Poesias visuais

 

Sergio Niculitcheff

 

Iniciei este primeiro trabalho a partir da idéia de fazer alguma coisa relacionada com a expressão idiomática "mais ou menos", o interesse pelo tema é meu gosto pelos sinais matemáticos misturados a letras. A princípio comecei a fazer tentativas gráficas com a expressão +ou– e de todas as tentativas para sintetizar a idéia nenhuma foi satisfatória, daí, na ânsia de redução me veio um insight, inverti a ordem dos sinais e criei o –é+. Uma vez definida a idéia, fiz vários estudos sempre mantendo a modulação no conjunto e os elementos sem espaçamento, com a predominância da geometria para maquiar a leitura imediata realcei a postura construtiva para enfatizar o caráter sintético. Como reforço achei que a escala da imagem deveria ser pequena e bem no centro da folha.

Neste exercício tive uma influência de trabalhos de Artes Gráficas e Comunicação Visual, no semestre anterior ministrei uma disciplina como professor auxiliar de comunicação visual no curso de arquitetura, os exercícios e procedimentos da criação de signos de comando ainda estão bem frescos em minha mente, creio que foi produtivo este tipo de contaminação. Vi também uma semelhança com objetos vendidos em lojas de umbanda feitos com pedaços de vergalhões de ferro, com uma geometria de representação simbólica e estrutura linear na construção do desenho.

O "não tão bão" surgiu quando eu fazia uma atividade em nada relacionada com Poéticas Contemporâneas e Visualidade: o fichamento de um livro para a disciplina Metodologia da Pesquisa Científica em Ciências Humanas. De repente, me chamou a atenção no texto à ocorrência de três palavras seguidas terminadas em ão: não, são e tão. Talvez tenha sido um devaneio por estar no momento tratando de um assunto tão árido, somente anotei as palavras numa folha à parte e continuei a minha árdua empreitada. Quando retomei a anotação para trabalhar a poesia procurei listar algumas palavras terminadas com ão para articular o conteúdo e dar algum significado pertinente, depois de várias alternativas acabei ficando com "não tão bão". Ordenei a forma para configurar uma estrutura geométrica com 9 letras 3X3, gostei da simplicidade e também da dose de humor que considerei adequada, aliás esta questão do humor, não só neste trabalho mas em toda produção artística, tem que ser muito bem ponderada para não acabar virando uma piada visual. Para a execução resolvi que a tipologia não deveria ser tão boa, então tentei fazer com a mão esquerda para conseguir imprecisões com uma certa autenticidade, utilizei a letra minúscula na letra B e uma das letras A, para se assemelhar a inscrições de placas e anúncios feitos a mão, onde com freqüência há erros de ortografia e as letras B, D, P e A as vezes são escritas em caixa baixa. Recentemente vi em uma revista de design gráfico na seção de tipologia um artigo de um designer que criou um alfabeto baseado neste tipo de grafia, porém achei mais adequado não usar uma tipologia pronta pois na repetição do ão três vezes iria dar para perceber que era um padrão, eu buscava uma coisa mais imprecisa dando uma aparência da inscrição de um semi-analfabeto.

Mostrei o menos é mais para minha filha de dez anos no intuito de avaliar o grau de legibilidade do trabalho, ela não identificou apesar do acento (a meu ver) indicar claramente que aquilo se trata de uma grafia, depois de lhe explicar ela me pediu para ver outro, daí mostrei o "não tão bão", ela disse que não gostava, falei que o primeiro era melhor e este era mais ou menos, na hora me veio o link com "menos é mais", então decidi batizar o "não tão bão" com o título de "+ou–" para fazer par com o "–é+".

Estabeleço uma relação da opção de síntese dos dois poemas visuais com os trabalhos que realizo em pintura, também utilizo o mínimo de elementos para estruturar a composição, freqüentemente só um elemento sobre uma superfície neutra, o clássico figura e fundo.

Antes e depois da concepção destes dois trabalhos tive várias outras idéias, porém optei por estas duas, creio serem mais fortes e graficamente mais elaboradas e melhor lapidadas. Apesar disto incluo as outras opções que não estão de todo ruins.

O "Toalete" eu fiz pensando na falta de padronização da comunicação visual em sanitários públicos dando margem a interpretações errôneas, me refiro também aos limites e ao relativismo da sexualidade. O título é "Toalete", uma palavra de origem francesa – "toillete", incorporada em nosso vocabulário. Na parte superior do poema está colocado WC significando "water closet", uma designação da língua inglesa bastante difundida por aqui. No final, nas três portas coloco as letras H, M e F. Sendo que a letra M tanto pode significar mulher (em oposição ao H de homem) ou masculino (em oposição ao F de feminino). Não levei em conta que há ainda as grafias D para damas e C para cavalheiros.

O "Ilusão" realizei a partir de uma imagem bem conhecida em exemplos de ilusão de ótica relacionando a percepção visual e a construção de imagens pelo cérebro. Ainda influenciado pelo exercício anterior, dei continuidade à idéia de uma coisa que é a princípio  visualmente dualista e depois se ramifica em três. Decidi colocar nas duas primeiras partes as definições "ele e ela" pela similaridade sonora e pela definição dos sexos. Na extremidade oposta não coloquei nada, mas fica subentendido que o que era dois, magicamente agora é três. Segundo a minha leitura, tanto pode se referir a uma dubiedade em relação à sexualidade, fornecendo uma ambígua terceira via como no trabalho anterior, ou algo como um terceiro elemento além dos dois iniciais, como um filho ou então um amante de uma ou das duas partes.

"Dimensões" tinha começado a desenvolver há algum tempo porém só tinha pensado nas duas imagens centrais. Agora, por conta da disciplina, resolvi retomar e concebi as imagens que faltavam. A idéia inicial me surgiu da expressão matemática: quando um número é elevado à potência dois diz-se que tal número é elevado ao quadrado, quando é elevado à potência três diz-se elevado ao cubo. Estas duas imagens foram relativamente fáceis de traduzir através de imagens. Na imagem inicial decidi colocar um ponto elevado a zero, na segunda coloquei uma linha, ou seja uma só dimensão, já a última imagem demorei mais tempo para conceber, a dificuldade se resumia em como criar uma imagem que estabelecesse uma continuidade do raciocínio e ao mesmo tempo tivesse uma interação formal com o restante. A solução demorou um pouco mas foi satisfatória; decidi colocar outro cubo, só que um cubo de gelo em processo de liquefação tentando dar a significação da quarta dimensão, que é o tempo se esvaindo.

No "Ponte Aérea" a influência é do trabalho de M. C. Escher, essa coisa de imagens irem se metamorfoseando em outras imagens. A idéia foi pegar os padrões de calçadas das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo e fazer uma transformação gradual, não achei o resultado plenamente satisfatório, fiz num computador da faculdade onde dou aulas, não tenho o programa em meu computador pessoal para fazer a passagem gradual das imagens, preferia mais bem acabado. No princípio ia chamá-lo de "Via Dutra" mas depois de realizado achei melhor o título "Ponte Aérea" pela vista superior do desenho que sugere um vôo.

No trabalho "Las Meninas" a idéia partiu da obra de uma amiga artista, ela fotografou objetos pequenos através de um caleidoscópio e fez ampliações fotográficas de grandes dimensões, me chamou a atenção o espelhamento da estrutura triangular e a repetição da imagem feito estampa quase abstrata. Daí para associar ao quadro de Velásquez foi um pulo, creio que esta obra foi comentada em aula, também já havia lido alguns textos sobre ela e inclusive cheguei a ver uma maquete de como seria a cena. O resultado ainda não está de todo satisfatório, pois também não tenho o programa de computador que faz aquele efeito de caleidoscópio, usei o da faculdade, acho a idéia interessante e pretendo lapidar melhor o aspecto formal da execução.

 

 

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