As novas catedrais

 

Alfredo Braga

1974

 

Com o surgimento dos grandes aglomerados habitacionais, as grandes cidades, influentes centros de troca de mercadorias e de idéias, o poder pressentiu a necessidade de uma espécie de vitrina onde pudesse expor, com maior realce e de forma atrativa, o seu discurso e as suas conveniências; foi quando apareceram as grandes, suntuosas, luxuosas catedrais. Ali eram oferecidos, entre luzes e penumbras, ouros e brilhos celestiais, a paz, o amor, a tranqüilidade, a segurança, e outros sentimentos de equilíbrio; o instituto da confissão era outro meio de que esse poder se valia para ter melhor controle sobre os pequeninos indivíduos e os grupos dessa sociedade: os movimentos mais íntimos e escondidos das angústias humanas eram detectados e esmiuçados com a devida antecedência, e o possível inconveniente de surgimento de um elemento anti-social era dessa forma afastado; senão – assim afirmam rancorosas pessoas – ainda podiam recorrer à fogueira: o último argumento.

Nos dias de feira, na praça principal, um novo personagem surgia por entre os mercadores de várias partes do mundo: o banqueiro. Era o homem que em sua pequena banca, armada num pequeno e discreto canto, resolvia o problema da troca dos luízes pelas libras, dos escudos pelos francos. Era uma função modesta e aparentemente honesta; nenhum cardeal jamais ia supor que aquele homenzinho sentado no seu banco de pau ia ser o novo Senhor do Mundo e dos Homens e de suas pequenas almas susceptíveis. Depois, até os reis recorriam a ele para financiar os seus luxos, e os seus exércitos. Já eram os donos, mas ainda mantinham um certo recato e não alardeavam o seu poder; as suas lojas ainda eram humildes, simples, e já não se construíam grandes catedrais. A antiga classe dominante começava a se recolher a um plano mais discreto, mas aquele homem do banco de pau lembrava-se muito bem do fascínio que o luxo exerce sobre os homens, assim como o brilho de um caco fascina o simples, e a fachada da sua loja já apresentava uma sólida tabuleta: BANCO. Os seus balcões de madeira foram trocados por outros de mármore, os cristais iluminavam os seus salões, e era numa atmosfera de catedral que homens angustiados iam à procura da segurança, da paz, da tranqüilidade que ele oferecia através do Crédito, a nova Hóstia do novo Senhor: Mereçam o Crédito e sejam felizes ad infinitum, per omnia secula seculorum. E os confessores? Eles funcionavam muito bem; é preciso manter essa adequada instituição; quem melhor do que uns psiquiatras, uns certos psicólogos, ou assistentes sociais para preencher essa função? Agora estão nas fábricas, nas prisões, nas escolas, nas revistas, nas televisões: "Como está se sentindo? Conte-me tudo."

Et cetera et cetera et cetera.

 

 

contato   biblioteca   discussões   digressões   ensaios   rubaiyat   contos   textos   poemas   conexões   ao cubo