Um Shakespeare intelectualmente desafiador

Mateus Soares Azevedo

 

A ausência de argumentos "intelectualmente desafiadores" e uma certa desconfiança em relação ao conhecimento e à inteligência são alguns dos fatores que mais têm contribuído para debilitar o alcance contemporâneo da espiritualidade tradicional e que explicam parte de sua trágica crise no mundo de hoje.

A religião almeja atingir todos os homens sem qualquer distinção nos modos de abordagem e por isso enfatiza métodos "convencionais", centrados na emoção ou na vontade, e não no intelecto. Isto não significa que explicações mais profundas, metafísicas, quanto à natureza da realidade e da verdade deixem de ser oferecidas, mas geralmente essas explanações vêm envolvidas numa moldura sentimental, ou então são oferecidas de modo indireto. Um bom exemplo deste último modo é a arte, em suas várias formas. As peças teatrais de William Shakespeare (1564-1616) constituem um vetor particularmente estimulante disso.

Desde, grosso modo, a época do genial dramaturgo britânico que a espiritualidade tradicional tem se valido de métodos que apelam cada vez mais aos sentimentos, levando a uma visão das coisas que está situada num nível que não corresponde às reais capacidades da mente humana. Os argumentos usuais têm sido muito pouco "desafiadores" do ponto de vista intelectual, como colocaram os principais porta-vozes da Filosofia Perene no século XX, o francês René Guénon (1886-1951), o anglo-indiano Ananda Coomaraswamy (1877-1947) e o alemão Frithjof Schuon (1907-1998). A Filosofia Perene busca resgatar a dimensão sapiencial e mais universal das grandes religiões; seu eixo intelectual é que a Verdade é uma, perene e universal, e que as religiões expressam esta Verdade essencial e universal de distintas maneiras.

A inteligência tem sido em geral descartada em nome de uma "humildade" superficialmente entendida, como manifestação de "orgulho intelectual". Mas se refletirmos um pouco, veremos que esta crítica constitui uma contradição, posto que a inteligência se caracteriza exatamente pela capacidade de ver as coisas como elas realmente são, portanto pela objetividade, o que exclui o orgulho.

Se parece certo que, para falar à generalidade dos homens, as exortações de tipo não-intelectual são as mais apropriadas, ainda há, não obstante, número suficiente de homens e mulheres que se movem por considerações de ordem intelectual. E o entendimento de que inteligência e espiritualidade são necessariamente parceiros tem irrompido aqui e ali, de forma intermitente. Ao longo da história sempre houve aqueles que souberam fazer essas duas esferas convergir.

No Ocidente, um dos que melhor souberam conciliá-las, e mais, conciliar em modo artístico, portanto capacitado a falar diretamente ao coração dos homens, de todos os homens segundo suas distintas capacidades de compreensão, alguém cuja mensagem, ademais, permanece atual e relevante para o homem contemporâneo, este foi o bardo de Stratford-upon-Avon, William Shakespeare.

Nele, inteligência opunha-se diametralmente a orgulho: pouquíssimo sabemos do indivíduo William Shakespeare, afora as datas em que recebeu, como qualquer outro em sua época, os sacramentos da religião cristã, da qual era um piedoso fiel. Aos ensinamentos espirituais e à prática tradicional da Igreja, Shakespeare aliava a antiga sabedoria hermética, da qual era um dos grandes conhecedores em sua época. O fato de que sua vida privada tenha passado praticamente despercebida só contribui para reforçar sua grandeza. Pois ele não estava interessado em exibir uma individualidade supostamente diferenciada, impor uma extravagância em nome da originalidade, como ocorre muitas vezes hoje, mas sim em transmitir verdades perenes e virtudes universais.

Hamlet, Macbeth, Rei Lear, Othello, A Tempestade, Medida por Medida produzem, quando apropriadamente encenadas, um "impacto total" no coração-intelecto do espectador, como bem expõe o autor inglês Martin Lings nesta estimulante e penetrante obra que é A arte sagrada de Shakespeare – O mistério do homem e da obra (São Paulo, Polar, 2004)).

Este "impacto total" de que fala Martin Lings ocorre simultaneamente em três esferas: estética, psicológica e espiritual. Shakespeare era possuidor de quatro talentos dificilmente superáveis num mesmo artista: o gênio espiritual, o gênio dramático, o gênio poético e o gênio psicológico. A poesia contida em suas peças é de fato encantadora, além de verdadeira; seus personagens são de uma profundidade psicológica extraordinária; o conteúdo espiritual, ou intelectual — no sentido original do termo, isto é, que lida com a ordem universal, a qual transcendente história e geografia — de suas criações é sublime. É neste apagamento do ego, no indivíduo Shakespeare, e é nesta transmissão de idéias perenes, por parte do intelectual e artista, que residem a nosso ver o segredo da grandeza e da universalidade das criações do bardo de Stratford-upon-Avon.

Shakespeare tem uma crucial mensagem espiritual a nos transmitir, pois ele transpõe para o palco e, conseqüentemente, para o mundo exterior, conflitos que ocorrem primordialmente no interior da alma humana. O teatro se torna como que uma miniatura do universo e o personagem principal como que a Humanidade em si, todo e cada um dos homens. Suas criações mostram de certa forma como retornar à perfeição original do ser humano, como mediador ou "construtor de pontes" entre o tempo e a Eternidade, o relativo e o Absoluto.

Em todas as peças maduras, isto é, posteriores a Hamlet, os personagens têm de encarar e de se defrontar com suas faltas, deficiências e limitações, para em seguida procurar vencê-las. Em Hamlet, por exemplo, pode-se dizer que a falha a ser superada é a falta de natureza "ativa" por parte do personagem principal. Hamlet é por natureza um contemplativo, mas, como príncipe, está obrigado a agir; ele, contudo, não sabe como conciliar as duas dimensões e é em cima deste desafio que o drama da peça se desenrola. Lembremos a este respeito que a concepção universal da perfeição é a do "Rei-Sacerdote" — do "contemplativo-ativo" — como exposto, por exemplo, por Platão em A República.

Os personagens de Shakespeare são como "peregrinos" em busca da perfeição, e neste sentido nos servem de espelho, ao terem de se dominar e depois se superar para obter êxito e se realizarem humana e espiritualmente. Todas as suas grandes peças veiculam este mesmo tema, o qual é exposto de maneiras maravilhosamente diferentes, sempre causando impacto nas consciências, tanto maior quanto mais profundamente compreendido, até se chegar ao "impacto total" de que fala Martin Lings.

Este impacto também deriva de outro fator, que é o da "universalidade" da perspectiva de Shakespeare. Afinal, ele não transmitia as idéias e concepções de uma única cultura ou civilização, apesar de formalmente estar a ela vinculado, mas sim um saber que não conhece fronteiras de povos ou de épocas, saber este que, justamente a partir de seu tempo, passou a ser conhecido como "filosofia perene". Esta perspectiva universalista desde então tem despertado crescente interesse, chegando aos nossos dias como uma grande esperança para o resgate da esfera intelectiva mencionada no início deste artigo.

 


Mateus Soares de Azevedo, jornalista e ensaísta, é tradutor de A arte sagrada de Shakespeare - O mistério do homem e da obra, Polar, S.Paulo, 2004.

 

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