O ENREDO

 

Alfredo Braga

1994

 

— Numa adivinhação cujo tema é o xadrez, qual é a única palavra proibida?

J.L.Borges: O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam.

 

 

Há alguns anos, um certo "Ensaio Introdutório" incrustado como uma lapa no meu livro de Jorge Luis Borges, vinha me incomodando mais do que devia: afinal, a qualidade de Borges nada sofreu com aquela espécie de parasita intelectual que, sem vida própria, por ali se instalara. A obra, O Informe de Brodie, numa edição da Editora Globo (Porto Alegre, 1976) nem de leve fora prejudicada, mas aquele caro objeto que me pertence, feito de uma capa e folhas de papel impressas, o "meu" livro de Borges, porquê havia de carregar para sempre aquele lastimável apêndice?

Numa noite daquelas que ficamos vagando por falta de sono, ia revendo e ordenando os meus poucos livros na estante do meu quarto, quando apanhei O Informe de Brodie. E lá estava outra vez – como devia estar – A Literatura, um Sonho Dirigido1, por Regina Zilberman e Maria da Glória Bordini. Mas agora, sem me preocupar com a modéstia que nos pede sobriedade ao lidar com o trabalho dos outros, ou com os sentimentos de bondade e complacência, o que deveria ser um hábito, vou fazer os comentários que não me saíam da garganta:

As conjecturas universitárias de Zilberman & Bordini – é assim que o nome delas aparece a cada página do ensaio – mostram que as autoras foram boas alunas e aprenderam as regras de como se fazer mais um daqueles árduos trabalhos escolares de fim de semestre. Mas a intromissão de algum texto, nas primeiras páginas de um livro como o de Borges, não como prólogo freqüentemente desnecessário, mas como impertinente e presunçoso "ensaio introdutório", demonstra o ladino oportunismo das autoras, ou a enorme tolice do editor, e não a qualidade ou a sensibilidade de um professor ou crítico que pretenda estender, ou aprofundar a leitura de uma obra.

O trabalho, vamos chamá-lo assim, tem a forma de um manual de instruções para vendedores de enciclopédias, enriquecido metodologicamente por a), b), c), 1), 2), 3), [d], e/ou, e até 60%, e adornado com palavras como (sic) verismo (por verossimilhança, ou plausibilidade) outrossim, metaforizar, mesmidade, esteticizante, desemboca, literaridade, e uma pitada final da intimidade das autoras com o latim: a ars narrandi borgiana. Não lhe falta nada para ser um rol completo daquelas inutilidades que somente referem o óbvio de forma obscura e complicada, mas, quando é preciso ir além do enunciado, apresenta coisas como estas:

"Este conservadorismo confesso tem, entretanto, seus contornos próprios: considera-o uma forma de ceticismo, mas encerra nele uma crença futurológica ("Acredito que com o passar do tempo mereceremos que não existam governos"), de conotações moralistas, pois a passagem a essa utopia comporta um merecimento."

Afora o "conservadorismo confesso", as "conotações moralistas" e a incrível "crença futurológica" (que vocabulário é esse?) as autoras não puderam reparar que Borges aludia, e lhe acrescentava um toque de inteligência, com o seu amargo humor e educada ironia, àquela frase famosa e cretina: "Cada povo tem o governo que merece". Na frase famosa sim, há um moralismo rançoso, mesquinho, vingativo; na outra, a que tem a mão de Borges, atua uma outra desinência; é nítida a sugestão de resgate da capacidade crítica pela inteligência, não o castigo, ou o prêmio, ou prece lamuriosa, ou a contrição do pecado de não percorrer esta ou aquela linha de opiniões, mas o desígnio e o trabalho para que haja pensamento. Quem leu O Informe de Brodie, leu também o seu Prólogo e, na página sete, linha dezenove, encontra esta frase: "Por incrível que pareça, há pessoas escrupulosas que exercem o policiamento das pequenas distrações". Mas as autoras, no decorrer do ensaio introdutório, permaneceram distraídas à procura de miudezas, e se esqueceram de ler Borges enquanto arrolavam as supostas contradições ideológicas do autor e se ele é ou não é um escritor conservador ou um escritor de vanguarda. Elas tampouco leram, ou não lhe sentiram a importância, a frase que está na página seis do Prólogo: "Esta minha já avançada idade me ensinou a resignação de ser Borges."

Zilberman & Bordini, como boas universitárias, no seu aflito afã por serem as descobridoras da "chave fantástica" com que Borges diz que duas das suas narrativas se aproximam, chegam a contar três narrativas, como se duas, as que o próprio autor alegou, não lhes bastassem para amealhar os almejados créditos, e lá se foram a arrolar inferências despropositadas e ilações raquíticas e razões tão distantes de qualquer análise de conteúdo, ou de forma, como estas que enumeraram, agora parcamente, de um a três, mas que estão repetidas, ipsis verbis, candidamente, em outras partes do "ensaio":

"1) Existe a preocupação de fixar a fonte, segundo o procedimento habitual em Borges."

O que encerra essa profunda afirmação? Que conteúdos secretos ou fantásticos ela envolve? Quase podemos pressentir que quando Borges se afasta ou se aproxima do seu "procedimento habitual" – não importa o que isso venha a significar – iremos nos deparar com alguma chave fantástica. E a palavra fonte? Não estou bem certo que fonte seja essa, mas suspeito que seja uma fonte móvel, já que ele, segundo as ensaístas, preocupado, sofria do estranho hábito literário de fixá-las teimosamente.

"2) Há o conflito deflagrador da ação, aparecendo igualmente os modelos regionais como Juan Muraña e os "gaúchos" Uriarte e Duncan, estes defrontando-se numa luta mortal para defender a honra, posta em dúvida durante um jogo de cartas."

Borges, a linguagem e a literatura não têm importância nestes comentários. A arte está reduzida à escolha dos pretextos (que serão sempre os mesmos) e o reflexo das imagens e o eco das metáforas vão se diluindo nessa pequena contabilidade investigatória ou levantamento de estoque de armazém. O que as autoras chamam de "ação" (como se estivessem falando de uma novela de televisão) foi "deflagrada" muito antes do que elas poderiam supor; muito antes do aparecimento desses pernósticos "modelos regionais" em lugar dos tipos regionais, ou populares. O "conflito deflagrador", como elas o chamam (como se fosse um conflito e não uma conjugação) e a "ação", são ambos pretextos para o texto de Borges. Que importância há no conflito entre dois homens quando o que está sendo dito refere o que já era antes deles? Que importância há em se falar de um "modelo regional" quando o que vale e transcende qualquer esquema de enredo é uma frase como esta: "As duas sabiam pelejar – não os seus instrumentos, os homens – e pelejaram bem naquela noite." ou esta: "Em seu ferro dormia e espreitava um rancor humano." Quem são realmente os personagens que desenrolam a trama? Era essa a pergunta que devia ser desenvolvida; o que significam, em Borges, os punhais? os tigres? a eternidade?

E o "ensaio" continua:

"3) O conflito resolve-se por um crime, chegando a uma conciliação pela eliminação de uma das partes. E estas manifestam, pelo menos em "O Encontro", também um forte paralelismo, já que é uma antiga disputa entre Juan Almanza e Juan Almada (homens que "todos confundiam") que Uriarte e Duncan resolvem. E é nesta conciliação que reside a "chave fantástica", pois é para torná-la realidade que as armas encarnam seus proprietários e se batem até à morte de um dos digladiantes:"

Aqui, vê-se, perdeu-se a gramática... mas, que sutil ironia, ou belíssimo desígnio da literatura, ou do sonho, dirigiu as autoras para que no mesmo tópico, precisamente naquele em que presumem ter encontrado a "chave", fossem juntar pedaços de frases de Borges, dando-lhes, pela aproximação involuntária, um outro e completo sentido?

"todos confundiam" a "chave fantástica"

Acontece quando miramos um espelho: nos demoramos a perceber a correspondência entre o nosso lado esquerdo ou o direito na imagem refletida; é preciso uma certa atenção. Acontece neste ensaio: as ensaístas, perante Borges, presumem estar indo numa direção e, embora tudo lhes pareça nítido e cristalino, andam para o lado oposto, e se deslumbram: "Um, dois, três e... zás-trás: Eis o domicílio da chave fantástica!" As autoras persistem, ou insistem, no tal "conflito" e por isso são levadas a distorcer a lógica e o significado das palavras ao desvario de chamar "conciliação" ao ato de matar, de "eliminar uma das partes"; e na última frase do tópico de número três encontramos a mais fantástica cena de metempsicose sonhada por Borges, segundo as autoras: "A Encarnação das Facas"; e a transmutação que elas fazem com os "modelos regionais", ao chamar aqueles compadritos e gaúchos de digladiadores? Realmente não chega a ser uma chave que abra alguma porta, mas é fantástica também, porquê, sem que Zilberman & Bordini percebam, sem dolo ou culpa, sem querer e sem saber, nos remetem a Roma e, então, aos punhais que mataram César:

"Numa gaveta há um punhal."

Talvez nessa mesma gaveta, da qual Zilberman & Bordini só foram até à borda, e não a puderam abrir, esteja a chave que tão ingenuamente e displicentemente imaginam haver encontrado.

 

Mas, o que importa tudo isto?

Já não vale a pena analisar o texto das autoras; o que eu estou dizendo não o tornará melhor, nem pior. Agora vamos chegando ao ponto: Há, neste jogo, coisas bem mais interessantes e das quais elas fazem parte sem compreender e sem perceber a ironia fantástica: No momento em que começaram a pensar o seu "Ensaio Introdutório", foram bruscamente introduzidas na trama que Borges tinha urdido; foram sugadas por um turbilhão cuja potência nem podem imaginar, e passaram a ser as personagens que ele havia resolvido criar à distância. Uma simples e simpática maldade: fazer com que a soberba dos outros trabalhasse para ele, assim como eu que, com admiração (como aqueles personagens de Henry James, em O Desenho do Tapete2) também já vou fazendo parte da maranha.

A tremenda erudição e a inteligência de Borges o levaram a especular sobre todas as possibilidades da palavra e das idéias e dos tempos da História. Basta olhar a diversidade dos assuntos que o interessaram através de alguns de seus títulos: Arte de Injuriar; O jardim dos caminhos que se bifurcam; Xadrez; O Labirinto; Tema do traidor e do herói; O espelho dos enigmas; Abenjacan, O Bokari morto em seu labirinto; enfim, interessou-se pelo Universo. Ventilava possibilidades como a idéia do detetive que desvenda os crimes, mesmo preso e incomunicável em uma cela; o enredo do romance policial que termina com a descoberta que o autor do crime é o próprio leitor (Eco cataloga essa idéia); ou esta agora, onde duas personagens reais, de carne e osso, se delineiam e se desenvolvem a elas próprias sem desconfiar que são parte de um roteiro, ou enredo preestabelecido e se escrevem, ou inscrevem, nas páginas de um livro de Borges sem que o autor haja gasto um pingo de tinta a mais. Essa fina teia foi tecida quando Borges lançou a isca maliciosamente atraente e sorrateiramente mal dissimulada por entre o seu prólogo ao O Informe de Brodie. Logo na primeira página do seu ensaio, Zilberman & Bordini anotam: "....., Borges, em suas considerações iniciais a O Informe de Brodie, parece muito sincero." Já estavam fisgadas, pois esse comentário sonso e absolutamente desnecessário sobre a sinceridade de Borges já procurava disfarçar o grande "achado", assim como aquelas pessoas que vêem no chão uma nota de valor e fingem que olham para outro lado, para que outros não a vejam, à espera do melhor momento de a apanharem. Isso era esperado: essa ingenuidade levemente desonesta, a ganância e a soberba eram necessárias para que o tema se desenvolvesse, como num jogo de xadrez. No prólogo, Borges fala dos relatos e contos com a erudição habitual e, a certa altura, de enfiada, lança: "Duas narrativas – não direi quais – admitem uma mesma chave fantástica." Pronto. E então, a capa, as linhas da trama: "não direi quais"; mas a seguir ele desfia todas as claves possíveis para o seu concerto: "O leitor curioso perceberá certas afinidades íntimas. Alguns argumentos me castigaram ao longo do tempo; sou, decididamente, monótono." Com três palavras apertou o laço: "não direi quais". Foram essas palavras, como ele tinha previsto3, que desencadearam o enredo, ou a "ação", como preferem cinematograficamente as ensaístas, e fizeram com que Zilberman & Bordini, e provavelmente outras pessoas pelo mundo, se lançassem sofregamente à vã empreitada da descoberta das chaves secretas de Borges, e outras ainda, como eu, ao não menos desnecessário ato de fustigar os tropeços intelectuais das primeiras.

A ironia está em que o leitor curioso saberia que a chave fantástica é o próprio Borges.

 


NOTAS:

1 Zilberman, Regina; Bordini, Maria da Gloria. A literatura, um sonho dirigido - ensaio introdutório. In: Jorge Luis Borges. O informe de Brodie. Porto Alegre, Globo, 1976.

2 James, Henry. O desenho do tapete. In: Henry James. A morte do leão: histórias de artistas e escritores. São Paulo, Companhia das Letras, 1993, pp. 144 - 179.

3 Em A abdução em Uqbar – Sobre os espelhos e outros ensaios, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1989, p. 164, Umberto Eco refere essa fantástica maquinaria de Borges.

 


Post Scriptum:

O Ensaio Introdutório foi escrito há quase vinte anos no Rio Grande do Sul, tão perto da casa de Borges... o que nos demonstra, também, que a proximidade e as outras distâncias serão sempre, curiosamente, relativas.


Post Scriptum II

No conto Guayaquil, como de resto em todas as obras de Borges, sempre há duas, três, ou mais narrativas que se desenvolvem sobrepostas num mesmo âmbito, como se uma refletisse ou iluminasse a outra. Além da postulação do direito de comentar e publicar as cartas de Bolívar, aqui flui entre elas um cenário especular e difuso, permeando os enredos com tênues linhas de outras estruturas que falam de escritores, de livros, de coincidências, de verdades e mentiras, de resignações, de erros e acertos involuntários e de intencionais traições pressentidas mas inelutáveis.

O Narrador (e o chamo de Narrador, diferentemente das ensaístas, porquê, ao que me conste, Borges não foi titular da Cadeira de História Americana, nem, "segundo se sabe", vivia na Rua Chile.) principia a lamentar que ".... não decifrarei nessa biblioteca, que de Buenos Aires imagino de tantas maneiras e que tem sem dúvida sua forma exata e suas crescentes sombras, a letra de Bolívar." Depois, ao explicar as razões pelas quais Zimerman agora estava em seu gabinete com "aquele terno de um azul forte, com excesso de botões e bolsinhos" e aquela cara "trop meublé", o Narrador refere certa publicação em que Martin Heidegger refutou "uma espécie de ensaio sustentando que o governo não deve ser uma função visível e patética", e que o autor dessa tese*, o Dr. Eduardo Zimerman, tinha "uma linhagem hebréia, para não dizer judia", e continua assim: "Esta publicação do venerado existencialista foi a causa imediata do êxodo e das transumanas atividades do nosso hóspede." Aqui não é apontada uma causa simples, uma causa única, mas somente "a causa imediata"; então havia outras causas para as "transumanas atividades" de Zimerman?

"........ o primeiro livro em alemão que li foi a novela O Golem, de Meyrink."

E logo a seguir:

"O senhor é de Praga, doutor?"

Na Europa, onde aquela parte do enredo foi situada, um atento estudioso de Heidegger, a contraparte francesa do filósofo alemão, ou o seu espelho e janela (as nações, como os indivíduos, também estão sujeitas ao assédio da inveja e da soberba) Jean-Paul Sartre, o autor de Reflexões Sobre a Questão Judaica, escrevia um grande livro cujo personagem principal é um homem que percorre durante a sua vida os longos corredores e os ocos e às vezes densos volumes de uma vastíssima Biblioteca.

".....Votre siège est fait.......

"O público não percebe nuanças.

"Trinidad nos serviu café.

"Zimerman respondeu:

"As explicações são tantas... Alguns acham que San Martín caiu numa cilada; outros, como Sarmiento, que era um militar europeu, perdido num continente que nunca compreendeu; outros, em geral argentinos, lhe atribuem um ato de abnegação; outros ainda, de cansaço. E há ainda quem fale da ordem secreta de não sei que loja maçônica.

"Excelente café."

O Narrador termina Guayaquil assim:

"Pressinto que não escreverei mais. Mon siège est fait."

Tudo em Borges é ambíguo (mas não dúbio) e às vezes (para distraídos) parece contraditório mas, através daqueles elos e liames, aparentemente dispersos pelo tempo, ou encobertos pelas opiniões dos homens, vai demonstrando o lúcido e admirável encadeamento de uma outra e fantástica História e de seus pequenos personagens, ou patéticos figurantes: Não é interessante que Zimerman, lá pela década de trinta, aventasse a hipótese de um governo por trás dos governos?

Nesse movediço cenário, nem Heidegger, nem Sartre teriam imaginado o Muro de Berlim e, portanto, também não é de se estranhar que ainda há poucos anos, tampouco os "analistas internacionais" com seus exclusivos "contatos secretos" e "fontes confidenciais", ou até os autodenominados "cientistas políticos", fossem bruscamente surpreendidos pela espantosa e, até agora, muito mal explicada "Queda do Muro de Berlim".

E Zimerman, olhando para os livros do Narrador, "quase amorosamente":

"Ah, Schopenhauer, que sempre descreu da história..."


*

O mundo já está suficientemente preparado para se submeter a um governo mundial. A soberania supranacional de uma elite de intelectuais e de banqueiros mundiais, seguramente é preferível à autodeterminação nacional.

David Rockfeller

1991


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Post Scriptum em 23 de novembro de 2006

 

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