Um multiartista à procura de uma tese

Alfredo Braga

junho de 2001

"Me pergunto se tudo isso refletiu na vida das pessoas, mas aí vai ser a minha opinião..., acho que tudo isso vai dar uma tese."

Hélio Leites1

 

A INVENÇÃO DA ARTE

Freqüentemente nos vemos envolvidos em vagas e confusas querelas sobre algumas manifestações artísticas que vão surgindo e que são vagamente catalogadas, ou justificadas, como outros "gêneros" da arte.

Ainda agora percebemos os dispersos ecos de velhas classificações como "belas artes" e "artes menores", as quais a Escola Bauhaus, já em 1919, soube extirpar da sua nomenclatura (como se sabe, e quase nos esquecemos, nas décadas de 50/60, as obras de alguns artistas que escolheram a tapeçaria, a cerâmica, ou a gravura, como meio de expressão, eram acolhidas, ao lado da grande pintura e da escultura, nas bienais internacionais e nas galerias maiores). Parecia que essa infrutífera discussão estava esvaziada mas, continua, persiste...

 

Em 1966 Marcel Duchamp nos ofereceu a mais límpida e irrepreensível definição de arte que até hoje podemos encontrar2: "Arte é aquilo que o artista diz que é arte." E mais: "Arte é o que a posteridade diz que é arte." Duas afirmações inquestionáveis, que se completam, mas que não prescindem da advertência que, logo a seguir, ele próprio faz: "Mas existe a arte de qualidade, e a outra...". Hoje, seguindo esse raciocínio, podemos dizer que as posteridades, assim como os artistas, também têm as suas veleidades, os seus erros e os seus acertos e, portanto, nem sempre aquela arte que hoje é venerada e catalogada nos Museus, ou nas coleções, é arte de qualidade. Está aí a História imediata – em pouco mais de uma década – a nos contar com muita claridade, como essas opiniões se sucedem; por exemplo, as recentes questões sobre a genialidade, ou sobre a simples falta de qualidade em Basquiat3 e, decorrentemente, nas aflitas hordas de seus oportunistas e insistentes "discípulos", nos anos 80/90.

Existe Arte; e quando é bem feita, se é eficiente, ótimo para o artista, e melhor para nós, e para a nossa posteridade; se não é, obviamente não é; e não importa a que "gênero", ou "estilo" pretenda, ou postule pertencer.

Não é o rótulo que está em discussão.

 

Foi a partir da década de 70, na Feira Hippie (depois pasteurizada e assimilada como Feira de Artesanato) que pessoas como a Efigênia4, passaram a ser notadas por jovens fotógrafos e jornalistas ávidos por "descobrir", registrar, e apadrinhar artistas-populares-urbanos ainda "desconhecidos". Pouco antes, aquelas pessoas eram vistas como excêntricas, inconvenientes, ou apenas loucas, e que aos domingos as famílias, levemente incomodadas, observavam de longe, e se afastavam. Agora, como se fez em Paris, ou em Nova York, são tema para "ensaios fotográficos" e "teses acadêmicas".

Curitiba, até hoje, dolorosamente procura se redimir do pecado original da sua tênue sensibilidade para com o trabalho de vários de seus artistas; por exemplo, o quase maldito Miguel Bakum em sua solidão (e que muitos anos depois da sua morte, já na década de 1990, foi postumamente homenageado com uma sala em um dos muitos museus da cidade mas, logo depois, foi esquisitamente "desomenageado"... e aquela pequena sala da Casa Andrade Muricy, já não ostenta o seu nome) ou Nilo Previdi em seu absurdo atelier nos porões da EMBAP, e outros, mais comportados, como Rosa, ou Mário Rubinski; e no âmbito dos chamados "espontâneos", vamos nos lembrar daquele triste e incrível Senhor Benamy, nas décadas de 60/70, com os seus inoportunos apartes em palestras e discussões sobre arte, na Casa de Alfredo Andersen, ou na Biblioteca Pública, com os seus estranhos desenhos e a sua espantosa e quixotesca Máquina Para Fazer Desenhos Animados (admirável maquinaria minuciosamente inventada com manivelas de cabo de vassoura, cordas e pequenas tábuas de caixas de maçãs). Aonde foi parar essa belíssima Máquina? em que Museu ela está perdida? e em quais escrupulosos Catálogos ela foi esquecida?

Como outras grandes capitais, Curitiba precisava ter os seus artistas populares bem catalogados, e os repórteres da Boca Maldita e editores dos Cadernos Especiais não se fizeram de rogados, e lá se foram, antes dos críticos de arte, a escrever laudas e laudas sobre o novo assunto. Filósofos-de-rua, poetas-alternativos, clowns-malabaristas et coetera, eram garimpados e disputados para o consumo da recém-desperta sensibilidade da cidade que ia tomando ares de metrópole (mas ainda se intitulava Cidade Sorriso); era a cidade com a maior percentagem de estudantes universitários, a cidade na qual setenta por cento das famílias morava em casa própria; era a cidade de Dalton Trevisan, Paulo Leminski, Valêncio Xavier, e de Jaime Lerner: O Centro de Criatividade, O Vampiro de Curitiba, O Catatáu, O Mês da Gripe, Poty Lazarotto ilustrando a cidade, e a cidade se modernizava, se expandia, iluminava e descobria a noite, estrelas, obscuros cometas.

 

A INVENÇÃO DE HÉLIO LEITES

"[............] Moderníssimo, fundindo gesto e performance com o emprego de material reles (perdão meus botões!) e 'mail-art', Lete (e a Assintão) vai conduzindo uma das experiências criativas mais importantes que tenho visto por aí, bem mais instigante e original que muitas vernissages de artes plásticas que não vão além do simples artesanato (ou industrianato, em muitos casos...)."5

Paulo Leminski

 

Neste texto, Hélio Leite é enaltecido pelo avesso: O superlativo e indefinido elogio "moderníssimo", e a estratégica comparação, apenas o eleva um degrau depois da mediocridade e da falta de qualidade denunciadas por Leminski: "..., bem mais instigante e original que muitas vernissages de artes plásticas ....". O autor do texto, o irônico "inventor" de Hélio Leites (ou Letes, ou Lete) preocupa-se com a superficialidade intelectual e com a pobreza de idéias na cidade; valeu-se, com propriedade, daquela simpática figura muito bem paramentada, coberta de botões e de torrenciais e tolos trocadilhos para, com o seu hiperbólico elogio, fustigar os "artistas sérios", aqueles que deviam, por ofício e formação, continuar a arte.

Mas não era esse o único alvo de Leminski quando, em algum bar da cidade, acolheu aquela divertida e entusiástica prateleira de armarinho falante. O subtítulo (Mind Games) do seu artigo, adverte outras pistas e outro interessante jogo que havia sido jogado por Henry James (James-Games, já agora se pode dizer6) e também por Borges7.

O artigo, Hélio Letes, significador de Insignificâncias, publicado em março de 1986, começa em tom de ensaio, sugerindo a intenção de explicar rapidamente o que é a arte deste século e os novos experimentos e atitudes conceituais: "Hoje, (sic) admiti-se, qualquer material pode servir de suporte para a experiência artística ou de veículo para a expressão."; e assim, não muito sutilmente, vai iluminando o palco para a entrada de Leites, até que: "É da fusão de duas características da arte do século XX que nasce a original experiência de Hélio Lete, a Botanica (não confundir com Botânica), a arteciência dos botões. O gesto (a performance) e o uso de materiais reles."... e segue, a descrever a proposta do artista, a sua gentileza, a sua rara sagacidade "zen" em ver e mostrar, já iluminado, o que mais ninguém percebe, com os seus ensaiados chistes e esforçados jogos de palavras... Enfim, Leminski termina o artigo desfraldando uma engraçada e irônica profecia: "Ontem, o botão. Hoje, o assobio. Amanhã, o mundo.". Logo depois desse retumbante ponto final, foi lançado o monótono jogo, e a bem sucedida carreira do multiartista Leites.

O dia 29 de março de 1986 é o marco e a fronteira entre dois tempos do jornalismo e da "crítica de arte" em Curitiba. De lá para cá, Hélio Leites passa a ser verbete em dicionários de arte, objeto de vastos ensaios em jornais especializados, personagem e protagonista de entrevistas, comentários, reportagens nos mais diversos veículos de comunicação, pesquisas universitárias et cœtera. Agora, e apesar de Nelson Rodrigues, Leites é uma grande unanimidade em certos "ambientes cultos" da capital do Paraná. Hoje podemos ver o resultado da sofisticação de Leminski, e também o da leveza do seu jogo:

 

MIND GAMES

 

Obviamente decorrente do insinuante texto de Paulo Leminski, logo a seguir, o mesmo Correio de Notícias estampava mais outro sobre Hélio Leites, com o título em página inteira, Um personagem de Cortázar?8, já sustentando e confirmando a profecia de quem conhece bem a sua cidade: "Ontem, o botão. Hoje, o assobio. Amanhã, o mundo."; e a autora, subitamente – como era esperado – e como se "o mundo" não lhe bastasse, introduz o histriônico artista Leites no rigoroso Universo dos argentinos Júlio Cortázar e Jorge Luis Borges.

Eis Hélio Leites naquela entrevista: "— Por que botão? E por que não? O ser humano é muito limitado, é preciso abrir as cabeças. Por que não um texto literário sobre a fronha, as agulhas de tricô e as alças? Já escrevi sobre Borges e o botão..."; e Rosirene Gemael termina a sua reportagem assim: "...... Pra mim ele é um personagem de Cortázar que faz o realismo mágico trombar com a gente no meio da rua à noite, numa esquina ou num bar, depois de ter passado parte do dia, comportado fingindo que é bancário."

A partir daí, e até hoje, nos deparamos com inúmeros textos sobre o artista, todos a repetir, com variações mínimas de estilo, ou de enfoque, sempre as mesmas coisas. Mais de dez anos passados, e ainda encontramos comentários como este: "Performer máximo [de] Hélio Leites é perito em criar excentricidades. Entre elas destacam-se a Igreja da Graça e o Museu do Botão. Suas obras, subitamente geniais, são conhecidas do Oiapoque ao Chuí."9.

E sobre as "influências confessas" que Leite recebeu de Paulo Leminski, Adélia Prado, Haroldo de Campos e de Jorge Luis Borges, o artista comenta no jornal: "As pessoas me questionam por eu não ter lido tudo de Borges... basta eu ler uma página para me influenciar... Conversou comigo, me influenciou...". Eis as sutis e indeléveis marcas dessas influências nestes versos de sua autoria (do poema Poça, na íntegra e em página inteira, ao final da entrevista):

 

poesia pra mim é assim

esse lado de ser humano

pra Deus eu faço um interurbano

a cobrar

 

o último que eu fiz

eu estava até feliz

estava parado no ponto do ônibus

o ônibus esperando

 

 

Enfim, como quando desce o pano, agora é o próprio Leites que encerra a entrevista, com certos e compreensíveis pruridos, mas sem falsa modéstia, com uma indecisa, ou ensaiada, nostalgia, talvez pensando, vagamente, sobre Bispo do Rosário, ou Marcel Duchamp:

"Me pergunto se tudo isso refletiu na vida das pessoas, mas aí vai ser a minha opinião..., acho que tudo isso vai dar uma tese."

 


NOTAS:

1 LEITES, Hélio – José Hélio Silveira Leite – 1951, Lapa, PR – Pintor, escultor, artista performático, poeta e, segundo a historiadora e crítica de arte Adalice Araújo, o anarquiteto do sonho.

2 in Marcel Duchap – O Engenheiro do Tempo Perdido, Pierre Cabanne, Perspectiva, São Paulo, 1977.

3 Jean Michel Basquiat, Flávia Rocha, in Revista Bravo, Nº. 9, pp 82 – 87, junho de 1998.

4 Efigênia Rainha do Papel, 56º Salão Paranaense, 1999.

5 Parágrafo do texto de Paulo Leminski, Hélio Letes, Significador de Insignificâncias, Correio de Notícias, 29 de março de 1986. Neste irônico artigo, Leminski talvez estivesse se referindo ao pintor Érico da Silva e à sua produção semi-industrial de "pinheiros ao entardecer", ou aos milhares de "marinhas" à la Panceti de uns artistas curitibanos desde então muito bem estabelecidos no ramo de pinturas a óleo.

6 Henry James, O Desenho do Tapete, in A Morte do Leão – Histórias de Artistas e Escritores, Companhia das Letras, Schwarcz, São Paulo,1993.

7 Em meu texto, O Enredo, comento essa pequena trama de Jorge Luis Borges, iniciada em seu fantástico Prólogo ao O Informe de Brodie.

8 Texto de Rosirene Gemael, Correio de Notícias, Curitiba, 30 de maio de 1986.

9 Chamada para o texto de Jane Sprenger Bodnar, O Senhor das Miniaturas (uma alusão ao título do livro de Luciana Hidalgo, Artur Bispo do Rosário – O Senhor do Labirinto?) in Anexo, suplemento de A NOTÍCIA, Joinville, 21 de janeiro de1997.

 


BIBLIOGRAFIA:

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BORGES, Jorge Luis. Obras completas. São Paulo, Globo, 1998.

BUENO, Wilson. Hélio Leites, os exageros do mínimo. Impresso da fundação cultural de Curitiba, Curitiba, ago.,  1994.

______, Wilson. O teatro mínimo do palhaço inventor. A Notícia, caderno Anexo, Joinville, p. 2, out., 1999.

BOTÃO: o último graal. Nicolau, Curitiba, n. 25, p. 21.

BRAGA, Alfredo. O enredo.

CABANNE, Pierre. Marcel Duchamp: engenheiro do tempo perdido. São Paulo, Perspectiva, 1997.

ECO, Umberto. Obra aberta. São Paulo, Perspectiva, 1988.

____, Umberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo, Perspectiva, 1987.

____, Umberto. Sobre os espelhos. São Paulo, Nova Fronteira, 1989.

EFIGÊNIA Rainha do Papel, in Catálogo do 56º Salão Paranaense, Curitiba, Museu de Arte Contemporânea, Secretaria de Estado da Cultura, PR, 1999.

FREITAS, Artur. Corina Ferraz e a questão naif. In A Fonte 2000.

GEMAEL, Rosirene. Um personagem de Cortázar? Correio de Notícias, Curitiba, maio, 1986.

HIDALGO, Luciana. Arthur Bispo do Rosário, o senhor do labirinto. Rio de Janeiro, Rocco, 1996.

JAMES, Henry. A morte do leão. São Paulo, Companhia das Letras, 1993.

Leites. In: AYALA, Walmir. Dicionário de pintores brasileiros. Curitiba, UFPR, 1997.

LEITES, Hélio. A importância do insignificante. Entrevista concedida à Gazeta do Povo, Curitiba, Suplemento Viverbem, out., 1990.

LEMINSKI, Paulo. Hélio Lete, o significador de insignificâncias. Correio de Notícias, Curitiba, mar., 1986.

LOPES, Adélia Maria. Pequenas e insólitas barbaridades. O Estado do Paraná, Almanaque, Curitiba, ago., 1994.

MILLARCH, Aramis. Botoneiro Hélio, cheio de graça, imortal alternativo. O Estado do Paraná, Almanaque, Curitiba, ago., 1991.

MINIATURAS de Hélio invadem museu. Gazeta do Povo, Caderno G, Curitiba, p. 1, ago., 1994.

MUSEU do botão comemora seis anos de irreverência. O Estado do Paraná, Curitiba, jan., 1990.

ROCHA, Flávia. Jean Michel Basquiat. Bravo!, São Paulo, Luiz Felipe D'avila, n. 9, p. 83 a 87, jun., 1998.

TOLENTINO, Bruno. Berimbau de barbante. Bravo!, São Paulo, Luiz Filipe D'avila, n. 23, p. 45, ago., 1999.

 

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