uma voz do ness

Alvanísio Damasceno

 

sob águas paradas, escuras,

tirar alimentos da lama.

pensar e comer,

comer e pensar

que viver é preciso

— existir, nem tanto.

saber que sou vasto e me basto,

dançar este bailado

sem espelhos, sem platéia,

evocar a natureza impudica de que sou filho

com a leveza de meu corpo avantajado.

chegar à superfície.

sentir o ar, esse outro elemento.

observar os que (alheios ao Sol)

vivem sob a Ordem

e empunham armas fotográficas

em vã tentativa de me ferir

para que tombe em sua realidade.

sou vasto e me basto, repito;

sua padronização colorida,

sua invariabilidade

parecem-me monstruosas

como monstruosas lhes parecem

minha singularidade,

minha falta de jeito

e minha solidão.

duvidam de minha existência;

talvez pensem que sou Deus.

 

Alvanísio Damasceno é autor de Todo Fogo É Sagrado, Editorial Rio, 1987

 

 

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