Prólogo

Will Durant

 

In A História da Filosofia,

Companhia Editora Nacional

1959.

 

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Os conhecimentos humanos tornaram-se vastíssimos; cada ciência gerou uma dúzia de ciências novas; o telescópio revelou estrelas e sistemas que o homem não pode enumerar, nem denominar; a geologia passou de milhares de anos a milhões; a física encontrou no átomo todo um universo, e a biologia descobriu na célula um microcosmos; a fisiologia revelou mistérios infinitos em cada órgão, e a psicologia, em cada sonho; a antropologia reconstituiu a insuspeitada antiguidade do homem; a arqueologia desenterrou ruínas de cidades; a história provou que toda a história é falsa e esboçou uma tela onde unicamente um Spengler ou um Edward Meyer podem ter visão de conjunto; a teologia desmoronou; os credos políticos esboroaram-se; a invenção complicou a vida e a guerra; as teorias econômicas derrubaram governos e inflamaram o mundo; a própria filosofia, que sempre recorrera a todas as ciências para dar uma imagem aceitável do mundo e uma atrativa concepção do Bem, verificou que a sua tarefa coordenadora era maior que a sua coragem, fugiu de todos os "fronts" da verdade e ocultou-se em desvãos abrigados, timidamente a seguro das responsabilidades da vida. O conhecimento humano tornou-se muito grande para a mente humana.

O que ficou foi o especialista científico que "conhece cada vez mais a respeito de menos"; e também o especulador filosófico que sabe cada vez menos a respeito de mais e mais. O especialista armou-se de viseiras para restringir o campo de visão; some-se o mundo para que fique um pontinho só a esmiuçar. Perdeu-se a perspectiva. "Fatos" substituíram a compreensão; e o conhecimento, cindido em mil partes isoladas, não mais deu como resultado Sabedoria. Cada ciência e cada ramo da filosofia geraram uma terminologia técnica apenas acessível para os iniciados; quanto mais o homem aprendia sobre o mundo menos se achava apto a exprimir aos outros a coisa que tinha aprendido. O hiato entre a vida e o conhecimento foi-se alargando cada vez mais; os que governavam não podiam entender os que pensavam e os que queriam saber não podiam entender os que sabiam. No meio de uma erudição sem precedentes, a ignorância popular florescia; ao lado das ciências entronizadas e financiadas como nunca o foram, novas religiões vinham a furo e velhas superstições reconquistaram o terreno perdido. O homem comum via-se forçado a escolher entre um sacerdócio científico que resmoneava ininteligível pessimismo e um sacerdócio teológico que acenava com esperanças incríveis.

Numa situação destas a função do mestre profissional fez-se clara. Tinha de ser o intermediário entre o especialista e o povo, tinha de aprender a linguagem do especialista, como este aprendia a linguagem da natureza, e desse modo romper as barreiras erguidas entre o conhecimento e a necessidade de aprender, descobrindo meios de expressar verdades em termos velhos que toda a gente entendesse. Isso porquê se o conhecimento se desenvolve demais a ponto de perder o contacto com o homem comum degenera em escolástica e na imposição do magister; o gênero humano encaminhar-se-ia para uma nova era de fé, adoração e distanciamento respeitoso dos novos sacerdotes; e a civilização, que desejava erguer-se sobre uma larga disseminação da cultura, ficaria, precariamente baseada sobre uma erudição técnica, monopólio duma classe fechada e monasticamente separada do mundo pelo orgulho aristocrático da terminologia.

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Will Durant (1885 – 1981) é o autor de A História da Filosofia e da monumental A História da Civilização, esta em co-autoria com a sua mulher, Ariel Durant.

Numa época em que os filósofos e os historiadores profissionais parecem mais preocupados com a reinvenção de conceitos e a auto-admiração do que com a educação da sociedade e a divulgação do saber, a obra dos Durants é uma referência preciosa e prova de que a erudição está muito longe de ser sinônimo de obscuridade e aridez.

 

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