Mapas inexistentes, caminhos incertos:

a obra poética de Mário Peixoto

Constança Hertz

 

Cineasta de um único filme, Mário Peixoto (1908-1992) escreveu poemas, romances e roteiros que permanecem pouco conhecidos, apesar de sua alta qualidade e de possuírem a mesma singularidade que Limite (1930) apresenta. O percurso literário deste cineasta iniciou-se também na década de 1930, quando publicou Mundéu, livro que em 1931 levou Mário de Andrade a reconhecê-lo como uma importante revelação poética, e ainda a primeira versão do romance O inútil de cada um (1933), que teve uma segunda versão, bastante diversa da primeira, publicada em 1984. O ainda inédito Poemas de permeio com o mar, que possui a mesma força das líricas e angustiadas imagens de Limite, teve seus dois volumes escritos ao longo de três décadas – desde a década de 1930 até a década de 1960. Nesta obra, que assume linguagens que parecem estar tão distantes, as imagens insistem em nos conduzir para inesperadas alturas e assustadores abismos.

Nos poemas de Mário Peixoto, revela-se impossível a separação entre palavra e imagem. Podemos enxergar os movimentos que as palavras desenham. Os versos parecem ser determinados por uma intensa percepção visual do sujeito poético e, em via oposta, por sua vez, a linguagem cinematográfica que conhecemos através de Limite mostra-se marcada por uma também intensa percepção poética, já que esta, na obra de Mário Peixoto, revela-se bastante ampla e, por estar além dos limites dos versos dos poemas, pode chegar às imagens do filme e ao romance.

Os caminhos percorridos pelas imagens e palavras se misturam, na obra de Mário Peixoto, e podemos identificar duas vias, com a certeza de que as trocas são sempre recíprocas e inesgotáveis. Os mapas que poderíamos percorrer não parecem claros, as imagens se multiplicam indefinidamente e, por fim, nos encontramos perdidos, como parecem estar o sujeito poético dos versos de Mundéu (1931) e Poemas de permeio com o mar I e II, o narrador do romance O inútil de cada um (tanto na primeira versão, de 1933, quanto na segunda, de 1984) e a câmera que narra Limite (1930), as faces instáveis da voz que se recusa a ter um rosto e que, no entanto, podemos identificar por uma semelhança entre o tom que estas vozes assumem e as complexas questões existenciais e estéticas a que nos remetem.

Na linguagem poética de Mário Peixoto, que, se nos deixarmos prender em algumas de suas armadilhas, parece ser clara, as imagens sempre irão nos conduzir a um estado de torpor em que nosso olhar jamais estará mais claro – pelo contrário, teremos sempre a sensação de que o olhar torna-se cada vez mais turvo, por conta da confusão sensorial com que nos deparamos. O movimento das imagens se impõe, seus poemas nos ensinam, e não nos resta outra possibilidade a não ser aceitar e tentar acompanhar este movimento. Com os poemas, descobrimo-nos imersos em uma intrincada rede de imagens que, com imensa velocidade, quase sempre vertiginosa, parecem ser sempre as mesmas, ampliadas e repetidas. Saulo Pereira de Mello aponta a existência de uma imagem protéica que reaparece ao longo de Limite. Acreditamos que esta leitura evidencia a ocorrência de uma imagem essencial, que não se contenta com aparências e superfícies, assume diferentes formas e retorna com insistência, pois parece que esta imagem está sempre ao redor dos mesmos núcleos temáticos. Em função da organicidade que identificamos na obra de Mário Peixoto, podemos constatar que este fato não ocorre apenas no filme, mas também nos poemas e nos romances, com a particularidade de as imagens de cada um destes serem essencialmente as mesmas já que, apesar de as formas se distanciarem, possuem invariavelmente uma profunda coerência temática entre si. No entanto, suas imagens poéticas sempre revelam realidades que não parecem ser reais e verdadeiras, mas sim simulacros que não podem ser evitados e, por toda a obra, parece haver uma profunda coerência, pois as imagens evidenciam uma unidade temática que acaba por fornecer à sua obra a possibilidade de formar um todo orgânico – por isso referimo-nos à organicidade da obra.

Na obra literária de Mário Peixoto, a escrita jamais encobre as imagens, pelo contrário, sempre as revela. "Ao inventar a escrita, o homem se afastou ainda mais do mundo concreto quando, efetivamente, pretendia dele se aproximar", afirma Flüsser, o que nos leva a pensar que, na obra de Mário Peixoto, permanece bastante clara a percepção desta contradição da palavra escrita, que a um tempo nos aproxima e nos distancia da realidade concreta. A linguagem, em sua obra, será sempre recriada, e aparece como construção – com todos os seus riscos e promessas.

 

Para sempre,
nem mais os braços enrodilhados, dos amantes,
nem os lábios prestes ao sigilo
poderiam prender o fito corrompido
que o tempo encardiu,
reconquistando-o ao mar…
…As promessas são muitas,
carregadas de correntes impossíveis
e as velas acesas queimam na noite intensa,
pelo desejo de uma prece,
derramadas nas lajes surdas
o derradeiro alento das ceras…

["São Martinho", Poemas de permeio com o mar I.]

 

A relação com o sagrado – a imagem de São Martinho neste poema – parece ilustrar as impossibilidades da linguagem. Temos "lajes surdas", "lábios prestes ao sigilo", "promessas" e "correntes impossíveis": o mar acolhe todas estas impossibilidades, cerca São Martinho com sua força, como se fosse o único testemunho – ou ainda, o intermediário – entre o humano e o sagrado. A imagem de um santo poderia trazer o "derradeiro alento", mas este alento não existe. Apenas em imagens e na linguagem, parece ser possível, a este sujeito poético, estar próximo do que é buscado por instinto, por uma sensibilidade inquieta, que deixa a poesia surgir e criar vida própria em toda a obra, com todas as formas – por mais inesperadas que sejam.

Estes versos do poema São Martinho permitem-nos entrever uma percepção da linguagem que a sabe como uma possibilidade de mediar (e criar) imagens que estará invariavelmente frustrada. O diálogo com o santo não será possível – não haverá conforto, "as promessas são muitas / carregadas de correntes impossíveis". A linguagem, com todas as direções que aponta, será sempre instável e trará a marca de suas muitas impossibilidades. Flüsser afirma que "a escrita é metacódigo da imagem", e parece-nos ser esta a linguagem que encontramos nos poemas de Mário Peixoto: a palavra está sempre em função da imagem. E das insuficiências da linguagem escrita – já que os poemas nos apontam que o indizível faz parte da obra – e de sua subordinação às imagens que constrói, parecem surgir novas perguntas, pois não será possível distinguir as imagens do mundo concreto das imagens construídas pela imaginação ou pela intermediação da linguagem escrita. Vilém Flüsser afirma que a imagem deve "sua origem à capacidade de abstração específica que podemos chamar de imaginação", o que nos leva a pensar que, se a imaginação cria imagens, que podem depender ou não da realidade externa ao sujeito, e a linguagem escrita é feita de imagens, a linguagem, por sua vez, não pode existir sem imaginação. A linguagem é sempre criação e é esta linguagem, que deixa claro o seu potencial de sonho e criação, e que se quer mais próxima da imaginação, que encontramos em Mundéu e em Poemas de permeio com o mar.

Na obra de Mário Peixoto a imaginação ocupa um lugar central e aparece exposta na estruturação de sua obra, fato que podemos enxergar, em muitos momentos, por conta de uma tendência metalingüística que perpassa toda a obra, e esta imaginação se desdobra, planos oníricos e reais se interpõem e, deste modo, imagens se aproximam para que a obra se construa, em um movimento que explicita a impossibilidade de separarmos imagem e imaginação. Encontramos uma sensibilidade determinada por esta imaginação e que, em sua poesia, tenta abarcar o indizível. Podemos contrapor a estas observações, a definição que Cornelius Castoriadis fornece para as imagens, "não no sentido de "ícones" ou "imitações", mas Vorstellung, representações, ou melhor: apresentações: apresentações de qualquer coisa sobre a qual nada pode ser dito, salvo por meio de uma outra representação, acerca da qual o discurso estará eternamente aberto (...)". A imagem, ao invés de apenas sugerir, apresenta, revela o que estava encoberto, e, por tudo que não revela, expõe falhas que permitem que o discurso continue em movimento e amplia as possibilidades de aproximação entre imagens que podem ainda estar por vir – como se as imagens, de certo modo, estivessem mais próximas da vida. A imaginação constitui a própria imagem, alcança o inatingível e será justamente nas aberturas e falhas da linguagem, com todas as suas insuficiências, que a Poesia surgirá com autonomia, viva, sem forma fixa – nos poemas ou em Limite. As imagens, que apresentam a imaginação criadora de Mário Peixoto, possuem autonomia e, desta forma, pode-se ir além da obra, com uma sofisticada – e freqüente, ao longo da obra – problematização dos muitos impasses da linguagem e da expressão artísticas.

Não poderá haver, para esta sensibilidade poética, qualquer tipo de certeza em relação à realidade, pois busca-se a imagem como um método de conhecimento de mundo que talvez pudesse ser mais seguro – só que, no entanto, deparamo-nos com a impossibilidade de confiar no que quer que seja. As imagens podem ser enganosas, sonho e realidade se confundem. Passa a ser necessário, então, desconfiar de imagens e palavras, pois sabe-se que seria impossível contar com garantias sobre qualquer método de conhecer a realidade. Segundo Vilém Flüsser, "imagens são mediações entre homem e mundo. (...) Imagens têm o propósito de lhe representar o mundo. Mas, ao fazê-lo, entrepõem-se entre mundo e homem. Seu propósito é serem mapas do mundo, mas passam a ser biombos". As imagens, portanto, por mais que se queiram verdadeiras, jamais excluem a ilusão e, ao trazerem a promessa de serem verdadeiras, muitas vezes apenas encobrem a realidade. Os mapas não existem – podemos tentar segui-los, mas os caminhos serão sempre múltiplos e incertos. O poema Votivo possui um subtítulo: rota perdida de carcomidos mapas abandonados. Não existem caminhos a serem seguidos, há a consciência de não ser possível controlar a realidade – percorrem-se os caminhos, mas a incerteza determina direções infinitas, que confundem e aumentam a sensação de instabilidade.

 

Tu pisarás meus caminhos
          proibidos,
          flutuantes no que foste,
          refletido no que nem és

 

["Votivo – rota perdida de carcomidos mapas abandonados", Poemas de permeio com o mar II.]

 

O desconhecido é parte integrante deste eu-lírico, impossível sabermos se os caminhos fazem parte do mundo interno ou externo desta voz poética já que ambos se confundem. As imagens poéticas revelam sempre uma realidade oscilante, de águas e reflexos que podem se construir e desfazer a qualquer instante. A realidade que faz parte dos poemas traz sempre a marca da instabilidade, como se a realidade possível tivesse sempre a consistência de sonhos, nuvens, mares – sempre instáveis, alimentam sonhos e podem se desfazer a qualquer instante, pois mesmo o mar, muitas vezes, parece ser impalpável. Nos poemas de Mário Peixoto, o fluxo é permanente e segue-se a flutuar, por mares ou nuvens sonhados e buscados – e esta incerteza torna-se a única realidade possível.

 

Dentro de ti
neblinas se rasgaram
como compreensões
geradas
de catástrofes –
como as pálidas tiras de luz
que após os ventos
em síncope – se
deixam às praias
pelo olhar líquido e amainado,
transmudando
o que tardiamente
rolaram como inútil.

["Votivo", Poemas de permeio com o mar II.]

 

E frente a esta realidade de luz, mares, nuvens e tantas outras imagens que tendem sempre a ser efêmeras e muitas vezes até impalpáveis, evidencia-se a insuficiência da razão e a potencialização da imaginação como a única forma de enfrentar esta realidade assustadora e incerta, que traz sempre a marca do pesadelo, com uma angústia incapaz de distanciar dor e poesia. A realidade externa agride este sujeito poético por dentro – ele mistura-se a nuvens, mares e montanhas sem possibilidade de escolha. Impossível enfrentar o medo decorrente da instabilidade e da insegurança que a realidade nos faz experimentar – a imaginação e a expressão artística parecem ser o único caminho viável encontrado por este eu-lírico, pois não parece ser possível desprender-se de sonhos e ilusões.

 

Onde ir,
ó náufrago?! –
e assim que as outras noites
se empilharem
senão ao mesmo ponto
de partida:
rotas desbotando
em ilegível mapa carcomido!

["Votivo", Poemas de permeio com o mar II]

 

A instabilidade não parece ter saída. A angústia faz parte deste eu-lírico que experimenta a realidade como se estivesse sempre à deriva, sem rumo certo, sempre a oscilar frente a um fluxo incontrolável – poesia e vida parecem estar sempre fora de controle. Os versos da estrofe acima remetem-nos, inevitavelmente, para a imagem que conduz Limite, com os três personagens à deriva em um pequeno barco. Não se pode saber que naufrágio teria sido este, mas identificam-se os náufragos, perdidos, sem direções ou mapas possíveis. Segue-se sempre, mas sem que se saiba o por quê ou para onde. E a direção pode ser circular, pode-se mesmo retornar "ao mesmo ponto/ de partida:/ rotas desbotando/ em ilegível mapa carcomido!". Parece que nem mesmo as imagens possuem a capacidade de dar conta deste universo de sombras que não se traduz. Não há luz a iluminar e apontar uma direção.

Em época de descrença generalizada, quando sujeito e realidade parecem determinados apenas por uma inevitável instabilidade, a imagem oferece a possibilidade de algum apoio. Na fotografia, por exemplo, por seu vínculo direto com a realidade, talvez fosse possível confiar. A fotografia parece redefinir a forma de o homem se relacionar com a realidade, segundo Susan Sontag. Entretanto, não podemos esquecer que o cinema, com as técnicas de montagem, e também a fotografia podem ser conduzidos de forma a criarem uma nova realidade que algumas vezes poderia parecer até mais verdadeira do que a própria realidade. A imagem que marca os poemas de Mário Peixoto seria esta imagem fotográfica, característica da modernidade, que altera a relação do sujeito com a realidade e, ao parecer mais fiel à realidade objetiva, em sua representação, oferece-nos uma nova realidade, muitas vezes distorcida. Não há ingenuidade na obra de Mário Peixoto – por mais que sua linguagem poética em alguns momentos pudesse até nos fazer seguir esta pista enganosa – e as ilusões criadas pela linguagem serão sempre desmascaradas, mas nunca de forma clara ou óbvia. Será justamente ao percorrermos caminhos intrincados, de imagens múltiplas e infinitas, que iremos nos deparar com uma poética incomum, que prima por ser sutil e delicada, apesar de abordar questões complexas e dolorosas que dizem respeito a uma época marcada por imensas contradições – a poética de Mário Peixoto ultrapassa seus limites e atinge o universal.

As imagens, nesta obra, adquirem autonomia e nos apontam ser impossível controlar a sua força ou mesmo sua significação. A construção de imagens e a estruturação da obra a partir das imagens evidenciam o esforço de dar forma ao infigurável, ao disforme. E na obra de Mário Peixoto, as imagens que saltam dos versos, do filme ou do romance O inútil de cada um, em suas duas versões, revelam uma via reflexiva sofisticada, apesar de instintiva, como acreditamos. Segundo Cornelius Castoriadis, "o pensamento abstrato, ele mesmo, deve sempre se apoiar em uma figura ou imagem qualquer, seja essa, minimamente, a imagem das palavras que o suportam" e, na obra de Mário Peixoto, essas imagens autônomas, que não seguem em linha reta e nem podem ser contidas ou controladas, ligam se a outras e constituem, deste modo, uma reflexão crítica sobre o próprio fazer poético. E, como em um jogo de espelhos, as imagens se multiplicam e as significações insistem em se ocultar.

 


Constança Hertz é Mestre em Literatura Comparada – UFRJ, e é editora adjunta da revista Poesia Sempre da Fundação Biblioteca Nacional.

 

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