PEQUENO ARABESCO EM VERDE E OURO

UM TAPETE PERSA EM AZUL E PRATA

 

Para Roberto Mitsuaki Kumagai

 

Alfredo Braga

1981

 

 

 

É uma temeridade falarmos sobre o nosso próprio trabalho enquanto o objeto, como obra, suscita uma ampla gama de interpretações.

O apuramento de uma linguagem, quanto ao seu potencial de preservação da mensagem, dos conteúdos, requer uma compreensão e uma adequação do media escolhido para que sejam evitadas interpretações paralelas que, geralmente, nem sequer foram cogitadas pelo artista. Essa "liberdade" de leitura diluiria a razão de ser de qualquer discurso; em outras palavras: o sentir, o pensar e o dizer se transformariam em bolhas estanques, em que o nosso intuito, ou interferência, iria pairar num vago e indefinido campo de vacuidades (onde tudo caberia) quando o que estivéssemos dizendo não encerrasse ou contivesse um mínimo de intenção e clareza.

A proposta que venho discutindo, há dois anos, encontra-se num estágio delicado e um pouco nebuloso em que armadilhas desgastantes e movediças têm de ser superadas num caminhar cauteloso. Mas, por outro lado, a voracidade da obsolescência por idéias irrealizadas, me impele à feitura dos objetos que materializam a idéia e ilustram o paralelo que procuro traçar entre algumas tecnologias (como exercício do saber) e a feitiçaria (como exercício da magia) não de uma maneira ideológico-crítica, mas com o humor leve de quem simplesmente olha e vê certas continuidades no fluir da vida, sem se exaltar ou entusiasmar por sutis coincidências que nos fazem imperceptivelmente sorrir.

Abordei a eletrônica, informática, por ser uma realidade nem menos nem mais assombrosa do que uma trepanação no crânio de um remoto habitante da América Pré-colombiana (não muito diferente daquelas que se praticou nos Estados Unidos da América, durante a década de 50 e, pouco antes, em Portugal). Mas não pretendo fazer óbvias e desgastadas e já claramente desnecessárias elocubrações sobre a relação máquina/homem, e nem tenho a intenção de construir um pseudo robô que cumprimente as pessoas e fale, com voz metalizada, de ecologias, ou do lixo nuclear; também não são as possibilidades que o computador me oferece, com suas linguagens, nem o resultado de uma programação inusitada, ou da escolha conceitual dos dados que lhe serão fornecidos, ou da leitura dos admiráveis esquemas que nos são devolvidos através de um monitor, ou de uma minuciosa, ou obstinada impressora; não é esse o enfoque que procuro ventilar, ou usar como cinzel ou buril na execução da minha proposta; o computador é o meu objetivo; não as suas capacidades, mas os seus componentes vivos e em funcionamento, ainda quando expostos ao ar e à luz, mesmo depois de serem dissecados e despojados de suas cascas de plástico.

 

A essência do conhecimento sempre foi guardada a sete chaves, e somente os resultados práticos eram acessíveis ao leigo. Só o feiticeiro conhecia as raízes do remédio: ao doente proporcionava-se o bem estar miraculoso; só os iniciados conheciam a trajetória dos astros: o homem do povo plantava na época determinada.

Depois que a ciência foi vulgarizada (quando o leigo teve acesso ao mistério, pelo menos à sua parte aparente) o homem comum passou a usufruir do resultado da tecnologia encerrada e escondida no bojo de certos objetos do cotidiano: uma bomba de água, um rádio, uma polaróide, um computador...

Assim como aquele doente recebia a cura, através da tecnologia guardada nas raízes de uma planta que só o feiticeiro conhecia, manipulamos uma pequena caixa e vemos surgir, miraculosamente, o número do estranho pulsar de um fantástico cálculo oculto e escondido em minúsculos circuitos de cabala, fios de contas, e transistores de búzios, de uma nova magia, de um novo feiticeiro que não mais se mostra, não mais se expõe à relação: ele desapareceu (como Elias, num carro de fogo) para um mágico retiro de impessoalidade.

 

O fascínio da transparência que o acrílico e os novos plásticos permitiram, não foi, estranhamente, aplicado aos envoltórios das máquinas eletrônicas. Elas têm sido cuidadosamente veladas por superfícies que as disfarçam, como às relíquias religiosas envoltas em pequenos panos costurados a que se chama escapulários. Enfim, a mim me parece que não é fortuitamente que os acrílicos transparentes, tão largamente utilizados pelos mais diversos motivos, não tenham sido jamais a cobertura funcional (utilitária e estética) de uma simples máquina de calcular. Por quê? Que necessidade pudica seria essa de se esconder do público, do homem comum, o aspecto completamente belo de um circuito eletrônico impresso em verde e ouro, ou azul e prata? ou seria por demais indecente mostrar, escabrosamente, as recônditas e escondidas entranhas da fascinante máquina que pensa?

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Bem, são perguntas e divagações ociosas que me ocorrem enquanto remonto os circuitos agora expostos, uno as conexões elétricas reestruturadas em longos e finíssimos arames de aço inoxidável, deposito pequenos pontos de solda em minúsculos terminais de prata para que outra vez e de outra maneira, o conjunto responda com a rapidez da luz ao jogo dos botões de plástico. E enquanto me recolho nessa fascinante artesania penso também em homens como aquele que mora na Casa da Flor enquanto ia agregando pedaços de vida e de azulejos e fios de pensamentos formando uma cosmologia da qual só ele conhecia o Zênite e o Nadir. Sim, imagino que também seja esse o sentido e os lugares que procuro enquanto cuidadosamente vou polindo a superfície de um novo cristal de poliéster que agora guarda em seu âmago, mas não esconde, os órgãos coloridos e brilhantes do circuito altamente integrado de uma serena máquina eletrônica.

 

 

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