Considerações sobre o Graffiti

Sérgio Niculitcheff

 

A poluição visual é um fenômeno comum em todas as grandes metrópoles mundiais. A comunicação visual e publicidade atingiram um nível de extrema saturação e prolifera a caótica sobreposição de informações visuais aqui na cidade de São Paulo. Esta questão ainda tem um fator agravante; a dificuldade do poder público em administrar e fiscalizar mesmo os próprios anúncios regularizados.

Dentro deste quadro e concorrendo com as informações institucionais, vejo na pichação (como é desenvolvida atualmente, através de uma vertente mais elaborada denominada graffiti) uma forma de arte que tangencia a poesia visual; uma escrita anônima de rua, mimetizando os procedimentos mercadológicos da publicidade.

Marcos Mello escreve no catálogo da exposição na Casa das Rosas Rendam-se terráqueos: "A iconografia pública aparece como ‘escrita urbana’, na tradução e leitura de um outro cotidiano, o do jogo interpretativo. Das possibilidades e do livre pensar. Abre caminho duelando com o restrito, expandido-se informação, em um ritual que cultua a reflexão, o não-comportamento limítrofe das convencionabilidades do mercado."

Os grafiteiros usam o texto escrito de maneira ilegível para os que não fazem parte do meio, pode ser o nome e ou apelido do autor ou o nome fantasia de um grupo, tribo ao qual pertencem. Recorrem para a execução a uma enorme variação de estilos, cores e formas, com um sentido estético desenvolvido, obtendo resultado plástico que interfere de modo benéfico em meio à paisagem urbana.

Esta atividade se transforma numa estratégia de merchandising, que no final acaba sendo efetivamente a divulgação de uma marca, como se realmente fosse mais um produto na disputa de mercado. Neste raciocínio, o artista é o próprio produto ao qual ele está divulgando. Existe inclusive uma disputa de pontos estratégicos para atingir o mercado, uma disputa somente de visibilidade do "anúncio", o que se torna curioso pois paradoxalmente o produto a ser consumido é inexistente.

As manifestações de graffiti estabelecem-se como uma das vertentes artísticas contemporâneas. Em nível internacional nomes como Basquiat, K. Haring e K. Scharf, entre outros, surgiram primeiro no graffiti e depois migraram para o circuito estabelecido de arte, porém transpondo os procedimentos e a linguagem na qual se originaram e através da qual foram reconhecidos. No Brasil, a partir da década de oitenta vários artistas atuaram nessa mídia: Alex Vallauri, grupo Tupynãoda, Carlos Matuck e Waldemar Zaidler, entre outros. Em recente exposição na Casa das Rosas, Rendam-se terráqueos deu uma amostra da importância que o graffiti teve para toda uma geração.

 

 

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