A verdadeira importância da meditação consiste em que a mente se torne completamente quieta; quieta, não só no plano consciente, mas também nos níveis ocultos e secretos, profundos, da consciência; tão quieta, que o pensamento silencia e deixa de divagar. Um dos ensinamentos da meditação tradicional, do método tradicional de que estamos falando, é que o pensamento deve ser controlado. Mas tal ensino deve ser totalmente rejeitado; e, para rejeita-lo, devemos examiná-lo com muita atenção, objetivamente, não emocionalmente.

Ensina a tradição que deveis ter um guru, um instrutor, para vos ajudar a meditar, dizer o que vocês devem fazer. O Ocidente tem sua forma própria de tradição, de oração, contemplação, a confissão. Mas, nesse princípio de que um outro sabe e vocês não sabem, e que o que sabe pode vos ensinar, vos dar a iluminação, nesse mesmo princípio está contida a idéia da autoridade, do mestre, do guru, do Salvador, do Filho de Deus, etc. Eles sabem, e vocês não sabem; eles dizem: "Segue este método, este sistema, pratica-o todos os dias e, no fim, chegarás lá", se tiveres sorte. Isso significa ficar lutando contra vocês mesmos o dia inteiro, tentando vos ajustar a um padrão, a um sistema, procurando reprimir os vossos desejos, os vossos apetites, a vossa inveja, os vossos ciúmes e ambições. E, assim, há o conflito entre o que sois e o que deveríeis ser, de acordo com o sistema; portanto, há esforço. E a mente que se está esforçando, jamais poderá ficar quieta; por meio de esforço, a mente nunca se aquietará de todo.

Ensina também a tradição que deveis concentrar-vos a fim de controlar o pensamento. Concentrar-se significa meramente resistir, erguer um muro em torno de mim mesmo, para se poder focalizar a atenção numa só idéia, princípio, imagem, etc., com exclusão de tudo o mais. A tradição diz que deveis fazer isso para poderdes descobrir qualquer coisa que desejardes descobrir. E diz, também, que deveis abster-vos do sexo, que não deveis olhar para este mundo, como o têm dito todos os santos, indivíduos mais ou menos neuróticos. E se vocês puderem perceber, não apenas verbal e intelectualmente, porém realmente o que está implicado em tais ensinos (e só o percebereis se não estiverdes ligados a eles e portanto, capazes de olha-los objetivamente) podereis então rejeita-los de todo. E é necessário rejeitá-los, porque, nesse próprio ato de rejeitar, a mente se tornará livre e, por conseguinte, inteligente, vigilante, e não estará mais sujeita a enredar-se em ilusões.

Para meditar, no sentido mais profundo da palavra, o indivíduo deve ser virtuoso, moral; não com a moralidade de um padrão, de um uso, ou da ordem social, porém aquela moralidade que vem natural, inevitável, docemente, quando começais a compreender a vós mesmos, quando estáis cônscios de vossos pensamentos, de vossos sentimentos, vossas atividades, apetites, ambições, etc.; cônscios sem nenhuma escolha: observando simplesmente. Dessa observação vem a ação correta, que nada tem em comum com o ajustamento, ou com a ação ditada por um ideal. Então, bem fundo em nós, existe esse estado, com sua beleza e austeridade, sem a mínima partícula de aspereza, porque só há aspereza quando há esforço. Observando todos os sistemas e métodos, com tudo o que prometem, olhando-os objetivamente, sem simpatia nem antipatia, podemos então rejeitá-los conjuntamente, e a nossa mente estará livre do passado. Pode-se então começar a investigar o que é a meditação.

Se não tiverdes lançado a verdadeira base, podeis "meditar" à vontade, mas essa meditação não terá nenhuma significação. Estareis procedendo como aquelas pessoas que vão ao Oriente à procura de um certo mestre que lhes diz como devem sentar-se, como respirar, o que devem fazer, etc., etc., e depois voltam e escrevem um livro. Tudo isso, afinal é um contra-senso. Cada um tem de ser o mestre de si próprio, o discípulo de si próprio, porquanto não há nenhuma autoridade, porém, somente a compreensão.

Só é possível a compreensão quando há observação sem o centro representado pelo "observador". Já observastes, já olhastes, já procurastes averiguar o que é a compreensão? A compreensão não é um processo intelectual, não é intuição ou sentimento. Quando dizemos "compreendo claramente", isto significa que a mente está observando num estado de completa quietude; significa que a mente escuta sem concordar nem discordar, completamente em silêncio, escuta totalmente. Só então há compreensão, e essa compreensão é ação: não há primeiro a compreensão e em seguida a ação: são ambas simultâneas, um só movimento.

Assim, meditação, palavra tão carregada de tradição, significa levar, sem esforço, sem nenhuma espécie de compulsão, a mente e o cérebro ao máximo de capacidade, ou seja: ao mais alto grau de inteligência e de sensibilidade; o cérebro fica quieto, esse repositório do passado, que evoluiu através de milhões de anos e se mantém contínua a incessantemente ativo, esse cérebro permanece quieto.

Pode o cérebro, que está continuamente reagindo aos mais insignificantes estímulos, conforme seu condicionamento, pode ficar quieto? Os tradicionalistas dizem: "É possível torná-lo quieto mediante a respiração adequada, a prática da vigilância". E isso, por sua vez, suscita a pergunta: Quem é a entidade que controla, que pratica, que molda o cérebro? Não é o pensamento quem diz: "Eu sou o observador a vou controlar o cérebro, fazer cessar o pensamento"? O pensamento cria o pensador.

É possível que o cérebro fique completamente quieto? Cabe à meditação descobrir isso; ninguém pode vos ensinar a descobri-lo. Vosso cérebro, que se acha tão condicionado pela cultura, por toda a sorte de experiências e que é o resultado de uma longa evolução, pode tornar-se totalmente quieto? Porque, se isso não acontecer, tudo o que ele for ver ou experimentar será necessariamente desfigurado, traduzido de acordo com o seu condicionamento.

Qual é o papel do sono na meditação, no viver?

Esta é uma questão interessantíssima; se vós mesmos a examinardes, tereis descoberto muita coisa. Como antes dissemos, os sonhos são desnecessários. Dissemos: A mente, o cérebro, deve estar completamente desperto durante o dia, atento a tudo o que está sucedendo exterior e interiormente, cônscio das reações interiores às tensões exteriores; cônscio das mensagens do inconsciente, e depois ao fim o dia, fazer um balanço de tudo, porque se no fim do dia não se fizer esse balanço, o cérebro terá de trabalhar de noite, enquanto dormis, para se pôr em ordem, como é bem obvio.

Se assim fizerdes, quando dormis, aprendereis coisas completamente novas, numa dimensão totalmente diferente; esse aprender faz parte da meditação.

Temos, pois, de lançar a base da conduta em que a ação é amor. Temos de rejeitar todas as tradições para que a mente se torne de todo livre e o cérebro inteiramente quieto. Se considerardes bem esta questão, deveis ter visto que o cérebro pode ficar quieto, sem se recorrer a nenhum artifício, nenhuma droga, porém graças àquele percebimento ativo, e também passivo, no decorrer do dia. E se, no fim do dia, tiverdes feito o balanço de tudo o que sucedeu e, assim estabelecido a ordem, então, durante o sono, o vosso cérebro estará quieto, aprendendo com um diferente movimento.

Assim, o corpo inteiro, o cérebro, tudo estará quieto, não havendo nenhuma espécie de deformação; é só então que, se existe ali alguma realidade, a mente terá possibilidade de recebê-la. Ela não pode ser chamada, essa imensidade; se ela existe, se existe essa coisa sem nome, transcendental, se essa coisa existe, só a mente que se acha naquele estado será capaz de vê-la.

Direis, porventura: "Que relação tem tudo isso com o viver? Eu tenho de viver esta vida de todos os dias, freqüentar o escritório, lavar pratos, viajar em ônibus superlotados, cercado de barulho; que tem que ver a meditação com tudo isso?" Ora, considerando bem, meditação é a compreensão da vida, da existência diária, com todas as suas complexidades, aflições, sofrimentos, solidão, desespero, ânsia de fama e sucesso, medo, inveja; compreender tudo isso é meditação. Sem essa compreensão, o mero esforço para descobrir o "mistério" é totalmente vão, sem nenhum valor. É a mesma coisa que, numa vida confusa, uma mente em desordem querer achar a ordem matemática. A meditação tem tudo a ver com a vida; não é nos abandonarmos a um certo estado extático, emocional. Há uma qualidade de êxtase que não é prazer; só vem esse êxtase quando existe em nós mesmos aquela ordem matemática, que é absoluta; A meditação é o caminho da vida; só com ela pode surgir, em nossa existência, o imperecível, o eterno.

 

 


Pergunta: Quem é o observador que está cônscio de suas próprias reações? Qual a energia necessária?

Krishnamurti: Já olharam alguma coisa sem nenhuma reação? Já olharan uma árvore, um rosto de mulher, uma montanha, uma nuvem, a luz refletida na água, já olharam tais coisas simplesmente, sem traduzi-Ias em gosto ou desgosto, prazer ou dor, observando-as, tão-só? Nessa observação em que estamos completamente atentos existe algum observador? Experimente! Não me pergunte nada. Faça, descobrirá o que deseja descobrir. Observe as suas reações, sem as julgar, avaliar, deformar, prestando toda atenção a cada reação. Com essa atenção verá que não existe absolutamente observador, nem pensador, nem experimentador.

Agora, quanto à segunda parte da pergunta, para modificarmos qualquer coisa em nós mesmos, operarmos uma transformação, uma revolução na psique, qual a energia necessária Como adquirir essa energia? Temos agora energia, mas energia gerada pela tensão, pela contradição, pelo conflito; há energia na batalha entre dois desejos, entre o que "devo" e o que "deveria" fazer, tudo isso consome energia em grandes quantidades. Mas, quando não há nenhuma contradição, temos uma enorme riqueza de energia. Olhe sua própria vida, olhe de fato; ela é uma contradição: deseja ser pacífico e detesta tal ou tal pessoa; deseja amar e é ambicioso. Essa contradição gera conflito, luta; essa luta desperdiça energia. Se não há contradição de espécie alguma, tereis a energia suprema de que necessitais para vos transformardes. Pergunta-se: "Como é possível não haver nenhuma contradição entre o "observador" e "coisa observada", entre o "experimentador" e a "experiência", entre o amor e ódio"? Como é possível viver sem essas dualidades? É possível sim, quando só existe o fato e nada mais: o fato que odiais, que sois violento, e não o seu oposto, como idéia. Quando vocês têm medo, desenvolem o oposto, a coragem, do que redunda resistência, contradição, esforço e tensão. Mas, quando compreendem cabalmente o que é o medo e não fugem para o seu oposto, quando aplicam toda a vossa atenção ao medo, então, psicologicamente, ou o medo cessa ou tendes a energia necessária para enfrentá-lo. Diz o tradicionalista: "Tendes de adquirir essa energia; por conseguinte, não sejais sexual, não sejais mundano, concentrai-vos, fixai vossa mente em Deus, abandonai o mundo, não vos deixeis cair em tentação", tudo isso com o fim de adquirir aquela energia. Mas a pessoa continua a ser um ente humano cheio de apetites, de ardores sexuais, biológicos; quer fazer o que lhe manda o tradicionalista, controlando-se, forçando-se, etc., e, conseqüentemente, desperdiçando energia. Mas, se "viverdes com o fato" e nada mais, se tendes cólera, compreendendo-a, e não seguindo um "método de não se encolerizar"; examinando-a, "ficando com ela", "com ela vivendo", dispensando-lhe toda a atenção, vereis que tereis aquela energia em abundância. É essa a energia que conserva clara a mente, aberto o coração, havendo assim grande riqueza de amor, e não idéias, nem sentimentos.

 

Pergunta: O que o Sr. entende por "êxtase"? Pode descrevê-lo? Disse que o êxtase não é prazer, que o amor não é prazer.

Krishnamurti: O que é o êxtase? Ao olharem uma nuvem, sua luminosidade, há beleza. Beleza é paixão. Para se ver a beleza de uma nuvem, de uma árvore banhada de luz, necessita-se de paixão, de "intensidade".

Nessa intensidade, nessa paixão, não há sentimento nenhum, não há "gostar" e "não gostar". O êxtase não é pessoal; não é vosso nem meu, assim como o amor não é vosso nem meu. Quando há prazer, é vosso prazer ou o meu. Quando existe aquela mente, "a mente em meditação", ela tem o seu êxtase próprio, verbalmente indescritível.

 

Pergunta: O Sr. disse que não há nem bom, nem mau, e que todas as reações são boas?

Krishnamurti: Não, eu não disse tal. O que eu disse foi: Observai a vossa reação, não a chamem de boa nem de má. Se a chamarem boa ou má, criais a contradição. Já olharam vossa mulher sem a imagem que tendes a respeito dela, a imagem que formaram no decurso de uns trinta anos? Vocês têm uma imagem dela, e ela tem uma imagem de vocês. Essas imagens é que estão em relação; você e ela não se encontram em relação. Essas imagens se tornam existentes quando não prestam atenção às vossas relações; é essa desatenção que cria as imagens. Vocês podem olhar as suas mulheres sem as condenar, nem avaliarem, sem dizerem que ela "tem razão" ou "não tem razão"; observá-la apenas, sem intrometer vossos preconceitos? Verão que há então uma ação de natureza inteiramente diferente, nascida dessa observação.

 

 

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