ALCORÃO

 

 

Numa dessas revistas1, cujo maior destino será a mesinha de alguma sala de espera, encontrei a página com esta figura:

 

 

e numa nota na página ao lado, estas linhas à guisa de tradução:

 

"Meu Deus, faze com

que eu comece bem e

acabe bem, e sê meu

apoio e meu aliado.

versículo do Alcorão"

 

Volto à figura, à procura dessas pobres palavras, e vou percebendo que há mais coisas ali do que essa prece podia conter. Vou percebendo que foi um poeta erudito e um hábil artista quem delineou aqueles caracteres.

Escrita com as mesmas letras, pode-se ler claramente a nau, e as justas tábuas do seu costado; pode-se ver e quase ouvir o esforço, e o infinito ritmo dos remos, e os remadores; pode-se ver o longo timão, e o timoneiro.

Pode-se ver que a disposição dos caracteres, e os seus "arabescos", contam mais do que umas singelas palavras podiam dizer (seria a glória de qualquer desenhador de logotipos, ou poeta concretista, compreender, em tal extensão e profundidade, a vastidão da língua falada, da língua escrita, da língua pensada).

Então, por quê não poderíamos, com atenção, perceber que aqui não está a súplica egoísta de um indivíduo assustado, mas o sonho infinito dos tantos navegantes que esta imensa nave abarca?

 

Navega conosco, Allah,

nesta viagem

e leva-nos por mar sereno

ao porto do Teu amparo.

(versículo do Corão)

 

P.S.:

Também se vê, à esquerda, a assinatura ou o nome do autor desse monumental caligrama?2  Quem seria ele? Com quem conversava? Quais estrelas e qual lua ele olhava? Talvez fossem as mesmas daquele outro que andou perguntando:

Que voz vem no som das ondas

Que não é a voz do mar?3

 

Alfredo Braga


Notas:

1 Revista Veja (suplemento) Retrospectiva de um quarto de século, 27/10/93, pp.72 e 73.

2 Transcrevo a explicação que Michel Foucault dá sobre a natureza e a estrutura do caligrama, em Isto não é um cachimbo, Editora Paz e Terra S/A, Rio de Janeiro, pp. 22, 23 e 24:

Em sua tradição milenar, o caligrama tem um tríplice papel: compensar o alfabeto; repetir sem o recurso da retórica; prender as coisas na armadilha de uma dupla grafia. Ele aproxima, primeiramente, do modo mais próximo um do outro o texto e a figura, compõe com linhas que delimitam a forma do objeto juntamente com aquelas que dispõem a sucessão das letras; aloja os enunciados no espaço da figura, e faz dizer ao texto aquilo que o desenho representa. De um lado, alfabetiza o ideograma, povoa-o com letras descontínuas e faz assim falar o mutismo das linhas interrompidas. Mas, inversamente, reparte a escrita num espaço que não tem mais a indiferença, a abertura e a alvura inertes do papel; impõe-lhe que se distribua segundo as leis de uma forma simultânea. Reduz o fonetismo a não ser, para o olhar de um instante, senão um rumor acinzentado que completa os contornos de uma figura; mas faz do desenho o fino envoltório que é necessário traspassar para seguir, de palavra em palavra, o esvaziamento do seu texto intestino.

O caligrama é, portanto, tautologia. Mas no oposto da retórica. Esta emprega a pletora da linguagem, serve-se da possibilidade de dizer duas coisas com palavras diferentes; usufrui da sobrecarga de riqueza que permite dizer duas coisas diferentes com uma única e mesma palavra; a essência da retórica está na alegoria. O caligrama, quanto a ele, se serve dessa propriedade das letras que consiste em valer ao mesmo tempo como elementos lineares que se pode dispor no espaço e como sinais que se deve desen­rolar segundo o encadeamento único da substância sonora. Sinal, a letra permite fixar as palavras; linha, ela permite figurar a coisa. Assim, o caligrama pretende apagar ludicamente as mais velhas oposições de nossa civilização alfabética: mostrar e nomear; figurar e dizer; reproduzir e articular; imitar e significar; olhar e ler.

Acuando duas vezes a coisa de que fala, ele lhe prepara a mais perfeita armadilha. Por sua dupla entrada, garante essa captura, da qual não são capazes o discurso por si só ou o puro desenho. Conjura a invencível ausência da qual as palavras são incapazes de triunfar, impondo-lhes, pelas astúcias de uma escrita que joga no espaço, a forma visível de sua referência: sabiamente dispostos sobre a folha de papel, os signos invocam, do exterior, pela margem que desenham, pelo recorte de sua massa no espaço vazio da página, a própria coisa de que falam. E, em retorno, a forma visível é cavada pela escrita, arada pelas palavras que agem sobre ela do interior e, conjurando a presença imóvel, ambígua, sem nome, fa­zem emergir a rede de significações que a batizam, a determinam, a fixam no universo dos discursos. Duplo alçapão; armadilha inevitável: por onde escapariam, daqui para a frente, o vôo dos pássaros, a forma transitória das flores, a chuva que escorre?

3 Fernando Pessoa, Mensagem, As ilhas afortunadas, Difel S.A., São Paulo, p. 67.

 

 

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